25/03/2026

Idosa perde R$ 200 mil em golpe do bilhete premiado em Santos

Por Lara Flores em 25/03/2026 às 15:00

Foto meramente ilustrativa / Crédito: Freepik
Foto meramente ilustrativa / Crédito: Freepik

Uma idosa de 81 anos perdeu R$ 200 mil ao cair no golpe do bilhete premiado no bairro Aparecida, em Santos. Abordada em frente ao Sesc por uma criminosa que pedia ajuda para ir a uma lotérica, a vítima iniciou ali o que descreve como o maior pesadelo de sua vida.

Como o golpe do bilhete premiado aconteceu

Em novembro de 2025, Ana (nome fictício para preservar a verdadeira identidade da vítima) estacionou o carro com uma amiga na praça do Sesc. Enquanto caminhava para a aula de hidroginástica, foi abordada pela golpista, uma mulher morena, de aproximadamente 30 anos, que disse morar em um sítio em Mogi das Cruzes. Na conversa, ela afirmou que precisava de ajuda para chegar a uma lotérica e consultar um suposto bilhete premiado. Solícitas, Ana e a amiga decidiram ajudar. Logo em seguida, aproximou-se um homem alto e moreno, que se apresentou como psicólogo e ofereceu ajuda na situação.

Como decidiram ir juntos até a lotérica, Ana ofereceu o próprio carro para o trajeto. Ao chegarem, “descobriram” que o bilhete estava premiado no valor de R$ 3 milhões. A golpista, no entanto, alegou que não poderia ficar com o dinheiro por ser judia, justificando que sua religião não permitia o recebimento de valores vindos de jogos. Diante disso, ela propôs repassar o prêmio às duas idosas e ao psicólogo. A condição para que cada um ficasse com R$ 1 milhão era que os três entregassem, antes, uma quantia em dinheiro como garantia para a golpista.

As duas senhoras e o suposto psicólogo foram a bancos, compraram dólares em casas de câmbio e fizeram transferências online para reunir o valor exigido. Em um único dia, Ana transferiu cerca de R$ 200 mil para uma mesma conta, registrada em nome de “Guilherme”. Hoje, a idosa relata não entender como foi capaz disso e sente que foi manipulada, como se estivesse cega.

Descoberta do golpe do bilhete premiado

A criminosa afirmou que enviaria a parte de R$ 1 milhão para a conta de Ana e repassou o contato de uma suposta gerente de banco, com quem a idosa deveria tratar do recebimento. No dia seguinte, Ana tentou falar com a gerente, mas não obteve resposta. O mesmo aconteceu ao tentar ligar para a mulher do sítio e para o psicólogo. Foi então que percebeu que havia caído em um golpe.

Ana foi direto à sua agência bancária para conversar com a verdadeira gerente, que a orientou a ir até a delegacia e registrar um boletim de ocorrência (BO). O procedimento foi feito, mas até hoje a vítima não recuperou o dinheiro. Posteriormente, ela decidiu contratar uma advogada para auxiliar no caso, e o processo segue em andamento.

A idosa relata que foi tomada por sentimentos devastadores, como vergonha, medo, insegurança e desconfiança. Hoje, quatro meses após o ocorrido, Ana está se adaptando à nova realidade: suas contas passaram a ser supervisionadas pelos filhos, o cartão de crédito teve o limite reduzido e ela tem mantido atenção redobrada em todas as compras e interações cotidianas.

Avanço dos golpes contra idosos

De acordo com o Instituto de Defesa de Consumidor (Idec), os tipos de golpes mais comuns aplicados contra a terceira idade envolvem: crédito consignado, benefícios de aposentadoria e INSS, clonagem de cartão de crédito e fraudes no WhatsApp. Em sua maioria, são crimes executados de forma online, o que reforça a necessidade de letramento e atenção dos idosos no mundo digital.

Alexander Coelho, advogado especialista em Direito Digital, Inteligência Artificial e Cibersegurança e sócio do Godke Advogados, avalia que os golpes digitais contra idosos deixaram de ser exceções e passaram a operar como um modelo de negócio estruturado do crime. O idoso é considerado um consumidor hipervulnerável, condição reconhecida pelo Código de Defesa do Consumidor e pelo Estatuto da Pessoa Idosa, o que garante maior proteção legal a esse público.

O especialista orienta que, ao perceber que foi vítima de fraude, a pessoa deve agir imediatamente: contatar o banco para tentar bloquear a transação, registrar o boletim de ocorrência e reunir todas as provas disponíveis. “Existe a possibilidade de recuperar o dinheiro, em muitos casos com o próprio banco, em outros, por meio de ação judicial, processos”, explica.

“Os bancos evoluíram muito em tecnologia, mas nem sempre na mesma velocidade em proteção ao usuário. O poder público ainda atua mais de forma reativa do que preventiva, enquanto isso, o crime opera em escala e com eficiência quase empresarial”, complementa o advogado.

Dicas para o uso digital consciente

Para reforçar a segurança, Coelho lista recomendações essenciais para os idosos:

  • Desconfie de urgências: ignore promessas fáceis e qualquer contato que envolva pressão emocional;
  • Mantenha sigilo absoluto: nunca compartilhe senhas, tokens ou códigos de verificação;
  • Cuidado com links: evite clicar em endereços recebidos por SMS, e-mail ou WhatsApp;
  • Valide informações: confirme qualquer solicitação ou problema diretamente com o seu banco, usando apenas os canais oficiais;
  • Reduza os limites: sempre que possível, limite os valores de transferência diária no aplicativo do banco.
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