'O Testamento de Ann Lee' é uma investida da extrema direita religiosa
Por Inácio Araujo/Folhapress em 13/03/2026 às 12:48
O espectador que chega à sala desprevenido acha que vai ver um filme de horror. Afinal, a apresentação ‘silenciosa no início’ com letras brancas sobre fundo preto pode funcionar como indicação; alguns sinais místicos, tipo cruzes estilizadas ou uma árvore também estilizada, fornecem novos indícios. Por fim, o título traz a palavra “testamento”, sinal de que algo sinistro possa ter acontecido num filme anterior.
Logo dá para descobrir que não é bem assim. Esse não é um “Ann Lee 2” ou algo assim. Ann Lee é uma mística inglesa do século 18, pertencente à seita dos shakers, que na infância fica traumatizada ao entrever seus pais fazendo amor. Desde então resolve, em sua cabeça, que aquilo é a fonte de todo mal. Que a cópula é o sinal da serpente, ou do demônio enfim, coisas assim.
Por algum motivo, Ann Lee, ainda jovem, adquire maior importância na seita, cujo ato de fé mais frequente consiste em ficar tremelicando em conjunto, como se estivessem sofrendo ataques epiléticos ligeiros.
Não se pode dizer que tudo vai mal antes que Ann Lee (Amanda Seyfried) comece a cantar. São músicas pias, que talvez entusiasmem os shakers, embora não tenham relação com os movimentos convulsivos das danças que executam. O fato é que Ann Lee entusiasma a Manchester daquela época com sua pregação radical.
É verdade que ela adocica um pouco a sua pregação. Assim, a relação carnal continua proibida, mas ela aceita entre seus fiéis pessoas com filhos, desde que se comprometam a deixar para trás a sua vida “de pecado”.
Obviamente, Ann Lee tem, ou acredita ter, uma relação privilegiada com Deus, que lhe diz o que fazer ou não. Como sofre perseguições e até mesmo amargou uma prisão duríssima, ela decide levar seus fiéis aos Estados Unidos, que ainda é colônia, mas sua intuição lhe assegura que lá será a terra da liberdade e que não sofrerá as restrições que sofre na Europa. A ela se junta o inseparável irmão e mais alguns seguidores.
É durante essa viagem, num navio caindo aos pedaços, que surge a oportunidade para Deus se manifestar. Durante uma tempestade, Ann Lee ordena aos marinheiros o que devem fazer ou não fazer para se safar. Claro, salvam-se.
A fé, afinal, se nutre de milagres. De eventos extraordinários que comprovem a mão divina aprovando nossos atos. Uma música de vez em quando ajuda. Mas as de Ann Lee? Difícil imaginar que atraem fiéis. Mas Hollywood e arredores entendem disso muito mais do que qualquer um de nós.
O certo é que a chegada à América tem lá suas turbulências. Entre outras, a colônia ainda se prepara para enfrentar os ingleses pela independência. Ann Lee e o pequeno grupo de seguidores lidam com dificuldades, entre elas, as mais graves são a falta de dinheiro e a defecção de um homem e uma mulher que resolveram se perder no pecado e, veja só, casar.
O grupo se reduz e ainda está na pior, isso até que um ancião começa a tremer, e sobretudo o dedo indicador de uma das mãos, e o dedo parece agora que o puxa em determinada direção. Ele sai correndo. Vai longe. Mas chega a um campo e diz que é ali que eles devem se instalar.
Nessa altura, um milagre a mais ou a menos não importa muito. Ann Lee concorda com ele e tratam de se instalar ali para dar sequência à sua obra. E, claro, a obra tem sequência, e ganham novos adeptos para suas danças espasmódicas e sua crença.
Até o final, quando um enquadramento com a câmera em 180º, como aqueles que celebrizaram os musicais de Busby Berkeley, celebra a dança da comunidade, todos abraçado sem círculo nquanto entoam outra música chata (menos, porém, do que aquelas que Seyfried canta).
As surpresas que “O Testamento de Ann Lee” nos reserva não estão nas imagens, mas existem. A primeira é o fato de Seyfried ter concorrido ao Globo de Ouro como melhor atriz em comédia musical. O musical dá para aceitar. Mas comédia? Bem, se o cara for assistir no barato, talvez.
A segunda e mais desanimadora surpresa vem do fato de “O Testamento de Ann Lee” ser dirigido por Mona Fastvold, que é casada com Brady Corbet, com roteiro dela e do marido. Corbet talvez alguém ainda se lembre, é o diretor do belo “O Brutalista” estar envolvido nessa investida de extrema direita religiosa é, pior que surpreendente, assustador.
Já houve filme de fé, mesmo de milagres capazes de inspirar os crentes. Fiquemos num exemplo célebre: Moisés abrindo o mar em “Os 10 Mandamentos”. Aqui, os milagres de Ann Lee perdem de goleada até para os que podemos ver, dia após dia, nos programas religiosos da TV.
Enfim, um filme só para quem tem muita fé. Em Ann Lee especialmente.
O Testamento de Ann Lee
- Avaliação: Ruim
- Quando: Nos Cinemas
- Classificação: 16 anos
- Elenco: Amanda Seyfried, Lewis Pullman e Thomasin McKenzie
- Produção: EUA, 2025
- Direção: Mona Fastvold