Entregador chinês narra exaustão física e emocional do trabalho em delivery
Por Victoria Damasceno / Folhapress em 04/04/2026 às 13:26
Viver em Pequim significa escorar-se em entregas. A sensação é que qualquer produto pode ser entregue, seja uma refeição pronta, seja uma roupa, seja um scooter (sim, a moto). Assim, circular pela cidade também exige atenção, uma vez que os entregadores com seus capacetes amarelos, azuis ou laranjas, seguindo a cor da plataforma à qual pertencem, dominam o trânsito.
Não à toa, mercados físicos mal sobrevivem, e a cidade tem a fama de abrigar comércios que abrem e fecham em questão de poucos meses.
É nesse contexto que Hu Anyan escreve seu primeiro livro, um compilado das memórias que acumulou em trabalhos precarizados no país, em especial como entregador de plataformas online.
Em “Faço Entregas em Pequim – Memórias de um Trabalhador”, lançado no Brasil pela Record, o autor detalha rotinas extenuantes de mais de 70 horas semanais batendo nas portas dos clientes, lidando com os poucos benefícios sociais oferecidos pelos empregadores, o pagamento que mal cobria as contas e a falta de descanso adequado.
“O tipo de pessoa que eu era dependia mais do ambiente em que eu estava do que da minha natureza. Na verdade, já naquela época eu percebia que a situação no trabalho estava me transformando aos poucos. Eu ficava mais impaciente, mais irritado, menos responsável”, escreve Hu.
O livro, que retrata a realidade de quem atua na engrenagem do gigante comércio eletrônico chinês, nasceu de um blog criado por Hu durante a pandemia para registrar seu cotidiano. O que ele não esperava é que o projeto se tornaria viral e, mais tarde, suas histórias seriam publicadas como um livro que viraria best-seller na China.
De um lado, argumentam que a voz de Hu expõe com simplicidade a realidade de muitos tipos de trabalho. De outro, que o autor traz um relato pessoal que evidencia as dinâmicas dos empregos precarizados a que muitos ainda são submetidos.
Hu, porém, não refletiu longamente sobre a tensão entre trabalho, desigualdade e mobilidade social quando decidiu compartilhar suas memórias.
“Só depois da publicação, quando comecei a ser questionado sobre isso, passei a refletir mais sobre o tema. Pessoalmente, vejo o livro como um memorial centrado nas minhas experiências profissionais. Talvez algo entre autobiografia e documentário social”, diz à reportagem.
O autor expõe que teve de aguentar dias de trabalho não remunerado para, talvez, conseguir uma colocação em uma empresa de entregas. Mostra que parar para comer ou ir ao banheiro dependia de um cálculo sobre quanto dinheiro seria perdido com aquela pausa.
Revela detalhes que muitas vezes escapam a quem utiliza esse tipo de serviço -como o fato de que os entregadores arcam com os prejuízos em grande parte das ocorrências. Um desses casos lhe rendeu uma perda de 1.000 yuans (cerca de R$ 750).
“Por exemplo, como meu minuto valia meio yuan, ir ao banheiro me custava 1 yuan, mesmo que o sanitário público fosse de graça, porque eu gastava dois minutos. Almoçar levava 20 minutos -metade deles só esperando a comida ficar pronta-, ou seja, 10 yuans. Se um prato feito custasse 15 yuans, o custo total do meu almoço seria 25 yuans, um luxo que eu não podia me dar”, escreve.
Hu conta que, ao publicar a obra, ficou surpreso com o desconhecimento dos clientes sobre o nível de automação da indústria da qual são consumidores. Muitos acreditam, diz ele, que o trabalho desempenhado nas madrugadas por trabalhadores braçais já seja feito por máquinas.
“Alguns leitores ficaram chocados ao descobrir que eu trabalhava no turno da noite separando encomendas em uma empresa de logística. Eles não sabiam que esse tipo de trabalho físico pesado ainda existe nas operações logísticas modernas.”
O autor opta por não identificar parte das empresas onde trabalhou, citando apenas algumas participantes do mercado. As mais conhecidas de delivery, como a Meituan -dona do braço brasileiro Keeta-, acabam ficando em segundo plano, já que sua experiência se resume à entrega de produtos comprados por outras plataformas.
A obra não se limita, porém, ao período em que Hu atuou como entregador. O chinês reúne relatos pessoais de 19 empregos em diferentes localidades.
Além de Pequim, apresenta ao leitor passagens em que trabalhou em Xangai como faz-tudo em uma loja de conveniências ou auxiliando na venda de bicicletas. O registro pessoal se mantém ao longo de todo o texto, evidenciando que, apesar das diferenças entre as colocações, a exaustão física e emocional e a baixa remuneração são, quase sempre, o denominador comum.
FAÇO ENTREGAS EM PEQUIM – MEMÓRIAS DE UM TRABALHADOR
Preço R$ 79,90 (252 págs.)
Autoria Hu Anyan
Editora Record
Tradução Amilton Reis