Cinemark usa brecha na Cota de Tela e exibe filme de 2024 mais de cem vezes ao dia
Por Guilherme Luis/Folhapress em 06/05/2026 às 08:57
Um filme infantil está sendo usado de atalho pela rede Cinemark para cumprir mais rapidamente a Cota de Tela, mecanismo voltado ao fomento do audiovisual brasileiro que obriga exibidoras a reservar parte da programação a produções nacionais. Trata-se de “Zuzubalândia – O Filme”, produção lançada nos cinemas originalmente há dois anos.
Só no estado de São Paulo, a rede programou 114 sessões do título nesta quarta-feira, quase metade delas às 11h, o restante entre o meio-dia e 14h45. Parte de um acordo de exibição de exclusividade entre a Cinemark e sua criadora, “Zuzubalândia” estreou em setembro de 2024, ficou em cartaz até dezembro daquele ano e voltou à programação em outubro do ano passado. O filme também está no catálogo da HBO Max.
Procurada por email na semana passada, a Cinemark diz que não comenta a Cota de Tela, e que exibe “Zuzubalândia” dezenas de vezes por dia por causa do programa Projeto Escola. Nele, instituições de ensino podem reservar, mediante pagamento, salas inteiras para grupos de estudantes.
A rede não explicou, porém, até a publicação deste texto, a relação do filme com a ação. Segundo o regulamento, o projeto vale para qualquer filme, desde que tenha liberação de sua distribuidora.
Um gerente da Cinemark afirmou à reportagem que todos os filmes da grade entram no programa se a sua classificação indicativa corresponder à idade dos estudantes como os americanos “Super Mario Galaxy: O Filme” e até “O Diabo Veste Prada 2”, hoje em cartaz.
Embora a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa, não tenha respondido se está usando “Zuzubalândia” para bater a Cota de Tela, funcionários de uma unidade da Cinemark afirmaram à reportagem que, internamente, a diretriz é que o filme seja programado no começo do dia para alcançar as metas estabelecidas pela regra.
Alguns complexos, inclusive, são orientados a abrir às 10h30, exibir “Zuzubalândia” entre 11h e meio-dia, fechar as portas em seguida e só retomar as operações por volta de 14h.
A reportagemvisitou sessões da animação na quarta-feira passada, em uma unidade em São Paulo que a exibia em quatro salas, simultaneamente, ao meio-dia. Nenhuma delas tinha público. O cinema ainda estava em processo de abertura, e uma funcionária que limpava uma das salas se mostrou surpresa com a presença da reportagem. Ela imediatamente apagou as luzes da sala, que estavam acesas, apesar do projetor já ligado.
No Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, plataforma da Ancine, a Agência Nacional do Cinema, que compila dados de bilheteria e de obras audiovisuais em exibição no país, não há registros das sessões de “Zuzubalândia” por uma questão técnica. O filme é considerado um média-metragem por ter apenas uma hora de duração, dez minutos a menos do que o definido para longas, o que deveria impedi-lo de ser contabilizado para a Cota de Tela.
Mas a Cinemark encontrou aí uma brecha. O texto define que a programação deve ser “formada, predominantemente, por obra de longa-metragem”.
Leandro Mendes, secretário de regulação da Ancine, diz que o órgão está avaliando o caso e que considera aceitar a inclusão de “Zuzubalândia” nas metas estabelecidas para a Cinemark no ano passado por causa da pouca diferença no tamanho do filme.
A curta duração ainda ajuda a explicar por que a Cinemark escolheu exibir tantas vezes este título em vez de outras produções nacionais. Rápida, ela dá maior rotatividade às salas em que é exibida ou seja, interfere menos na programação, e libera espaço para obras de maior apelo comercial.
A pedido da reportagem, a Ancine compilou os dados de “Zuzubalândia”, que mostram que neste ano foram programadas 17.237 sessões do filme em complexos da Cinemark de todo o país. Elas foram vistas por apenas 1.882 pessoas, numa média de 0,1 espectador por exibição.
Ainda que se aproveite de uma brecha da Cota de Tela, a estratégia da Cinemark não viola a legislação. A norma, em vigor desde junho de 2024, estabelece um número mínimo de sessões de filmes brasileiros ao longo do ano no caso da Cinemark, 16% do total de sessões, mas não proíbe a repetição de um mesmo título. Na prática, exibidoras têm liberdade para definir quais obras exibir, quantas vezes, em que horários e em quais salas.
Assim, as redes podem concentrar dezenas de sessões de um mesmo filme nacional num só período do ano, batendo a meta com antecedência e se desobrigando de exibir produções brasileiras em meses nos quais há muitos blockbusters estrangeiros em cartaz. Em dezembro, o novo “Vingadores” e o terceiro capítulo de “Duna” prometem monopolizar as salas.
