Crescimento das motos elétricas na Baixada Santista amplia debate sobre segurança e fiscalização
Por Beatriz Pires em 31/05/2026 às 05:00
Mais acessíveis e ecológicas do que as motocicletas convencionais, as motos e os ciclomotores elétricos popularizaram-se rapidamente na Baixada Santista. No entanto, o crescimento dessa frota acende um alerta vermelho sobre a segurança. Um recente incêndio em um edifício residencial em Santos expôs os riscos relacionados ao uso de baterias de lítio em ambientes fechados e à falta de orientação técnica no momento da compra, cenário que especialistas apontam como um dos principais fatores de vulnerabilidade entre os usuários.
O avanço da eletromobilidade na região é impulsionado principalmente pela busca por economia e praticidade no deslocamento diário. Enquanto alguns consumidores priorizam o baixo custo de manutenção em comparação aos veículos a combustão, outros veem nos elétricos a alternativa perfeita para escapar dos congestionamentos urbanos.
Baterias de lítio e o risco de curto-circuito
Apesar da expansão do setor, engenheiros alertam para um perigoso vazio de informação envolvendo a comercialização desses veículos. Muitos consumidores adquirem motos elétricas de terceiros ou em revendas informais sem receber as orientações adequadas sobre o carregamento, a manutenção preventiva e o armazenamento seguro das baterias.
O principal risco reside nas baterias de íons de lítio, que podem sofrer superaquecimento (embalamento térmico) durante a recarga, especialmente em locais fechados, sem ventilação ou perto de materiais inflamáveis.
A recomendação é que os usuários realizem inspeções frequentes nos componentes elétricos e fiquem atentos a qualquer sinal de dano físico na carcaça do equipamento, como rachaduras, estufamentos ou deformações causadas por quedas e colisões. De acordo com o engenheiro eletricista Luiz Augusto, esses danos internos podem desencadear processos de combustão espontânea. Além disso, o uso de fiações elétricas adequadas e tomadas compatíveis é fundamental para evitar sobrecargas na rede residencial.
“Diferente dos combustíveis convencionais, a queima do lítio libera oxigênio durante a reação química. Isso alimenta as chamas continuamente e torna o combate ao fogo extremamente complexo e demorado”, explica o engenheiro Luiz Augusto.
Conflito nas ciclovias e condução por menores
O avanço dos veículos elétricos também ampliou os debates sobre a segurança viária nas ciclovias da região. Ciclistas e pedestres relatam situações frequentes de perigo envolvendo equipamentos mais rápidos e pesados circulando em espaços originalmente desenhados para o transporte humano.
A motorista Manoella Banco afirma já ter testemunhado e vivenciado momentos de apuro na orla. “Já presenciei quase colisões assustadoras entre motos elétricas e ciclistas comuns, principalmente nos trechos compartilhados e nos cruzamentos da praia. Falta consciência de quem está acelerando”, relata.
Outro ponto crítico é a condução desses veículos por menores de idade, muitas vezes sem nenhum treinamento, preparo ou conhecimento das regras básicas de trânsito. Embora as bicicletas elétricas mais simples (que exigem pedalada assistida) não demandem documentação, especialistas alertam que muitos equipamentos comercializados como “bikes” possuem acelerador manual e conseguem atingir velocidades superiores a 32 km/h, o que os enquadra em outra categoria legal.
Fiscalização está mais rígida em Santos
O cenário ficou consideravelmente mais restritivo no município após a vigência da Lei Municipal nº 4.221/2023 e o encerramento do prazo do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) para a regularização de ciclomotores.
Atualmente, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET-Santos) e a Polícia Militar mantêm uma diretriz rígida de fiscalização:
- Apreensão imediata: Veículos com potência de até 4 kW (ciclomotores) que circulam sem placa, sem registro de licenciamento ou cujos condutores não possuam habilitação (Carteira Nacional de Habilitação na categoria A ou a Autorização para Conduzir Ciclomotores – ACC) são guinchados.
- Limites de velocidade: Nas ciclovias santistas, o limite máximo permitido para bicicletas elétricas é de 20 km/h. Equipamentos que saem de fábrica com capacidade de ultrapassar 32 km/h são proibidos de circular nas pistas de bicicleta e devem rodar na rua, emplacados.
- Responsabilidade jurídica: A fiscalização também pode alcançar os comerciantes. Lojistas que vendem esses veículos sem informar de forma clara o consumidor sobre a necessidade legal de habilitação e registro podem responder por infrações ao Código de Defesa do Consumidor (CDC).
Educação técnica como solução
Diante do cenário, o engenheiro Luiz Augusto defende que a venda de motos elétricas no Brasil seja obrigatoriamente vinculada a uma cartilha de instruções técnicas sobre o uso correto e seguro das baterias. Para o especialista, a conscientização do usuário final é a principal barreira para evitar tragédias domésticas e mortes no trânsito.
“O ideal seria que as lojas oferecessem um treinamento básico de instrução sobre os cuidados com a bateria e os limites do veículo antes de fechar a compra. Só a fiscalização nas ruas não vai resolver o problema que começa dentro de casa”, conclui o engenheiro.