Com Salvador Dalí, Tarsila e Maria Martins, mostra vê as diversas faces do surrealismo
Por João Perassolo/Folhapress em 17/06/2026 às 10:22
Uma mulher estende o braço e tira uma selfie em frente a uma pintura de René Magritte. A cena chama a atenção pelo contraste entre o sorriso dela e o tom soturno de “La Fin du Monde”, quadro dos anos 1960, em que vemos uma paisagem no crepúsculo e a silhueta de uma figura vestindo chapéu-coco, típica das obras do surrealista belga.
Na mesma sala, um grupo de senhoras conversa animadamente ao lado de uma tela de Tarsila do Amaral, e, na entrada do casarão histórico, uma jovem faz uma pose exagerada ao ser fotografada junto ao letreiro da Pinakotheke, a galeria ali sediada.
Era mais um dia na exposição “Surrealismos: Arte para Além da Razão”, aberta no final de maio e que marca a inauguração do novo local da galeria carioca em São Paulo. A Pinakotekhe, de Max Perlingeiro, um dos mais tradicionais galeristas do Brasil, ficou por 25 anos no bairro do Morumbi até se mudar há pouco para Higienópolis, onde está instalada numa casa de quase cem anos próxima à avenida Paulista.
São cerca de 250 visitantes por dia na mostra, diz Max Morales, diretor da galeria e filho do fundador. No sábado do feriado de Corpus Christi, o público ultrapassou mil pessoas, uma movimentação praticamente inédita para espaços do tipo em São Paulo, que costumam ficar o tempo todo vazios exceto pelo dia da abertura de mostras, quando as pessoas aparecem para fazer contatos regados a vinho grátis. Há até um aviso na porta da Pinakotheke informando que a lotação é de cem espectadores.
O diretor conta que vários influenciadores fizeram vídeos, tanto da casa quanto das obras da exposição, e divulgaram no TikTok, o que acabou atraindo bastante público. Uma busca na rede social de vídeos curtos confirma o sucesso usuários propagandeiam um “novo rolê cultural gratuito em São Paulo” e aparecem pagando de cultos junto a pinturas de Miró, Diego Rivera e Cícero Dias, tríade digna de museu.
“Surrealismos: Arte para Além da Razão” foi idealizada por Max Perlingeiro que ficou obcecado pelo movimento surrealista depois de ver uma exposição sobre Magritte em Paris e pelo curador Tadeu Chiarelli. A dupla garimpou obras em coleções privadas no Brasil, trabalhos que pouco ou nunca deixaram as paredes das casas de seus donos, e agrupou o conjunto de cem pinturas, esculturas, fotografias e vídeos nesta mostra que celebra, depois da hora, o centenário do surrealismo, celebrado há dois anos.
Na exposição, os curadores mostram o surrealismo de duas formas. A tradicional, que vai da década de 1920 à de 1940 e engloba artistas europeus clássicos do movimento como André Masson, Jean Cocteau, Francis Picabia e Salvador Dalí, e uma outra, “que entende o surrealismo como um tipo de subjetividade e que vai além do surrealismo histórico”, afirma Chiarelli. Neste entendimento, o tema é maior do que a estética específica de um período.
A definição expandida permite à mostra incluir artistas brasileiros e latinos de fora do cânone, mas que lidam com a questão da irracionalidade, do sonho e do fantástico, tal qual faziam os surrealistas centrais. Por exemplo, há uma assustadora caixa de resina recheada com fios de computador e cabeças de boneca feita pelo mineiro Farnese de Andrade, e também uma escultura em bronze da paulistana Erika Verzutti em que uma forma alongada lembra elementos das telas de Tarsila do Amaral a modernista aparece com a pintura “O Lago”.
Ao justapor artistas de linguagens estéticas e momentos históricos distintos, a exposição evidencia como não faz sentido limitar o surrealismo a uma manifestação artística do entreguerras na Europa. A aproximação de trabalhos aparentemente diferentes revela “mais pontos de contato do que de ruptura entre algumas obras”, diz Chiarelli, acrescentando que “a arte é uma coisa que se dá no presente”.
Por outro lado, para quem busca o feijão com arroz muito bem feito, há os nomes esperados. Dalí, o surrealista por excelência, tem obras em diferentes suportes uma escultura de corpo feminino com um relógio derretido na cabeça, uma tapeçaria, três azulejos em cerâmica, uma aquarela e o filme que fez com Luis Buñuel, “Um Cão Andaluz” película símbolo da vanguarda da primeira metade do século 20. De Jean Cocteau aparecem três broches em bronze folheado a ouro, nas formas de gato, lagarto e olho.
O aceno ao tropicalismo acontece num espaço dedicado a Maria Martins, com três esculturas, gravuras em metal e litogravuras. Na década de 1940, quando morava nos Estados Unidos, a mineira fez parte do círculo de surrealistas exilados em Nova York com seus trabalhos de figuras femininas híbridas informadas por mitos amazônicos e formas vegetais.
A nova sede da Pinakotheke se insere num roteiro de galerias de arte vizinha da Gomide & Co e da Vermelho, deve ser adotada como destino pelo público interessado. Ela ocupa um casarão da década de 1930, não protegido pelos órgãos de patrimônio, onde já foi uma residência, um museu do vinho e o comitê de um partido político. Perlingeiro conta que o imóvel “estava absolutamente destruído, não tinha nada, só um endereço” quando chegou.
Foi necessária uma reforma de um ano, a cargo do arquiteto Luciano Dalla Marta, para refazer a casa de quatro andares dois de espaços expositivos e dois subsolos, sendo um para reserva de obras e outro para os escritórios interligados por uma escada em caracol pintada em azul dramático. Do lado de fora, um café e uma livraria funcionam como área para se debater com amigos o que se viu dentro.
Por que, depois de 25 anos no Morumbi, realocar a galeria para a região da Paulista? “Aprendemos que o paulistano não atravessa a ponte”, diz o galerista, em referência à via sobre o rio para chegar ou sair do bairro.
Surrealismo: Arte para além da razão
- Quando: Seg. a sex., das 10h às 18h; sáb. e fer., das 10h às 16h. Até 15 de agosto
- Onde: Pinakotheke – r. Minas Gerais, 246, São Paulo
- Preço: Grátis
- Link: https://pinakotheke.com.br/