Empresário de Guarujá preso por suspeita de estupro relata trauma e medo de retaliação
Por Eduardo Velozo Fuccia/Vade News em 18/01/2026 às 06:00
Após ficar preso durante 13 dias por uma série de crimes que não cometeu, conforme demonstrou a sua defesa, o empresário Lucas Thiago Freitas dos Santos, de 25 anos, tenta retomar a normalidade de sua vida, mas o trauma continua.
Em entrevista exclusiva ao Vade News, o jovem explicou o impacto negativo da prisão em sua vida. “Ficar um minuto preso sendo inocente já é terrível, mas tudo piora quando você é acusado de crimes graves, como estupro, e vira réu no tribunal da internet”.
Pai de duas meninas, de 7 e 2 anos, Lucas conheceu a esposa, um ano mais nova do que ele, na época de escola. O namoro de adolescência virou casamento e a união já completou 12 anos. A família do rapaz é a principal testemunha de sua inocência.
Lucas, a mulher, as filhas e pais dele almoçavam em um restaurante na Enseada, em Guarujá, quando os delitos tiveram início. O advogado Mário Badures reuniu fotos, comprovantes de pagamentos por Pix e outros dados que comprovam a reunião familiar.
“Fiquei em uma cela com oito presos. Ouvia comentários, tanto dos detentos quanto de policiais, de que estuprador não tem vida fácil na cadeia e só era uma questão de tempo, até ser transferido para outro local”, relembrou Lucas.
O empresário ficou na cadeia do 1º DP de Guarujá, porque ele teve decretada contra si prisão temporária de 30 dias. Essa modalidade de custódia pode ser prorrogada por igual período, uma vez, até ser convertida em preventiva ou o acusado ser solto.
Na hipótese de decretação de prisão preventiva, como regra, acusados de crimes não permanecem em carceragens da Polícia Civil. São removidos a centros de detenção provisória (CDPs), “onde diziam que a minha situação ia complicar”, comentou Lucas.
Câmera quebrada
O jovem lamentou a postura de policiais civis que estiveram em sua casa, em Guarujá, para cumprir mandado de busca e apreensão. Ele não estava na moradia e nada de ilícito ou qualquer objeto que o vinculasse aos delitos investigados foi encontrado.
“Os policiais ficaram irritados porque não me acharam. Havia acabado de sair para trabalhar. Então, eles quebraram uma câmera de segurança na frente da casa e levaram o celular da minha esposa e o tablet da minha filha mais velha”, afirmou Lucas.
Segundo o empresário, na residência estavam apenas a sua esposa e as filhas do casal. A mulher questionou os agentes sobre a apreensão desses equipamentos e “um deles, com arrogância, falou que, se quisessem, poderiam levar até geladeira e TV”, acusou o rapaz.
Conforme Lucas, “um agente ainda disse que eu era estuprador na frente da minha filha de 7 anos, que já entende certas coisas e está traumatizada”. O policial também afirmou que anunciou em pontos de tráfico a suposta ligação do investigado com um estupro.
A indignação e a revolta do jovem com tais fatos se somam ao seu sentimento de medo. Receoso de se tornar alvo de retaliação policial, ele decidiu não voltar para a sua casa em Guarujá ao ser solto. Por prudência, mudou-se com a mulher e as filhas para Santos.
O investigado tem como atividade profissional o transporte marítimo de passageiros. Ele possui três embarcações, sendo duas de 36 pés para locação e passeios, e uma menor, do tipo bote, usada exclusivamente para transportar pessoas.
Foto de rosto
A Polícia Civil capturou Lucas sob a justificativa de ele ser suspeito de envolvimento no ataque a um casal vítima de roubo, extorsão, cárcere privado e estupro em uma trilha do Parque Estadual Xixová-Japuí, em São Vicente, no litoral de São Paulo.
As vítimas, de 48 e 49 anos, voltavam da Praia de Itaquitanduva. Elas foram dominadas por três ladrões às 14h30 de 21 de setembro de 2025 (domingo). O crime só terminou na manhã seguinte, após o trio realizar várias transações de Pix com dados do casal.
Após suposta “denúncia anônima” a policiais do 2º DP de Cubatão e um reconhecimento fotográfico formalizado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Vicente, onde tramita o inquérito do crime da trilha, Lucas teve a prisão temporária decretada.
Badures declarou que a foto de Lucas usada no reconhecimento foi tirada na Delegacia de Guarujá em 27 de outubro de 2025, mais de um mês após o crime da trilha, durante o registro de uma ocorrência de trânsito sem vítimas. O jovem pagou fiança e foi liberado.
“Não houve qualquer veiculação da imagem de Lucas na imprensa por ocasião da ocorrência de trânsito. Claro é que a tal denúncia anônima foi prestada por quem possui informações privilegiadas de dentro dos quadros da Polícia Civil”, avaliou o advogado.
Para o criminalista, outro fator que afeta a credibilidade do reconhecimento fotográfico, que não foi ratificado com reconhecimento pessoal, apesar de o investigado permanecer preso durante 13 dias à disposição da polícia, diz respeito ao tipo de foto usada.
O casal descreveu um dos bandidos como “moreno, mais gordinho e com cabelo alisado, de cavanhaque ralo”, reconhecendo Lucas apenas por uma foto de rosto. “Meu cliente não é gordinho, mas obeso, com 130 quilos”, frisou Badures.
Com parecer favorável do Ministério Público, a juíza Thais Caroline Brecht Esteves, da Vara Regional das Garantias da 7ª Região Administrativa Judiciária, acolheu pedido da defesa para revogar a prisão temporária de Lucas.
* Por Eduardo Velozo Fuccia/Vade News