“Super El Niño” pode provocar chuvas extremas e calor recorde na Baixada Santista
Por Beatriz Pires em 26/04/2026 às 12:00
O climatologista Rodolfo Bonafim acendeu o alerta para a formação de um “Super El Niño”, que pode ser o mais intenso dos últimos 140 anos. O fenômeno traz riscos reais de chuvas torrenciais, inundações severas e recordes de temperatura na Baixada Santista. Os efeitos mais críticos devem ser sentidos entre o final de 2026 e o início de 2027.
O fenômeno é provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico acima de 2°C, intensificado pelo aquecimento global e por mudanças climáticas locais que favorecem a formação de ilhas de calor. “Diferente das frentes frias prolongadas causadas pela La Niña, o El Niño se destaca por provocar chuvas pontuais, fortes e rápidas, com grande volume de água em curto espaço de tempo”, explica Bonafim.
Vulnerabilidade geográfica
A Baixada Santista é especialmente vulnerável devido à sua baixa altitude. Em diversos pontos, o nível do terreno está próximo ou abaixo do nível do mar, o que potencializa alagamentos quando chuvas intensas coincidem com a maré alta. Áreas como a Zona Noroeste (Santos), Catiapoã (São Vicente) e Santo Antônio (Guarujá) estão entre as mais suscetíveis.
Nessas condições, o sistema de drenagem pode sofrer refluxo, permitindo que a água do mar invada áreas urbanas. Como a primavera já é historicamente chuvosa na região, a presença do El Niño tende a intensificar esse padrão.
Investimentos em infraestrutura e drenagem
Para mitigar os impactos, os municípios têm ampliado as obras de macrodrenagem:
- Santos: Aposta na Estação Elevatória com Comportas (EEC) na Zona Noroeste, que bombeia a água contra a maré. Projetos semelhantes estão previstos para o Saboó e a orla.
- Guarujá: Estão em construção três piscinões para retenção de águas pluviais e bombeamento para o Rio Santo Amaro, além de um dique no bairro Santo Antônio.
- São Vicente: Desde 2023, realiza o desassoreamento de canais pelo Programa Rios Vivos e a implantação de comportas em oito pontos estratégicos, incluindo a bacia do Catiapoã.
Tecnologia no monitoramento
Além das obras físicas, as cidades da região têm investido em monitoramento e prevenção. Mongaguá aposta na capacitação de equipes e no uso de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs), os drones, para acompanhar as encostas e áreas alagadas em tempo real.
Praia Grande ampliou o uso de pluviômetros automáticos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), além de manter vistorias em áreas de risco e enviar alertas por SMS à população com base em informações do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad).
Já o Guarujá implementou um sistema de sirenes que dispara quando o volume de chuva atinge 40 mm/h. Segundo o município, a medida contribuiu para reduzir pela metade os impactos das chuvas nos últimos anos.
Itanhaém e Mongaguá também avançam na elaboração de legislações específicas e planos de adaptação climática. Em Itanhaém, a estratégia combina obras de macrodrenagem com soluções baseadas na natureza e diagnósticos de vulnerabilidade, integrando a resiliência climática ao planejamento urbano.
Entre as ações em andamento estão intervenções em bairros como:
- Guapiranga
- Jardim Mosteiro
- Oásis
As obras incluem a instalação de galerias pluviais em áreas historicamente afetadas por alagamentos.
Cidades como ilhas de calor
Bonafim ressalta que, embora o El Niño não seja causado pelo aquecimento global, ele é potencializado por ele. Fatores locais, como a verticalização excessiva, interferem na brisa marítima e criam ilhas de calor que bloqueiam a circulação do ar, favorecendo tempestades severas.
“Proponho uma arborização mais intensa nas cidades, que hoje é precária. Muitas árvores são derrubadas devido às redes elétricas aéreas. O ideal seria tornar essas redes subterrâneas para garantir a segurança e o conforto térmico”, conclui o climatologista.