Entenda as investigações da Polícia Federal no caso Banco Master
Por Folhapress em 10/02/2026 às 10:54
A Polícia Federal tem uma série de investigações ligadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. São apuradas suspeitas de crimes como fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e o uso de recursos públicos em operações com o banco.
O caso é um dos maiores escândalos bancários do país, com investigações que miram desde a venda de créditos sem lastro e investimentos de fundos de pensão até a suspeita de ocultação de participação acionária em uma instituição pública. Veja a seguir as principais investigações em curso.
Operação compliance zero
Deflagrada em 18 de novembro de 2025, investiga a fabricação de carteiras de crédito inexistentes (sem lastro) e a circulação de “ativos podres” para inflar o patrimônio do Banco Master e esconder prejuízos.
De acordo com as investigações, o Master emprestava dinheiro a empresas que, em seguida, aplicavam os recursos em fundos da gestora Reag. Esses fundos, suspeitos de pertencerem a “laranjas”, compravam ativos sem valor por preços supervalorizados para fechar as contas do banco.
A PF e o Banco Central analisam se áreas obrigatórias de controle -como compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e gestão de riscos- funcionavam apenas formalmente, sem capacidade real de barrar operações suspeitas.
As falhas de compliance são apontadas como peça-chave para viabilizar tanto as operações com empresas de fachada (como Tirreno e DPI) quanto a circulação de recursos sob suspeita de origem ilícita.
Na primeira fase, ocorrida em novembro de 2025, o alvo foi a venda de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado fraudulentas ao BRB (Banco de Brasília).
Na segunda fase, deflagrada em janeiro de 2026, a PF mirou o uso de fundos de investimento para a compra de ativos podres, como certificados de ações do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina).
Operação carbono oculto
Deflagrada em agosto de 2025, originalmente para atingir o núcleo financeiro do PCC (Primeiro Comando da Capital), investiga a atuação da facção criminosa em negócios da economia formal, incluindo o mercado financeiro.
A Reag Investimentos, empresa que mantinha laços estreitos com o Banco Master, e seu fundador, João Carlos Mansur, estão entre os alvos. Em nota, a Reag negou conexão com o PCC. “Desde o início das apurações relacionadas à Operação Carbono Oculto, a Reag tem colaborado integralmente com as autoridades, fornecendo informações, documentos e acesso aos seus sistemas sempre que solicitado.” A defesa de Mansur afirmou que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Seis fundos de investimento (Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna), que somam R$ 102,4 bilhões em patrimônio e são ligados ao esquema de Vorcaro, também aparecem nesta investigação.
A PF investiga se recursos de origem criminosa foram direcionados a fundos administrados pela Reag e pelo Master para posterior “legalização” por meio de operações financeiras regulares.
Ocultação de participação no BRB
Um inquérito específico apura se Daniel Vorcaro ocultou sua participação como acionista do BRB (Banco de Brasília) enquanto o banco público comprava carteiras de crédito do Master.
Além de Vorcaro, o ex-sócio do Master, Maurício Quadrado, e o fundador e ex-presidente do conselho de administração da Reag, João Carlos Mansur, estariam envolvidos.
A suspeita é que o trio adquiriu as ações do BRB como pessoas físicas e se tornaram acionistas do BRB atropelando as regras de transparência de titularidade das ações. Eles teriam usado nomes de terceiros por meio de fundos administrados pela gestora Reag (como o Borneo e o Deneb).
Se confirmada a participação de Vorcaro no BRB, a compra de carteiras do Master pelo banco público pode configurar conflito de interesses.
A defesa de Vorcaro afirma que o Master detinha participação acionária no BRB por meio de sua holding, devidamente registrada e dentro das regras do mercado.
Operação zona cinzenta
A investigação mira a aplicação de recursos de regimes próprios de previdência estaduais e municipais em títulos emitidos pelo Master.
O foco mais recente é a Amprev (Amapá Previdência). O fundo de previdência do Amapá investiu cerca de R$ 400 milhões em títulos do banco em um intervalo de 20 dias, segundo a PF, apesar de alertas técnicos e do Ministério Público Federal.
A operação investiga crimes de gestão temerária e fraudulenta, com possível direcionamento político para socorrer o caixa do banco.
Ao menos outros seis estados têm investimentos no Master sob apuração. No Rio de Janeiro, foram investidos R$ 970 milhões pelo Rioprevidência. O ex-presidente da autarquia, Deivis Marcon Antunes, foi preso.
Há inquéritos abertos em São Paulo (cidades como São Roque e Araras), Alagoas (Maceió), Goiás e Amazonas.
Investigação no BRB
A PF investiga eventual gestão fraudulenta no BRB, após o banco estatal ter feito uma proposta de compra do Master, que acabou indeferida pelo Banco Central em setembro do ano passado. A abertura do inquérito foi informada ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli.
A investigação aponta que o próprio banco teria analisado que algumas operações podem ter sido feitas para burlar a cláusula de transparência da titularidade das ações na gestão anterior. A Folha de S. Paulo apurou que um dos investigados pela PF é o ex-presidente do banco Paulo Henrique Costa.
A instituição disse, em nota, que encontrou achados relevantes que constam da primeira etapa do relatório preliminar entregue pela auditoria forense contratada pelo banco junto ao Machado Meyer Advogados com suporte técnico da Kroll.
Investigação contra a fictor
A Polícia Federal abriu investigações para apurar possíveis crimes da Fictor, que também chegou a anunciar uma proposta para comprar o Master.
A holding financeira está na mira da Delecor (Delegacia de Repressão a Corrupção e crimes financeiros) de São Paulo por suspeita de crime financeiro. As investigações checam possível conexão com os crimes da Compliance Zero.
No dia 1º de fevereiro, a firma entrou com pedido de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), com uma dívida de R$ 4,2 bilhões.
O que dizem os investigados
Daniel Vorcaro nega qualquer crime. Em depoimento à PF, ele afirmou que o Banco Master era solvente e que a crise foi de liquidez, provocada por mudanças regulatórias e ataques reputacionais. A defesa alega que as operações com o BRB foram técnicas e auditadas, e que a participação acionária no banco de Brasília estava devidamente registrada em sua holding.
Maurício Quadrado afirma que suas aquisições de ações do BRB ocorreram no mercado secundário e não influenciaram a gestão do banco.
Em nota, o BRB disse que encontrou achados relevantes em uma investigação independente e comunicou os detalhes para as autoridades.