Cria de projeto social de São Vicente, bicampeão nacional de boxe Harold Araújo inspira novos atletas
Por Beatriz Pires em 31/05/2026 às 06:00
O boxeador Harold Araújo alcançou o topo do boxe nacional pela segunda vez ao conquistar o título de bicampeão brasileiro profissional, na categoria até 66 kg. Natural de São Vicente, o atleta venceu a luta decisiva disputada no Instituto Coliseu, em Guarulhos (SP), consolidando seu nome entre os principais pugilistas da modalidade e fortalecendo o cenário das artes marciais na Baixada Santista.
A trajetória até o segundo cinturão nacional foi marcada por barreiras financeiras, ausência de patrocinadores fixos e pelo desafio diário de conciliar a rotina de treinos intensos com o trabalho e o sustento da família. Harold ingressou na modalidade há apenas cinco anos, após participar de uma aula experimental na Associação Catuense, um projeto social vicentino.
Desde então, o atleta passou a utilizar a técnica e a disciplina como ferramentas para superar adversários com maior estrutura financeira e experiência competitiva no ringue.
“Vi no boxe uma oportunidade de mudar minha vida, aprender disciplina, ter foco e superar meus próprios limites todos os dias”, afirma o campeão, que agora projeta os primeiros passos em competições internacionais.
Papel do esporte como ferramenta de cidadania
Além da carreira profissional, Harold também atua como professor na própria Associação Catuense, instituição que atende cerca de 150 jovens em situação de vulnerabilidade social. O projeto foi criado por moradores para oferecer alternativas de esporte, lazer e cidadania à comunidade.
Segundo o pugilista, o projeto teve papel decisivo em sua formação integral, moldando seu caráter para além das cordas do ringue.
“O projeto social teve um papel fundamental na minha formação, tanto como atleta quanto como pessoa. Foi através dele que aprendi valores como disciplina, respeito, humildade e perseverança. Dentro do esporte encontrei o apoio e o incentivo que mudaram minha vida. Além de formar campeões, o projeto forma cidadãos e transforma vidas”, destaca.
A vivência na comunidade despertou em Harold um profundo senso de responsabilidade social e o desejo de servir como espelho para as novas gerações da Área Continental.
Debate sobre o incentivo além do futebol
A conquista do bicampeonato brasileiro acende novamente os holofotes sobre a escassez de investimentos em modalidades esportivas que correm por fora do circuito do futebol. Para Harold, a falta de patrocínio e de estrutura adequada interrompe precocemente carreiras promissoras no país.
“Infelizmente, ainda existe pouca valorização e apoio para atletas de modalidades fora do futebol. Muitos treinam arduamente todos os dias, representam suas cidades e até o país, mas enfrentam dificuldades extremas para conseguir recursos mínimos para viajar e competir”, desabafa o lutador.
O atleta ressalta que o suporte conjunto de projetos sociais, pequenos apoiadores e o engajamento da própria comunidade são os fatores que mantêm o esporte amador e profissional vivo na região.
Formação integrada dentro e fora dos ringues
Indo além das tradicionais aulas de boxe e muay thai, a Associação Catuense desenvolve uma ampla rede de ações comunitárias em São Vicente, incluindo a distribuição de leite para famílias cadastradas, auxílio na inscrição de programas governamentais e mutirões de atendimentos voluntários na área da saúde.
Harold utiliza a sua própria história de sucesso na Baixada Santista como a principal ferramenta pedagógica para motivar seus alunos.
“Eu sempre digo para eles nunca desistirem dos sonhos e acreditarem no potencial que cada um carrega. O esporte ensina muito mais do que lutar ou competir. Existem momentos de cansaço e vontade de parar, mas é justamente nesses momentos que precisamos continuar. O esporte pode mudar vidas, assim como transformou a minha”, conclui o bicampeão.