Justiça aceita acordo com jogador do São Paulo após ofensa xenofóbica na Libertadores
Por Luciano Trindade e Francisco Lima Neto - Folhapress em 13/03/2026 às 11:52
A Justiça de São Paulo aceitou um acordo entre o Ministério Público e o paraguaio Damián Bobadilla, do São Paulo, após o jogador ter chamado um adversário de “venezuelano morto de fome” durante partida pela Libertadores, no ano passado, no estádio do Morumbi.
Pelo acordo firmado na quarta-feira (11), o atleta terá de cumprir medidas educativas, como assistir a aulas sobre xenofobia e depois gravar quatro vídeos, de cerca de dois minutos cada, explicando com suas próprias palavras o que entendeu de cada aula. Além disso, ele se comprometeu a visitar o Museu da Imigração.
As partes também concordaram que o atleta deverá fazer quatro publicações contra a xenofobia nas redes sociais, uma a cada 30 dias, com conteúdo aprovado previamente pelo Ministério Público. Ele ainda terá de doar R$ 61 mil em livros para a Coordenação de Políticas para Imigrantes e Promoção do Trabalho Decente.
Caso cumpra as obrigações, o caso será encerrado sem processo criminal. Bobadilla joga no São Paulo desde 2024. Seu pai é o ex-goleiro da seleção paraguaia Aldo Bobadilla.
Procurados, o clube e o advogado do jogador, Pedro Gricoli Iokoi, ainda não se manifestaram até a publicação da matéria.
De acordo com o Ministério Público, o acordo foi possível porque o jogador confessou formalmente a ofensa e o caso atende aos requisitos do acordo de não persecução penal previstos no Código de Processo Penal. O crime não envolve violência ou grave ameaça, tem pena mínima inferior a quatro anos, e o investigado é primário e não possui histórico de prática criminosa.
O caso ocorreu em maio de 2025, durante partida entre São Paulo e Talleres pela Libertadores. Na ocasião, o jogador venezuelano Miguel Navarro denunciou “um ato de xenofobia” por parte de Bobadilla.
Navarro e Bobadilla se estranharam na reta final do jogo, vencido por 2 a 1 pelo time paulista. Após a discussão, o venezuelano começou a chorar, e o árbitro chileno Piero Maza interrompeu a partida por alguns minutos. Companheiros e adversários consolaram Navarro, e o jogo prosseguiu.
“Vou até as últimas consequências diante do ato de xenofobia que vivenciei no Brasil pelas mãos de Damián Bobadilla”, afirmou Navarro logo após o jogo, em uma publicação no Instagram.
Também pelas redes sociais, o jogador paraguaio se manifestou depois da partida. Primeiro afirmou que teve uma discussão com atletas do Talleres e que, segundo ele, teria sido “tratado com desprezo”. Depois reconheceu que “agiu mal”.
“No calor do momento eu reagi mal e, bem, peço desculpas publicamente. Se eu tiver a oportunidade de falar com ele pessoalmente, também pedirei desculpas. Só queria esclarecer isso e mandar um grande abraço a todos”, disse o atleta na ocasião.
Em nota publicada na época dos fatos, o São Paulo afirmou que iria colaborar “integralmente com as investigações em curso”. O clube disse ainda que “repudia veementemente qualquer manifestação de discriminação, preconceito ou intolerância, seja ela de natureza racial, étnica, nacional ou de qualquer outra forma”.