19/06/2026

Ataques de Israel no Líbano matam 47 e ameaçam acordo EUA-Irã no Oriente Médio

Por Folha Press em 19/06/2026 às 17:59

Pixabay
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Novos ataques entre as forças de Israel e o grupo extremista Hezbollah, nesta sexta (19), colocam em risco o acordo provisório firmado entre Estados Unidos e Irã para interromper a guerra no Oriente Médio.

Em ações que marcam um aumento da violência, quatro soldados israelenses foram mortos numa das ofensivas mais letais já feitas pela organização xiita desde o início do conflito, de acordo com Tel Aviv, enquanto bombardeios atribuídos a Israel mataram pelo menos 47 pessoas em território libanês.

Os episódios motivaram a França a pedir que Washington pressione o seu aliado Israel para interromper as hostilidades no Líbano. Também levantam dúvidas em relação ao entendimento firmado por Washington e Teerã no último domingo (14).

O acordo prevê o fim das operações militares de todas as partes envolvidas no conflito do Oriente Médio, incluindo a frente libanesa. Apesar de uma diminuição temporária da violência no início desta semana, os combates voltaram a aumentar.

Horas depois, Israel e Hezbollah anunciaram um novo cessar-fogo que deveria entrar em vigor às 16h locais (10h em Brasília). Após a implementação da trégua, porém, jornalistas da agência de notícias Reuters relataram mais bombardeios feitos pelas forças de Israel contra alvos em território libanês.

Em paralelo às ações militares, aumentou a incerteza sobre as negociações entre EUA e Irã destinadas a transformar o memorando assinado na quarta (17) em um acordo de paz permanente. Uma rodada de conversas técnicas que deveria ocorrer também nesta sexta-feira na Suíça foi adiada.

Segundo autoridades familiarizadas com os preparativos, o vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, desistiu de participar do encontro. Os motivos da desistência não estão claros. Também havia indicações de que o principal negociador iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, não compareceria. O governo suíço confirmou o adiamento das negociações e informou que continua disposto a facilitar o diálogo.

O entendimento entre Washington e Teerã enfrenta resistência de diferentes lados. Autoridades de Israel criticam o acordo por considerar que ele não resolve de forma adequada as preocupações relacionadas ao programa nuclear iraniano e limita a liberdade de ação militar israelense contra o Hezbollah no Líbano.

Nos EUA, até mesmo aliados republicanos do presidente Donald Trump questionam se a Casa Branca fez concessões excessivas ao conceder alívio de sanções econômicas e desbloquear ativos iranianos.

O líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, afirmou que Trump assinou o acordo “por desespero” e acrescentou que as futuras negociações sobre o programa nuclear não serão fáceis. Segundo ele, o Irã não aceitará exigências excessivas de Washington. O Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano também prometeu responder a qualquer violação do acordo.

O memorando assinado pelos dois países estabelece um prazo de 60 dias para que negociadores cheguem a um entendimento sobre o programa nuclear iraniano e outras questões pendentes, além da criação de um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões para o Irã e outros incentivos financeiros. O acordo também prevê a possibilidade de prorrogação do cessar-fogo temporário.

Mas, nesta sexta, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, acusou Israel de querer uma “guerra permanente” após o ministro da Segurança Nacional israelense, o extremista Itamar Ben Gvir, dizer que “todo o Líbano deve queimar”.

“Isto não é um desabafo de um lunático genocida qualquer. É uma publicação do ministro da Segurança Nacional do regime israelense. O culto genocida da morte, sediado em Tel Aviv, é uma ameaça para toda a humanidade. Ameaça todos os seres humanos”, escreveu ele no X.

No Líbano, ataques aéreos israelenses mataram 47 pessoas e feriram outras 97, segundo o Ministério da Saúde de Beirute. As autoridades afirmaram que os bombardeios dificultam os trabalhos de resgate, e disseram que o número de vítimas pode aumentar. Na vila de Harouf, ao nordeste da cidade de Tiro, sete pessoas morreram, e várias outras estariam sob os escombros.

