Baixada Santista aparece em novo organograma do PCC com setor próprio e lideranças mapeadas pela Polícia Civil

Por Folha Press em 20/02/2026 às 05:00

Arquivo/Agência Brasil
Arquivo/Agência Brasil

A Polícia Civil de São Paulo identificou que a Baixada Santista possui subdivisões específicas dentro da estrutura do Primeiro Comando da Capital (PCC), incluindo a chamada “Sintonia Final da Baixada” e a FM-BX (Família da Baixada). O novo organograma da facção aponta 87 líderes, sendo 52 presos e 35 em liberdade, divididos em 14 setores.

O organograma identifica quatro pessoas em subdivisões regionais separadas apenas na Baixada Santista: a Sintonia Final da Baixada, que coordena atividades principalmente em Santos, Guarujá, Cubatão e São Vicente, e a FM-BX (Família da Baixada, que corresponde aos pontos de venda de drogas na região).

Além disso, o gráfico também mostra pessoas associadas e ex-integrantes da cúpula, hoje jurados de morte, ou “decretados”, no jargão da facção. Considerados todos esses, há um total de cem nomes no documento, dos quais 62 estão presos.

É a primeira vez que um organograma do PCC destaca o papel dos associados, que não passam pelo ritual de batismo da facção nem têm dedicação exclusiva a ela, no funcionamento da organização. O organograma, elaborado pelo Dipol (Departamento de Inteligência da Polícia Civil), foi divulgado inicialmente pelo SBT News e confirmado pela Folha.

Ele mostra, por exemplo, que do total de 15 homens apontados como integrantes da Sintonia Final, cúpula máxima de comando, há apenas um em liberdade. Trata-se de Adeilton Gonçalves da Silva, o Maranhão. Em 2019, ele foi apontado como um dos participantes do massacre que deixou 55 mortos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus.

À frente da Sintonia Final ainda está Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso há mais de 25 anos e no sistema penitenciário federal desde 2019. Ele ocupa o posto desde o fim de 2002, quando dois líderes considerados mais radicais foram destituídos da facção.

Entre os associados à facção no organograma estão Mohamad Hussein Murad (o Primo) e José Carlos Gonçalves (Alemão), alvos da Operação Carbono Oculto, que apontou um esquema de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis e de serviços financeiros.

Setores do PCC

  • Sintonia Final – Instância máxima de decisão
  • Sintonia Final do Sistema – Responsável pelo controle interno dos presídios
  • Sintonia Restrita -Auxilia na tomada de decisões estratégicas da Sintonia Final
  • Sintonia Final de Rua – Responsável por manter organização, disciplina e operações em bairros e cidades
  • Sintonia Final dos Estados e Países – Coordenação regional e internacional, atua como elo com liderença central
  • Sintonia do Progresso – Responsável pelo desenvolvimento do tráfico de drogas e outras atividades que dão lucro à facção
  • Setor da Padaria – Responsável pela arrecadação financeira e circulação de valores
  • Sintonia Interna – Responsável pela estrutura de comando, disciplina e hierarquia
  • Sintonia Interna da Internet e Redes Sociais – Gerencia as comunicações online entre membros e fiscaliza uso de redes
  • Setor do Raio-X – Estrutura de fiscalização interna
  • Sintonia Final da Baixada – Subdivisão regional focada em Santos, Guarujá, Cubatão e São Vicente
  • FM-BX – ‘Família da Baixada’, responsável pelas biqueiras da Baixada Santista
  • Sintonia dos Gravatas – Faz a defesa jurídica dos faccionados e transmite mensagens e ordens de chefes presos
  • Quadro dos 14 – ‘Instância de elite’ que julga, sanciona e fiscaliza cumprimento de normas

Entre os setores subordinados diretamente à cúpula da facção no organograma estão as sintonias que organizam as áreas de controle territorial da facção, o tráfico internacional de drogas, a disciplina dentro de presídios, o setor jurídico, um setor de comunicação digital e até um departamento responsável por auditoria interna da facção.

A Sintonia Final de Rua é aquela que tem maior proporção de integrantes em liberdade, essa é praticamente uma pré-condição para a função, já que eles coordenam atividades da facção em bairros e cidades brasileiras. De um total de 16 integrantes desse grupo, dez estão em liberdade.

