Trump anuncia envio de navio-hospital à Groenlândia, e premiê da ilha diz: 'Não, obrigado'
Por Folhapress em 22/02/2026 às 17:29
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse, na noite deste sábado (21), que estava enviando um navio-hospital à Groenlândia, o território autônomo dinamarquês que deseja anexar. O premiê da ilha, Jens-Frederik Nielsen, respondeu “não, obrigado” à proposta neste domingo (22).
A retórica do republicano, que chegou a mencionar o uso da força para conquistar o território, elevou as tensões entre EUA e Europa e colocou o Ártico no centro das atenções da geopolítica. Ele insiste que a ilha rica em minerais é vital para seu país e para a segurança da Otan, a aliança militar ocidental liderada por Washington e da qual a Dinamarca também faz parte.
Trump disse que o navio-hospital atenderia muitos doentes na Groenlândia, mas não deu detalhes sobre a quem se referia nem ao número de pessoas que a embarcação supostamente ajudaria.
“Em colaboração com o fantástico governador da Lousiana, Jeff Landry, enviaremos um grande navio-hospital para a Groenlândia para cuidar das muitas pessoas doentes que não estão recebendo os cuidados necessários”, escreveu Trump em uma publicação em sua plataforma, a Truth Social. “Já está a caminho!”, acrescentou.
O plano foi anunciado momentos antes de Trump oferecer um jantar para governadores republicanos na Casa Branca, onde se sentou ao lado de Landry, enviado especial da ilha ártica desde dezembro do ano passado.
Nem a Casa Branca nem o gabinete de Landry responderam a perguntas da agência de notícias Reuters sobre a publicação, nem afirmaram quais doentes precisavam de ajuda. O Departamento de Defesa tampouco se pronunciou imediatamente.
Além do premiê da Groenlândia, autoridades dinamarquesas também afirmaram neste domingo que a Groenlândia “não precisa” de apoio na área da saúde, pois o atendimento médico no território é gratuito e universal.
“A população da Groenlândia recebe o atendimento médico de que precisa. Recebe esse atendimento na Groenlândia e, se for necessário tratamento especializado, recebe na Dinamarca. Portanto, uma iniciativa especial de saúde na Groenlândia não é necessária”, declarou o ministro da Defesa, Troels Lund Poulsen, à emissora dinamarquesa DR.
Sem mencionar explicitamente a proposta dos EUA, a primeira-ministra do país, Mette Frederiksen, expressou sua satisfação por viver em um país onde o acesso à saúde é gratuito e igual para todos e onde o seguro saúde ou a riqueza não determinam se alguém recebe um tratamento digno. “O mesmo acontece na Groenlândia”, escreveu ela no Facebook.
Assim como a Dinamarca, a ilha ártica tem acesso a assistência médica gratuita, e as autoridades locais administram seu sistema de saúde. A Groenlândia possui um total de cinco hospitais regionais, e o de Nuuk, a capital, recebe pacientes de todo o território. No início de fevereiro, o governo da ilha assinou um acordo com Copenhague para melhorar o atendimento aos pacientes groenlandeses em hospitais dinamarqueses.
Aaja Chemnitz, representante da Groenlândia no Parlamento dinamarquês, reconheceu em uma publicação no Facebook que o sistema de saúde da ilha é “extremamente subdesenvolvido”, mas negou que uma ajuda com os EUA seja a alternativa adequada.
“A melhor solução é a cooperação com a Dinamarca, que é um dos países mais ricos e com melhor formação, por exemplo, na área da saúde. Não com os EUA, que têm seus próprios problemas em seu sistema de saúde”, escreveu ela.
O anúncio de Trump ocorre pouco depois de o rei Frederik da Dinamarca fazer sua segunda visita à Groenlândia em um ano, numa tentativa de demonstrar união com o território, e horas após o Comando Conjunto do Ártico de Copenhague anunciar a evacuação de um tripulante que necessitava de tratamento médico urgente de um submarino americano em águas da Groenlândia, perto da capital groenlandesa, Nuuk.
A publicação no Truth Social incluía uma imagem aparentemente gerada por inteligência artificial que mostrava o USNS Mercy um navio de 272 metros que normalmente fica estacionado no sul da Califórnia navegando em direção a montanhas nevadas no horizonte.
Não ficou claro se esse modelo é o que realmente está sendo enviado à Groenlândia. Além dele, a Marinha dos EUA possui apenas outro navio-hospital, o Comfort, que também não está estacionado na Louisiana.
No mês passado, Trump recuou de suas ameaças de se apoderar do território, após alcançar um acordo com o chefe da Otan, Mark Rutte, para garantir maior influência dos EUA nesse território.