Israel afirmou que os ataques tiveram como alvo integrantes e infraestruturas do Hezbollah no sul do Líbano. O Exército israelense justificou a ofensiva sob o argumento de violações do cessar-fogo por parte do grupo apoiado pelo Irã. Em nota, as Forças Armadas de Tel Aviv disseram ter atacado mais de 80 alvos, incluindo centros de comando da organização, e afirmaram ter eliminado dezenas de combatentes.

Os combates mais intensos ocorreram na área da colina Ali al-Taher, ao norte do rio Litani, considerada estratégica para o Hezbollah. Segundo uma autoridade de segurança libanesa, forças israelenses tentavam avançar na região quando foram alvo de uma emboscada. O Hezbollah afirmou ter destruído três tanques com mísseis guiados e atacado tropas israelenses com foguetes e artilharia. O grupo também informou ter atacado forças enviadas posteriormente para resgatar vítimas.

Sem divulgar detalhes, o Exército israelense confirmou a morte de quatro soldados.

O atual conflito na fronteira começou em 2 de março, quando o Hezbollah passou a atacar posições israelenses em apoio ao Irã, que havia sido atacado por Israel e pelos EUA dias antes. Em resposta, Tel Aviv iniciou uma ofensiva contra o grupo e invadiu o sul do Líbano. Desde então, Israel mantém tropas em uma chamada zona de segurança criada em território libanês sob a justificativa de que a medida é necessária para proteger o norte do país contra ataques da organização extremista.

A morte dos militares israelenses provocou reações inflamadas dentro do governo de Israel. Os ministros de extrema direita Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich defenderam uma resposta mais dura contra o Líbano. Além de escrever que todo o Líbano “deveria queimar”, Ben-Gvir publicou em uma rede social que, para cada lágrima de uma mãe israelense, “mil mães libanesas devem chorar”. Já Smotrich afirmou que chegou o momento de “abrir os portões do inferno”.

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, por sua vez, disse que a intensificação dos ataques mina o cessar-fogo. De acordo com o Ministério da Saúde libanês, os ataques israelenses já mataram 3.912 pessoas no país desde 2 de março, incluindo profissionais de saúde, mulheres e crianças. Do lado israelense, ao menos 32 soldados e quatro civis morreram durante essa fase do confronto.

Veja uma síntese do acordo do EUA e Irã

EUA e Irã, junto a aliados, declaram fim imediato de todas as operações militares —inclusive no Líbano— e se comprometem a não iniciar novos conflitos nem ameaçar a soberania um do outro.

As partes se comprometem a respeitar a soberania e não interferir nos assuntos internos um do outro.

As partes têm até 60 dias (prorrogáveis) para chegar a um acordo final.

EUA iniciam a remoção do bloqueio naval ao Irã, com encerramento total em 30 dias. Forças americanas se retirarão das proximidades do Irã em até 30 dias após o acordo final.

Irã garantirá passagem segura e gratuita de embarcações comerciais em Hormuz por apenas 60 dias, com remoção de minas em até 30 dias. O futuro do estreito será negociado com Omã e outros países costeiros.

EUA se comprometem a desenvolver, com parceiros, um plano de pelo menos US$ 300 bilhões para reconstrução e desenvolvimento do Irã.

EUA revogarão sanções contra o Irã conforme cronograma a ser definido no acordo final.

Irã reafirma que não desenvolverá armas nucleares. O material enriquecido armazenado será diluído sob supervisão da AIEA. Questões sobre enriquecimento serão discutidas no texto final.

Até o acordo final, mantém-se o status quo: Irã não avança no programa nuclear e EUA não impõem novas sanções nem enviam forças.

EUA concedem isenções para exportação de petróleo iraniano e serviços associados até o fim das sanções.

EUA liberam integralmente fundos e ativos iranianos congelados.

Será criado um mecanismo executivo para monitorar o cumprimento do memorando e do acordo final.

Negociações do acordo final só terão início após o cumprimento dos itens 1, 4, 5, 10 e 11.

Acordo final será endossado por uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU.

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