14/05/2026

Escolas criam regras para troca de figurinhas da Copa como forma de evitar conflitos

Por Gustavo Gonçalves/Folhapress em 14/05/2026 às 09:33

Reprodução/divulgação
Reprodução/divulgação

Figurinhas só no recreio. Em meio à febre do álbum da Copa do Mundo de 2026, escolas de São Paulo passaram a definir regras com os alunos para organizar a brincadeira e evitar conflitos. Em vez de proibir, educadores apostam que o hobby favorece a socialização e disputa espaço com o celular.

É o caso do colégio Villare, em São Caetano do Sul, onde as trocas só podem ocorrer às segundas e sextas-feiras, para não atrapalhar a rotina. As normas foram discutidas em sala e depois aprovadas em assembleia, com participação dos estudantes.

“Nos estamos entendendo que tem temáticas das quais a escola não pode se abster. A gente não pode ser um mundo à parte do que está fora da instituição”, diz a orientadora educacional do Villare, Silvia Gallo. Segundo ela, os alunos buscam equilíbrio nas trocas para evitar que alguém se sinta prejudicado.

A criação de regras para as brincadeiras com as figurinhas não é inédita. Em 2018, a escola só interveio depois que surgiram conflitos por trocas consideradas injustas. Em 2022, antecipou o problema e definiu normas antes da circulação do álbum.

O jogo do “bafo” bater cartas no chão para virá-las segue como uma das formas mais populares de ganhar figurinhas e também como uma das maiores fontes de conflito. A diferença de habilidade entre crianças gera disputas, o que levou à criação de regras. Os alunos passaram a usar apenas figurinhas comuns e a combinar antes se a rodada é apenas recreativa ou se envolve aposta.

A troca também funciona como exercício de negociação, sobretudo entre os alunos mais velhos, que fecham acordos mais complexos. Entre os mais novos, a tendência é de maior vulnerabilidade, o que exige mediação para evitar que os menores levem desvantagem. “As crianças mais novas têm uma relação mais emocional. Os maiores, em alguns casos, são mais pragmáticos, focados em completar o álbum”, diz o diretor do Centro Educacional Pioneiro, Mário Fioranelli.

A instituição da Vila Clementino, zona sul de São Paulo, optou por não intervir no valor das trocas. As negociações, porém, ficam restritas aos intervalos e aos períodos antes ou depois do horário regular de aula dentro da sala, são proibidas.

Com os celulares vetados durante o dia, as trocas físicas ganharam ainda mais espaço nos recreios. Para Fioranelli, a interação cresceu junto com a febre das figurinhas. “A ausência dos aparelhos já ampliou a interação entre os alunos. Com as figurinhas, isso ficou ainda mais forte”, afirma.

Até os pais entraram na disputa e no colecionismo. No colégio Magno, também na zona sul de São Paulo, adultos têm interferido nas trocas dos filhos, muitas vezes de forma desproporcional. A escola recebe bilhetes e reclamações quando consideram que uma troca foi desigual.

Na instituição, foram estabelecidos limites para preservar a rotina. As trocas não são permitidas dentro da sala de aula e a venda de figurinhas entre alunos é vetada.

“O que está acontecendo muito agora é que os adultos interferem na brincadeira das crianças, mandando aviso para a escola dizendo que o filho tinha uma figurinha de muito valor e trocou por poucas”, diz a diretora Claudia Tricate. Segundo ela, há também conflitos em grupos de pais, especialmente em torno do “bafo” e das perdas.

Mesmo assim, nem toda interferência adulta é negativa. Tricate relata casos em que os pais ajudam a organizar as coleções e saem com os filhos para comprar figurinhas.

No colégio Pioneiro, o envolvimento das famílias tomou outro contorno. Os alunos do 9º ano do fundamental e do 3º ano do médio vendem figurinhas em barracas durante os eventos da escola para financiar viagens e festas de formatura. “Aquilo que poderia ter tensão, ao contrário, gerou um movimento de engajamento muito bacana”, diz Fioranelli. Um novo evento já está programado.

A cada quatro anos, a Copa traz uma dinâmica diferente, em parte porque uma nova geração chega às escolas. Tricate acredita que, desta vez, os adolescentes estão mais apressados para completar o álbum, uma impaciência que ela atribui ao ritmo acelerado imposto pela tecnologia.

“As crianças e os adolescentes estão mais ansiosos para ver o resultado das coisas. Acho que a convivência hoje é mais apressada e tudo precisa acontecer na hora, os resultados precisam aparecer imediatamente, o que é um pouco diferente”, afirma.

Mesmo com regras definidas, conflitos ainda acontecem. Mas nem todos os educadores os encaram como problema. O diretor-geral da Escola Bilíngue Pueri Domus, Deivis Pothin, vê nas divergências uma oportunidade de aprendizado. Na instituição, as trocas são permitidas apenas no intervalo das sextas-feiras.

“Eventualmente podem surgir pequenas discussões, mas enxergamos essas situações como oportunidades para trabalhar resolução de conflitos, negociação e respeito aos combinados”, afirma.

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