26/03/2025

Prefeito de BH, Fuad Noman, 77, morre 84 dias após tomar posse

Por Artur Búrigo/ Folha Press em 26/03/2025 às 17:49

Divulgação/ Prefeitura Belo Horizonte
Divulgação/ Prefeitura Belo Horizonte

O prefeito de Belo Horizonte, Fuad Noman (PSD), 77, morreu nesta quarta-feira (26). A informação foi confirmada pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Ele estava internado desde 3 de janeiro no Hospital Mater Dei, da capital mineira, quando deu entrada com um quadro de insuficiência respiratória aguda. Segundo boletim médico, Fuad morreu em consequência das complicações de um linfoma não Hodgkin.

Em outubro, Fuad havia se tornado o político mais velho a vencer uma eleição para prefeito de Belo Horizonte. Desde o pleito, foi internado ao menos quatro vezes. Ele deixa a esposa, Mônica, dois filhos e quatro netos.

O velório será na prefeitura da capital mineira, nesta quinta-feira (27), das 13h às 16h. A cerimônia será aberta ao público, com acesso pela avenida Afonso Pena, 1.212. A gestão municipal decretou luto oficial de oito dias.

Fuad é o segundo prefeito de Belo Horizonte a morrer no cargo. O primeiro foi o empresário Américo Rennê Giannetti, que tomou posse em 1951 e morreu em 1954.

Com a morte, o vice-prefeito Álvaro Damião (União Brasil), que estava como prefeito interino, assume a gestão da capital mineira pelos próximos quatro anos.

Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte lamentou a morte de Fuad. “Em 2022, assumiu o cargo de prefeito da capital mineira, e desde então conduziu a cidade com serenidade, firmeza e espírito público. Fuad era conhecido por seu trato gentil, sua capacidade de escuta e seu amor por Belo Horizonte. Um homem público íntegro, cuja história se confunde com o desenvolvimento da nossa cidade. Neste momento de dor, nos solidarizamos com os familiares, amigos e todos os cidadãos belo-horizontinos que perdem não apenas um líder, mas um exemplo de ser humano. A cidade se despede com gratidão e reverência.”

Em julho, o prefeito anunciou que havia sido diagnosticado com um linfoma não Hodgkin e começou o tratamento ao mesmo tempo em que acumulava o cargo de prefeito e estava em pré-campanha para a reeleição.

“Digo a vocês com tranquilidade e convicção que me sinto ainda mais forte para terminar as obras contra as enchentes em Belo Horizonte e com mais energia para continuar cobrando das empresas de ônibus que melhorem o serviço na cidade”, afirmou o prefeito na ocasião.

Em outubro, próximo do segundo turno, ele revelou que havia sido liberado das sessões de quimioterapia e que o câncer estava em remissão.

As complicações decorrentes do tratamento levaram a consecutivas internações de Fuad e o impediram de estar presente na diplomação e na posse, no dia 1º de janeiro. O prefeito participou de forma remota, de máscara, ao lado da esposa.

A medida seguiu uma recomendação médica de que o chefe do Executivo da capital mineira evitasse locais com grande concentração de pessoas por causa de sua baixa imunidade. Sua aparição no vídeo indicava uma saúde já fragilizada.

Coube ao vice-prefeito eleito, Álvaro Damião, que estava presente na cerimônia, ler o discurso de posse do prefeito.

“Muita gente tem me perguntado o porquê de estar aqui, um homem de 77 anos disputar uma pesada eleição em vez de curtir os netos, ficar com a família no sítio ou viajar. Nos últimos meses, tive que ser hospitalizado, o que aumentou a curiosidade de amigos. A resposta é muito simples, estou aqui por muito amor a essa cidade e a sua gente”, afirmou o prefeito, em texto lido pelo vice.

Ao fim do discurso, Damião chorou quando leu um trecho em que o prefeito agradeceu aos médicos e à sua família.

Fuad, um economista e servidor de carreira do Banco Central, também ocupou cargos na Casa Civil da Presidência da República, na segunda gestão Fernando Henrique Cardoso, e em secretarias do governo de Minas Gerais -nas gestões Aécio Neves e Antonio Anastasia- e na Prefeitura de Belo Horizonte.

Elogiado por sua capacidade técnica nos bastidores, assumiu a gestão da capital mineira em 2022, quando o então prefeito Alexandre Kalil (à época no PSD) deixou o cargo para a disputa do governo estadual, em que foi derrotado por Romeu Zema (Novo).

A gestão do economista à frente do município foi marcada pela relação tensa com o Legislativo. A Câmara Municipal chegou a instaurar PrefeitoComissão Parlamentar de Inquérito) para investigar contratos de serviços da prefeitura, como o transporte público e a limpeza da Lagoa da Pampulha, um dos cartões-postais de Belo Horizonte.