A reportagem analisou a programação de outras redes em São Paulo, como Cinépolis, UCI e Kinoplex, e não encontrou casos flagrantes como o de “Zuzubalândia”, ainda que os filmes nacionais sigam, em maioria, programados em horários menos nobres, antes das 17h.
O cumprimento da regra é fiscalizado pela Ancine, que afirma estar ciente da prática da Cinemark, mas não prevê punições à exibidora. Leandro Mendes diz que a intenção é criar mecanismos para incentivar a presença de filmes brasileiros na faixa nobre das exibidoras, ou seja, a partir do fim da tarde. Em instrução normativa publicada nesta quarta-feira, a agência passa a prever bonificações para sessões exibidas após as 17h.
“Notamos essa fragilidade na norma, e precisamos fazer adaptações para regular, mas a venda de ingressos está menor se comparada ao período pré-pandemia”, afirma Mendes. “A gente também não pode obrigar o exibidor a quebrar o seu cinema. Pedimos para dialogar com a Cinemark, mas não me parece que eles estão fazendo isso de má-fé”, diz ele sobre a multinacional sediada no Texas, líder de mercado no Brasil.
A repetição de “Zuzubalândia” na grade pode ser justificada também pelo acordo de exibição exclusiva firmado entre a Cinemark e a produtora, diretora e roteirista da animação Mariana Caltabiano.
A diretora diz que o contrato prevê que 70% da bilheteria líquida seja direcionada à rede, enquanto ela retém os 30% restantes. O modelo é diferente do adotado tradicionalmente pelo mercado, em que as exibidoras, como a Cinemark, ficam apenas com metade da receita. Essa parte é dividida entre distribuidoras e produtoras, e custos com marketing acabam diluindo ainda mais o valor repassado aos criadores das obras.
Caltabiano diz que não gostou da experiência que teve ao lançar filmes anteriores com intermédio de distribuidoras, e que, por isso, vê benefícios no acordo. “Minha sugestão é que outros produtores infantis brasileiros comecem a fechar diretamente com a Cinemark, sem intermediários. Isso aumenta as chances de bilheteria”, diz ela, que não detalha valores.
A diretora afirma que não sabia que seu filme virou instrumento de Cota de Tela, mas que não vê problema nisso já que, ao menos, seu filme está sendo exibido.
Mesmo com tantas sessões vazias, o acordo é potencialmente mais vantajoso para a Cinemark do que os traçados para outros lançamentos brasileiros.
No caso do recente “Velhos Bandidos”, comédia de forte apelo comercial com Fernanda Montenegro, são 44 sessões nesta quarta-feira, cerca de 60% a menos do que a animação de dois anos atrás. Mais limitadas ainda são as exibições de “Rio de Sangue”, com 22, e de “O Advogado de Deus”, com 18. Para efeito de comparação, a biografia de Michael Jackson que acaba de entrar em sua terceira semana de exibição, tem mais de 250 sessões na rede Cinemark nesta quarta.
Desde que entrou em vigor, a Cota de Tela foi criticada por não determinar faixas de horário nobre para os filmes nacionais mais do que uma garantia de exibição, o mecanismo deveria servir para formação de público, defendem nomes do setor. Mas se não há gente vendo “Zuzubalândia”, o objetivo nunca é alcançado.
“A cota deveria pensar na pluralidade do cinema brasileiro, e está longe de fazer isso”, diz Daniel Queiroz, que foi programador de cinema e é diretor da Embaúba Filmes, que distribui filmes independentes como “No Coração do Mundo”.
De olho nas críticas, a Ancine decidiu mexer nas regras para tentar gerar mais interesse das grandes exibidoras em produções de menor apelo comercial. Na instrução normativa publicada nesta quarta, a agência define que vão contar mais pontos na meta as sessões de longas premiados em festivais selecionados. A novidade é que, além da categoria de melhor filme, agora valem também as de melhor ator, atriz, diretor e roteiro.
“É complicado isso de serem só os premiados. Poderia valer para os filmes que foram exibidos nos festivais, apenas”, diz Queiroz, que integrou a comissão consultiva para elaboração das medidas da Ancine.
Adhemar Oliveira, dono do Espaço Petrobras de Cinema, um dos mais tradicionais cinemas de rua de São Paulo, diz que não tem sentido dificuldade em bater a meta da Cota de Tela. “Sou defensor não da cota, mas do produto brasileiro. E o produto brasileiro não difere dos outros em termos de qualidade.”