14/05/2026

Detergentes ecológicos ganham espaço, mas preço ainda é barreira

Por Mariana Grasso/Folhapress em 14/05/2026 às 11:13

A recente determinação da Anvisa para o recolhimento de lotes da Ypê devido ao risco de contaminação microbiológica acendeu um alerta nos consumidores brasileiros sobre a segurança dos produtos que ocupam a pia da cozinha.

O incidente abre espaço para o nicho de “detergentes gourmets”, veganos, feitos com base vegetal e que prometem mais segurança dermatológica e menos impacto ambiental, embora tenham um preço maior.

Enquanto um frasco de 500 ml de detergente convencional é encontrado nos supermercados por valores entre R$ 2 e R$ 3,50, as opções ecológicas podem custar de quatro a sete vezes mais.

Diferente das marcas convencionais, que utilizam agentes de limpeza derivados do petróleo, as empresas desse segmento apostam em insumos renováveis como óleo de palma, coco e babaçu.

Rafael Felitte, CEO da BioWash, explica que o valor mais alto é decorrente da menor oferta dos insumos para a fabricação.

“Os insumos são efetivamente mais caros do que os convencionais. Isso é explicado por conta da cadeia; por serem produtos mais novos no mercado, eles têm uma oferta reduzida e um preço mais caro na aquisição”, disse.

Ao analisar as opções de mercado, a BioWash se destaca pelo maior volume por embalagem. Eles comercializam o lava-louças de 650 ml por R$ 21,90, estratégia que visa reduzir o preço proporcional por litro ao oferecer 30% a mais de produto do que o padrão da indústria. Já a Bioz Green oferece um frasco de 470 ml por R$ 11,90, apostando em uma fórmula de alta viscosidade, similar à consistência do mel.

Em uma faixa de preço mais baixa, a Onda Eco apresenta o produto de 500 ml por R$ 10,90, enquanto a Positiv.a comercializa a versão de 420 ml por R$ 10,99. Ambas as marcas, no entanto, incentivam a fidelização por meio de modelos de assinatura que oferecem descontos de até 15% para compras recorrentes.

A Positiv.a fabrica produtos para limpeza e autocuidado à base de plantas. Em meio à polêmica dos detergentes da Ypê, a empresa publicou um vídeo nas redes sociais com a frase: “Eu tranquila sabendo que meu lava-louças não tá envolvido em polêmica”. A postagem gerou críticas sobre o posicionamento da marca.

Segundo a Positiv.a, as embalagens custam o dobro das tradicionais por serem fabricadas com plástico reciclado de alta resistência, projetadas para serem reutilizadas como recipientes de refil.

De acordo com Marcella Zambardino, cofundadora e diretora de impacto da Positiv.a, hoje a empresa consegue oferecer produtos com custo por utilização inferior aos convencionais. O lava-louças em pó é 62% mais competitivo por rendimento que o líder de mercado Finish. “O objetivo é mostrar que escolhas mais saudáveis podem fazer sentido economicamente”, diz.

Segundo Felitte, da BioWash, a empresa cresceu 30% em 2025 e tem meta de 40% para este ano. “As pessoas estão buscando cada vez mais esses produtos”, disse.

Beatriz Quaglio, proprietária da Bioz Green, reforça que a escala de produção é um desafio econômico e também aumenta o valor final pago pelo consumidor.

“Quando vemos as grandes empresas, elas têm um maior volume de compra; então, quanto mais ela compra, mais barato fica para ela. Como eu tenho uma indústria menor, produzo menos porque vendo menos, logo o meu insumo é mais caro”, disse.

Quaglio diz que a marca teve um crescimento de 50% em 2025 e prevê dobrar de tamanho neste ano.

“A gente está com projeto de expansão para o Brasil inteiro, entrando em grandes redes de varejo, porque o consumidor está pedindo por isso. Ele quer encontrar o produto natural onde ele já faz a compra do mês, não quer mais ter que ir em uma loja especializada”, disse.

A Yvy apresenta um modelo baseado em cápsulas de R$ 8,02, que devem ser diluídas pelo próprio usuário em 500 ml de água. Para os assinantes do clube da marca, esse valor reduz para R$ 6,82, oferecendo um sistema que, além de ser economicamente competitivo no custo por litro, reduz em seis vezes o descarte de resíduos plásticos.

A migração para esses produtos também é motivada por questões de saúde. Segundo Beatriz Quaglio, da Bioz Green, esse mercado sempre foi monitorado de perto por pais de crianças e tutores de animais de estimação.

Segundo o dermatologista Matheus Rocha, o detergente comum remove não apenas a gordura da louça, mas os lipídios que formam a barreira natural de proteção das mãos. “O uso repetido pode alterar a estrutura da camada mais superficial da pele, favorecendo o ressecamento e a dermatite irritativa de contato”, diz.

O médico destaca que os principais vilões são os tensoativos aniônicos, como o SLS (Lauril Sulfato de Sódio) e o SLES (Lauril Éter Sulfato de Sódio), amplamente conhecidos pelo potencial irritativo. Além deles, fragrâncias e conservantes do grupo das isotiazolinonas figuram entre as maiores causas de queixas dermatológicas e alergias.

Para quem tem crianças em casa, o cuidado deve ser redobrado. “A pele infantil possui uma barreira mais imatura e é mais suscetível à ação desses irritantes”, afirma Rocha. Em objetos como mamadeiras e chupetas, resíduos de detergentes convencionais podem irritar lábios e mucosas caso o enxágue não seja abundante.

A recomendação do especialista é priorizar produtos sem fragrância, sem corantes e com agentes limpantes mais suaves, preferencialmente de base vegetal.

Apesar de os detergentes ecológicos serem mais caros, o setor trabalha para democratizar o acesso.

O CEO da BioWash, afirma que desde que assumiu a companhia, em 2023, iniciou um “projeto de democratização”, com o objetivo de levar o que era considerado um item de nicho para “todos os cantos do país e para todos os tipos de renda”.

A proprietária da Bioz Green, reforça que a empresa adotou políticas internas para buscar essa democratização, permitindo que o público de diferentes classes sociais tenha acesso a fórmulas que não agridem a saúde, como na Europa, onde, segundo a empresária, os produtos ecológicos podem chegar a ser mais baratos que os comuns.

Para Stefania Bonetti, fundadora da Onda Eco, o maior obstáculo do setor não é a falta de fornecedores de matéria-prima vegetal, mas a matemática para não repassar o custo ao cliente.

“A dificuldade é encontrar insumos dentro dos nossos padrões de exigência com valores acessíveis, para que o consumidor não precise pagar o dobro ou o triplo”, explica. Segundo a empresária, quando um produto natural custa muito mais que o tradicional, ele deixa de ser uma escolha viável para a maioria das famílias.

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