20/01/2026

Como a redução na recomendação de vacinas para crianças nos EUA impacta o Brasil

Por Giulia Peruzzo/Folhapress em 20/01/2026 às 11:09

Arquivo/Prefeitura de Santos
Arquivo/Prefeitura de Santos

No início deste mês, as autoridades de saúde dos Estados Unidos diminuíram o número de vacinas recomendadas para crianças de 17 para 11. A decisão parece não ter impacto direto no Brasil, mas especialistas alertam que a mensagem que a ação deixa pode ter.

A partir deste ano, a hepatite A e B, influenza, meningite, rotavírus e vírus sincicial respiratório deixam de ser suas vacinas recomendadas pelos CDC (Centros de Controle de Doenças). Na prática, o órgão federal deixar de recomendar as vacinas não deveria interferir na disponibilidade delas para a população.

A secretaria de saúde americana afirmou que, durante o ano de 2026, os planos de saúde continuarão cobrindo as vacinas que eram recomendadas no calendário do ano anterior para quem quiser tomá-las.

Esse cenário seria diferente no Brasil, por exemplo, já que a recomendação do Ministério da Saúde significa a disponibilidade gratuita para toda a população, explica o infectologista José Cerbino.

Por outro lado, o significado simbólico do governo americano não recomendar a vacina para todos pode impactar na aceitação dos imunizantes. “O que estamos preocupados é com a adesão e confiança na vacina”, diz o médico.

O órgão de saúde americano afirma que as vacinas retiradas do calendário de vacinação regular seguem recomendadas para crianças em grupos de risco e devem ser discutidas com o profissional de saúde responsável.

A prática, chamada de decisão compartilhada, é ótima em teoria, diz Patrícia Vanderborght, doutora em Biologia Molecular e Genética Humana pela Fiocruz e responsável pelo setor de Imunização Humana da Rede D’Or, mas não tanto na prática.

“Quando se transfere a responsabilidade da recomendação para o indivíduo, muitos acabam optando por não se vacinar simplesmente por medo ou dúvida, não por convicção”, diz.

O secretário de saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., é associado a declarações antivacina desde antes de assumir o cargo, no início do segundo mandato de Donald Trump. Sob sua administração, o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização (ACIP, na sigla em inglês) foi dissolvido, além de ter afirmado que as vacinas têm relação com o autismo.

“As análises [para a recomendação] não estão sendo feitas baseadas em opinião técnica, muito pelo contrário. Eles praticamente destituíram o Comitê Técnico em Imunização dos Estados Unidos, o que limita o ponto de vista técnico das recomendações”, diz Rosana Ritchmann, infectologista do grupo Santa Joana, diretora do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia e membro do CTAI (Comitê Técnico Assessor em Imunização) do Programa Nacional de Imunização (PNI).

Um exemplo de como o descrédito das autoridades federais pode influenciar na confiança da população em relação às vacinas é a epidemia de sarampo que os EUA estão enfrentando. A vacina do sarampo segue sendo recomendada pelos CDC e, mesmo assim, as taxas de vacinação estão em queda e o país está prestes a perder o certificado de ser livre de sarampo.

Uma das justificativas do governo americano para deixar de recomendar as vacinas foi baseada na revisão do calendário de 20 países desenvolvidos e reflete “consenso sobre as vacinas consideradas mais importantes”.

Cada país tem questões epidemiológicas, econômicas e regulatórias distintas para poder elaborar o calendário de vacinação, explicam os especialistas, e não é eficaz basear as recomendações em calendários de outro país. No entanto, a população pode não compreender as diferenças, e questionar o calendário nacional.

“Os Estados Unidos têm influência no Brasil”, afirma Mônica Levi, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). “Por muito tempo, o Brasil era um país blindado do antivacinismo e da hesitação vacinal. Mas a Covid mudou completamente também a nossa situação.”

Durante a pandemia da Covid-19, as autoridades brasileiras questionaram a segurança e eficácia da vacina contra a doença, inflamando movimentos antivacina. Mesmo antes, em 2019, o Brasil perdeu a certificação de país livre de sarampo, recuperando apenas em 2024.

Apesar de ter recuperado boa parte da cobertura vacinal, em 2025 apenas duas vacinas infantis atingiram a meta de cobertura de 95% colocada pelo PNI. A vacina da Covid-19 teve apenas 3,49% de cobertura, o que o Ministério da Saúde atribuiu a descredibilização dessa vacina durante a pandemia.

Vanderborght diz que a globalização, com viagens internacionais, pode fazer com que os vírus de outros países se espalhem aqui. “Surtos em grandes países aumentam o risco global, inclusive para o Brasil”, afirma. “O sarampo não volta porque a vacina falhou, ele volta porque as pessoas deixam de se vacinar.”

Manter as coberturas vacinais satisfatórias no Brasil é uma forma de proteger a população, diz Net. O que, mesmo com a queda recente, nosso país ainda faz de forma eficaz.

Para a presidente da SBIm, é inaceitável a morte ou sequelas em crianças de doenças que são imunopreveníveis, que são preveníveis pela vacinação. “Isso é um ato que atenta contra os direitos da saúde da criança”, afirma.

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