Ex-alunos mobilizam abaixo-assinado por restauro do Escolástica Rosa
Por Beatriz Pires em 20/06/2026 às 06:00
Uma mobilização liderada por ex-alunos busca pressionar autoridades e instituições para garantir a preservação do prédio do Instituto Escolástica Rosa, um dos patrimônios históricos mais emblemáticos de Santos. Apesar de já existir um projeto de restauro aprovado pela Prefeitura, a comunidade demonstra preocupação com o estado de conservação do imóvel e pretende levar o caso ao Ministério Público.
A iniciativa é conduzida pela corretora de imóveis e ex-aluna da instituição, Fernanda Rodrigues, que criou um abaixo-assinado cobrando ações concretas para a recuperação do edifício. Segundo a organizadora, a urgência da mobilização está relacionada ao receio de que o avanço da degradação comprometa a preservação da estrutura e coloque em risco a permanência do patrimônio.
Diante desse cenário, busca-se reunir assinaturas para solicitar a atuação do Ministério Público e garantir que a Santa Casa de Santos cumpra o testamento do doador João Octávio, preservando a função social do imóvel.
Preocupação com o futuro do patrimônio
Entre os apoiadores do movimento está o historiador Odair Close, que defende a preservação do edifício como parte da identidade cultural da cidade.
“Vimos recentemente que Santos é a cidade mais verticalizada do Brasil. Da noite para o dia, chalés e prédios de três andares são derrubados para dar lugar a torres que inflam o preço do metro quadrado, expulsam os mais pobres e a classe média da cidade e desconfiguram a identidade arquitetônica de Santos”, afirma.
Mais de um século de história
Inaugurado em 1º de janeiro de 1908, o Escolástica Rosa atuou por mais de um século como o principal polo de formação técnica da região, sendo vital para a qualificação da mão de obra que consolidou o Porto de Santos como o maior do Hemisfério Sul. O complexo é protegido por tombamentos estadual, desde 1991, e municipal, desde 1992, o que deveria impedir qualquer descaracterização de seu projeto assinado por Ramos de Azevedo, arquiteto de marcos como o Teatro Municipal de São Paulo.
“Manter o Escolástica Rosa de pé é também continuar dando vida à singularidade, à história e à cultura de Santos e de São Paulo”, destaca Close.
Legado cultural e arquitetônico
De acordo com o historiador, o cotidiano da escola ajudou a moldar a cultura santista por meio de oficinas de marcenaria, alfaiataria e desenho industrial.Um dos destaques da instituição era sua gráfica própria, responsável pela edição de obras de escritores locais, aproximando a formação técnica da produção intelectual da Baixada Santista.
O prédio também é considerado um importante exemplar da arquitetura eclética paulista. Construído na transição para o século 20, representou uma ruptura com o padrão arquitetônico colonial predominante na cidade.
Com áreas abertas e arborizadas, salas amplas e grandes janelas para ventilação e iluminação natural, o projeto seguia conceitos urbanísticos adotados em centros europeus da época. Localizado na região da atual Aparecida e Ponta da Praia, o edifício tornou-se uma referência urbana e, durante décadas, foi a construção de maior destaque em seu entorno.
Impasse financeiro
Atualmente, o futuro do Escolástica Rosa depende da superação de entraves financeiros. A Prefeitura de Santos informou que o projeto de restauro possui licença aprovada pela Secretaria de Obras e Edificações. No entanto, a execução das obras ainda enfrenta dificuldades relacionadas à obtenção de recursos.
“Eu sei que a Santa Casa alega não ter recursos para realizar a restauração, mas acredito sinceramente que existem alternativas. Tenho certeza de que muitos santistas contribuiriam se houvesse uma campanha de arrecadação ou um movimento organizado para salvar esse patrimônio. Existem caminhos possíveis quando há vontade”, afirma Fernanda Rodrigues.
Em nota, a Santa Casa de Santos informou que o prédio do Escolástica Rosa já está passando por obras de restauração e ressaltou que todas as ações relacionadas ao imóvel seguem os trâmites legais e técnicos necessários.
Mobilização busca apoio popular
Embora o abaixo-assinado tenha alcançado ampla repercussão nas redes sociais, os organizadores afirmam que o principal desafio é transformar o apoio virtual em participação efetiva.Segundo a liderança do movimento, existe forte identificação afetiva de ex-alunos e moradores com a instituição, mas ainda há dificuldade para reunir voluntários dispostos a atuar diretamente junto aos órgãos públicos e acompanhar os processos burocráticos.
O objetivo da mobilização é garantir não apenas a preservação física do edifício, mas também a divulgação de um cronograma transparente para a recuperação do patrimônio e a retomada de sua função social.
Atualmente, o abaixo-assinado já soma 3.977 assinaturas. Para apoiar a iniciativa, os interessados podem acessar a plataforma Change.org.