Vinícius Zanocelo, 21, é daqueles tipos raros no futebol. O volante do Santos conta já ter devorado dezenas de biografias de figuras de peso no esporte como Bernardinho, do vôlei, Kobe Bryant, do basquete, além dos técnicos José Mourinho, Alex Ferguson, Pep Guardiola e Jürgen Klopp.





Aficionado por literatura, também já leu clássicos da psicologia como "Mindset" e moldou a própria dieta estudando "O Método TB12", publicação sobre os hábitos alimentares utilizados pelo astro de futebol americano Tom Brady. Desde os 15 anos, quando chegou à base da Ponte Preta, resolveu investir na contratação de um profissional particular para cuidar de ganhos físicos, o preparador Vinicius Vicentini.





Estreou como profissional pelo próprio clube de Campinas, em 2019, mas sentia que faltava algo.





Zanocelo tinha 19 anos e só 18 jogos como profissional pela Ponte quando entendeu que precisaria de ajuda para enxergar melhor o próprio jogo.





"Gosto de entender sobre tudo em volta de mim, por isso leio sempre. Mas, acima de tudo, amo jogar futebol. Amo treinar e pensar em evolução. Eu acreditava que algo mais pessoal poderia fazer diferença para a minha carreira, só não sabia quanto", conta à reportagem.





Desde 7 de agosto de 2020, o jogador tem cada passo dentro de campo, cada partida realizada e cada gesto observado de perto por analistas da Outlier FC, empresa de consultoria individual de análise tática e de desempenho para atletas.





"Você até lembra se errou um passe, se falhou em um gol, mas não entende exatamente se o comportamento em campo está certo ou não. Se estava na região do campo correta para receber o passe mais limpo, se pescoçou em determinada jogada, ou seja, olhou o campo para mapear quem estava perto. São muitas situações, e sou viciado em alta performance", diz Zanocelo.





O trabalho é feito em detalhes. Os analistas assistem às partidas e anotam uma série de observações já durante o jogo. Eles também mantêm contato constante com os atletas, por WhatsApp, para receber retornos e impressões. Após cada jogo, é montado um material para análise.





Cada vídeo apresentado aos atletas conta com observações específicas de jogadas relevantes na partida, de erros ou acertos em campo. Eles são editados e demoram aproximadamente quatro horas para ficar prontos.





A Outlier usa ferramentas como o Comparisonator, programa para comparações de estatísticas de cada jogador, o InStat e o Wyscout, para análise de desempenho para materiais em vídeo, mapas de calor e de ações em partidas, além do Metrica Play para edição com observações sobre cada lance.





"Fomos procurados pelos empresários dele e encontramos um jogador muito preocupado em entender o que melhorar, o que não deu certo", diz Diego Vieira, fundador e CEO da empresa.





"No começo, investimos em correções de ações defensivas. Melhoramos a aproximação ao adversário, como ter mais agressividade nos duelos e entender melhor como fechar linhas de passe. Hoje, por méritos dele, são pontos de destaque em que conseguiu evoluir", observa.





Gols originados em cobranças de falta, escanteio ou pênalti não são alvos das análises. Na jogada em que Zanocelo marcou seu segundo gol na temporada, diante do Água Santa, em 19 de março - partida que assegurou a permanência do Santos na Série A do Campeonato Paulista-, três observações foram feitas.





No primeiro momento, Zanocelo é destacado olhando para trás, sem bola, mapeando as situações de jogo. Depois, outro acerto ocorre no avanço com a equipe na tentativa de ataque. E, por fim, o posicionamento para receber a bola na entrada da área após tentativa errada de corte da defesa adversária.





Diante do América-MG, no último dia 24 de abril, o gol foi elogiado por vários aspectos. Ele iniciou a jogada ainda no campo defensivo, conduziu a bola e, mesmo sob pressão, acertou bom passe. Depois, encontrou Ângelo livre pela direita em boa situação. O avanço até a área adversária lhe permitiu finalizar e marcar.





"Zanocelo é um menino com muita vontade. Algumas vezes até exagera por querer fazer. É como uma esponja. Ele absorve tudo o que dizem para ele. Ele escuta. Quer aprender. É o melhor que tem", disse o técnico Fabián Bustos, logo após a partida.





"Nós precisamos identificar aquilo que o atual treinador dele quer para a posição, cada um tem uma determinada ideia. E, toda vez que muda alguém, ele precisa resetar, entender com clareza novamente o que estão pedindo", explica Diego Vieira.





Termos como "mapear", "criar linha de passe", "gerar espaço entre linhas" e "trocar corredores buscando o um contra um" são só alguns dos utilizados nas análises.





A empresa trabalha com 53 atletas em 12 países diferentes. No Santos, os volantes Sandry e William Maranhão seguiram o exemplo de Zanocelo e também buscaram os profissionais para evoluir.





Esses profissionais não opinam, contudo, sobre aspectos fora de campo como possíveis transferências e times em que se encaixariam melhor pela forma de jogo.





"É sempre difícil cravar o destino de alguém. Pelos comportamentos e evolução demonstradas, vemos capacidade para o Zanocelo chegar a um grande mercado, mas vai depender, óbvio, de uma cadeia de coisas", argumenta Diego Vieira.
As reuniões para apresentação dos materiais são sempre por videoconferência. Zanocelo conversou sobre os acertos e erros posicionais na partida contra o América-MG três dias depois, no Chile, na concentração para enfrentar o Unión La Calera pela Copa Sul-Americana.





"O lance do gol contra o América-MG tem vários conceitos corretos, desde o local onde criou a saída de bola até pisar na área e fazer o gol. Essa questão de andar junto com a equipe é algo que sempre desenvolvemos com ele", explica o coordenador de análise Bernardo Lima.





Zanocelo, atualmente, diz que termina de ler o livro "A Virtude da Loucura: a Vida de Marcelo Bielsa". Mais do que livros, estatísticas e números, diz ele, a base sólida do sucesso é a família. Sempre que pode, menciona o avô Nelson, a mãe Valeria, a irmã Ana Beatriz e a mulher Ana Clara.





"Sou suspeito para falar do meu pai, é o meu maior espelho e inspiração de vida. A minha mãe, também, o sorriso dela mesmo em dias tristes faz tudo mudar. A minha esposa... Eu quero muito chegar ao alto nível, mas, acima de tudo, ser um ser humano excelente. Foi isso o que ele [o pai] e o meu avô me ensinaram muito", afirma.





"Meu pai começou a trabalhar com 13 anos e está há 32 na mesma empresa. Ele pode continuar ainda mais porque gosta. Eu espero ficar no futebol até os 40", completa.





O menino de família - e das estatísticas - está empenhado em ajudar o Santos a surpreender no Campeonato Brasileiro.