Já na campanha, ligou sua imagem às obras em andamento na cidade e usava como trunfo a estatística de que, durante sua gestão, nenhuma pessoa havia morrido em decorrência das enchentes em BH -um problema histórico da cidade, que voltaria a registrar mortes no fim de 2024.

Apesar de ser a continuidade da gestão de uma mesma chapa, as características de Fuad estavam distantes das de Kalil, de perfil mais polêmico e midiático. Por isso, quando resolveu concorrer à reeleição, teve de reverter um desconhecimento junto a mais da metade da população da capital mineira.

Com um dos maiores tempos de propaganda partidária entre os dez candidatos, ele foi bem-sucedido ao colar a imagem nas obras na cidade. Também teve no uso do suspensório, sempre presente durante suas agendas, uma marca de sua imagem.

No segundo turno, quando venceu o deputado estadual Bruno Engler (PL) por 53% a 46%, transmitiu o perfil de alguém conciliador, que teria diálogo com políticos todas as vertentes, do governo Zema ao presidente Lula (PT).

Na época, ele declarou que sua conquista representou a vitória do amor, do trabalho e do consenso na capital mineira.

Fuad também escreveu três livros de ficção. Um deles, “Cobiça”, publicado em 2020, foi alvo de opositores na reta final da campanha, que chamaram o livro de uma obra erótica que fazia apologia ao estupro de uma adolescente. A Justiça Eleitoral derrubou as veiculações da peça na TV e nas redes sociais.

Após a eleição, Fuad disse à Folha de S.Paulo que sua prioridade seria reduzir as mortes do anel rodoviário, uma das principais vias de Belo Horizonte, e formular um contrato de transporte público mais moderno.

Cronologia da saúde de Fuad Noman

– 29 de março de 2022 – Assume como prefeito de Belo Horizonte após a renúncia de Alexandre Kalil (na época no PSD)

– 4 de julho de 2024 – Anuncia que foi diagnosticado com um câncer do tipo linfoma não Hodgkin, mas que manteria sua pré-candidatura diante do prognóstico de sucesso do tratamento

– 20 de julho de 2024 – É lançado oficialmente pelo PSD como candidato à reeleição

– 6 de outubro 2024 – Com 26,54% dos votos, avança ao segundo turno das eleições em Belo Horizonte, atrás de Bruno Engler (PL), que teve 34,38%

– 15 de outubro de 2024 – Anuncia durante sabatina Folha/UOL que foi liberado da rotina de tratamentos contra o câncer, que estava em remissão

– 27 de outubro de 2024 – É reeleito em segundo turno em Belo Horizonte, com 53,73% dos votos

– 23 de novembro 2024 – É internado com dores nas pernas, efeito colateral do tratamento contra o câncer. Cinco dias depois, recebe alta

– 10 de dezembro de 2024 – Volta a ser internado, desta vez com um quadro de pneumonia

– 15 de dezembro de 2024 – Recebe alta e segue à frente da Prefeitura de BH trabalhando de casa

– 19 de dezembro de 2024 – É internado na UTI com quadro de diarreia e desidratação e apresenta sangramento intestinal

– 23 de dezembro de 2024 – Deixa o hospital e continua com o tratamento fisioterápico e acompanhamento médico em casa

– 1º de janeiro de 25 – Toma posse de forma remota, de máscara, ao lado da esposa, Mônica Drummond. O vice-prefeito eleito, Álvaro Damião (União Brasil), lê o discurso de posse diante da dificuldade de fala de Fuad

– 3 de janeiro de 2025 – Volta a ser internado na UTI para tratar de uma insuficiência respiratória aguda, com assistência ventilatória

– 4 de janeiro de 2025 – Licencia-se do cargo de prefeito por 15 dias. Damião assume o posto.

– 5 de janeiro de 2025 – É extubado e apresenta melhora em exames, segundo hospital

– 9 de janeiro de 2025 – Volta a ser intubado, ainda na UTI, e passa por traqueostomia para facilitar a respiração

– 29 de janeiro de 2025 – Recebe alta da UTI e segue tratamento em âmbito hospitalar. Exames reafirmam quadro de remissão do câncer

– Até 17 de março de 2025 – Boletins médicos divulgados indicam melhora progressiva do processo de retirada de ventilação mecânica. Licença do cargo de prefeito é renovada a cada 15 dias

– 24 de março de 2025 – Passa a receber alimentação intravenosa

– 25 de março de 2025 – Sofre uma parada cardiorrespiratória às 22h e é reanimado na UTI. Situação é considerada “bastante grave”

– 26 de março de 2025 – Morte é anunciada pela prefeitura pouco antes de meio-dia

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