Importação de morango egípcio dispara e preocupa produtores brasileiros
Por Artur Búrigo / Folhapress em 04/04/2026 às 11:47
A disparada recente das importações de morango congelado do Egito pelo Brasil tem preocupado produtores de Minas Gerais, estado que lidera a cultura da fruta no país.
O morango congelado costuma ser menor e tem menos valor agregado que a versão in natura, a mais vendida no varejo e usada em doces e sobremesas. Já o congelado tem como principal destino a indústria de processamento de alimentos.
A parcela da produção destinada ao congelamento costuma variar entre 10% a 20%, conforme levantamento da Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais) e relatos de produtores ouvidos pela reportagem.
Números do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) mostram a abertura do mercado brasileiro ao morango congelado egípcio.
A importação passou de 2,2 mil toneladas em 2022 para 35,9 mil toneladas em 2025, uma alta de 1.400%, ou 15 vezes, no período.
O Brasil produz cerca de 190 mil toneladas de morango por ano, segundo o último censo agropecuário do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
No ano passado, o Egito respondeu por cerca de 85% das importações brasileiras de morango. As demais formas da fruta, além da congelada, têm participação pouco relevante nas compras externas.
A disparada está relacionada com o acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Egito, assinado em 2010 e que entrou em vigor em 2017.
Classificado como item da cesta D do acordo, o morango passou a ter uma redução progressiva de 10% ao ano em seu imposto de importação, devendo chegar a zero em setembro de 2026.
O Egito é o principal exportador mundial de morango congelado. Entre janeiro e novembro de 2025, os embarques somaram cerca de US$ 672 milhões (R$ 3,4 bilhões), segundo dados de um órgão ligado ao Ministério do Comércio e da Indústria do país. Aproximadamente 5% desse montante (US$ 33,3 milhões) foi destinado ao Brasil no período.
Os produtores brasileiros afirmam ter percebido menor apetite dos compradores de morango congelado a partir do último ano.
É o caso de Denis Dias, que tem plantação de três hectares em Alfredo Vasconcelos, cidade da região mineira de Campos das Vertentes. Ele diz ter três freezeres de 525 litros cada um para estocar o morango congelado e chegou a avaliar a compra de uma câmara fria com custo de R$ 50 mil, mas diz ter desistido da opção.
“A gente não vê com bons olhos o mercado de morango congelado. Em novembro de 2025 vendia a R$ 10 o quilo, a gente baixou para R$ 8 até o fim do ano. Depois a gente teve que cortar para R$ 7, e agora chegou a R$ 6”, diz o produtor.
O morango in natura, que chegou a ser vendido a R$ 25 o quilo na época do Natal, também baixou de preço, e agora ele o vende a cerca de R$ 10.
O produtor afirma que, em média, seu custo de produção do morango é de R$ 4,50 por quilo. Em 2025, o morango congelado egípcio entrou no Brasil a US$ 1 (R$ 5,16) por quilo em média, segundo os dados do Mdic.
Solange Tomaz, de Ipiúna, no sul de Minas, a principal região produtora de morango no estado, diz que a fruta congelada servia como alternativa em momentos como o atual, de menor preço do morango in natura.
Com a baixa demanda da indústria, porém, a opção pode deixar de ser considerada.
Solange e Denis são pequenos produtores, assim como outros 11,729 mil agricultores mineiros, que respondem por 96% da produção da fruta no estado, de acordo com a Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais).
O número é destacado por Mariana Marotta, analista de agronegócios do sistema Faemg, ao analisar uma eventual abertura de processo de antidumping envolvendo o morango egípcio.
Ela cita o trâmite que envolve a importação de leite em pó de Uruguai e Argentina, cuja investigação sobre supostas práticas de comércio desleal dos exportadores se arrasta há dois anos no governo federal.
“E se isso acontecer com o morango? São produtores menores, que em sua maioria têm apenas aquela cultura, migrar para outra não é tão simples. Será que o produtor de morango consegue esperar dois anos?”, diz a analista.
No comércio exterior, dumping é a prática de uma empresa exportar produtos a preços mais baixos do que no mercado interno ou até abaixo do custo de produção, o que pode gerar concorrência desleal.
Em geral, o caso é investigado por autoridades comerciais e pode levar à aplicação de tarifas extras (antidumping) para proteger a indústria local.
Procurada, a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), que protocolou pedido de direitos antidumping do leite em pó, diz que estuda o cenário que envolve as importações de morango congelado.