Dois deles têm mandados de prisão em aberto e são considerados foragidos. É o caso de Silvio Luiz Ferreira, o Cebola, que já foi sócio da empresa de ônibus UPBus e é o único alvo da Operação Fim da Linha que não foi preso. Ele está foragido desde 2014.

O organograma também aponta oito integrantes da Sintonia Restrita, grupo que segundo o Dipol é formado por membros de extrema confiança da cúpula e “atua como um braço direto da Sintonia Final, auxiliando na tomada de decisões estratégicas e garantindo sigilo absoluto sobre assuntos críticos do PCC”.

A sintonia ou quadro dos 14, por sua vez, é identificada como uma “instância de elite dentro da estrutura do PCC”. Segundo a Polícia Civil, é uma “instância deliberativa para julgar, sancionar e fiscalizar o cumprimento das normas dentro da facção, especialmente no âmbito ‘das ruas'”.

Há outras duas instâncias que lidam com a cadeia de comando do PCC e da manutenção da disciplina, segundo o documento: a Sintonia Interna e o Setor do Raio-X. Ambos os setores têm um membro identificado.

O Setor do Raio-X é responsável pela fiscalização interna, segundo a Polícia Civil. É “uma espécie de ‘serviço de auditoria’ do grupo, criada para inspecionar, investigar e avaliar o comportamento dos integrantes da organização”, de acordo com o documento.

Líderes e associados ao PCC

Alguns dos nomes que aparecem no novo organograma da facção criminosa, feito pela Polícia Civil de SP

Mohamad Hussein Mourad, o Primo

Dono da produtora de combustíveis Copape e da distribuidora Aster, foi o principal alvo da Operação Carbono Oculto e está foragido desde agosto de 2025. O MPSP aponta que ele coordena uma rede de empresas que lava dinheiro da facção; a defesa dele nega.

Adeilton Gonçalves da Silva, o Maranhão

Apontado como um dos autores de um ataque que deixou 55 mortos num presídio em Manaus, foi transferido à época para a penitenciária federal de Brasília; é a primeira vez que é apontado como integrante da Sintonia Final

Sergio Luiz de Freitas Filho, o Mijão

Foragido, é apontado como recrutador de criminosos para a Sintonia Restrita Tática e como mandante de planos para assassinar um promotor do MPSP em Campinas (SP), frustrados em 2025

Silvio Luiz Ferreira, o Cebola

Apontado como integrante das sintonias do Progresso e da Final de Rua; foi sócio da empresa de ônibus UPBus, alvo da Operação Fim da Linha

O Setor do Raio-X é responsável pela fiscalização interna, segundo a Polícia Civil. É “uma espécie de ‘serviço de auditoria’ do grupo, criada para inspecionar, investigar e avaliar o comportamento dos integrantes da organização”, de acordo com o documento.

Já a Sintonia Interna seria a “estrutura de comando responsável pelo controle das operações dentro do sistema prisional e das unidades controladas”. O documento informa que ela é considerada “a espinha dorsal operacional do PCC dentro das prisões e territórios controlados, garantindo que a disciplina e a hierarquia sejam respeitadas”.

A Sintonia Final do Sistema, com sete integrantes identificados, é responsável pelo controle do PCC dentro do sistema prisional, “garantindo disciplina, hierarquia e cumprimento das ordens”.

A Sintonia Interna da Internet e Redes Sociais é responsável por vários tipos de comunicação online, segundo o documento. Ela coordena contatos entre integrantes da facção, por meio de aplicativos, rede sociais e e-mails criptografados, e também fiscaliza o uso de redes sociais, monitorando publicações que possam expor a facção.

Há ainda a Sintonia do Progresso, normalmente associada ao tráfico de drogas, é focada em logística e estratégias de crescimento da facção, segundo a Polícia Civil, o setor da Padaria (ou financeiro) e a Sintonia Final dos Estados e Países, responsáveis pela coordenação regional e internacional.

Conforme levantamento divulgado pelo Ministério Público de São Paulo no ano passado, o PCC já alcançou ao menos 28 países. Alemanha, Irlanda, Turquia e Japão são os novos locais onde a facção foi detectada, em relação a um levantamento anterior. O faturamento total é estimado em cerca de R$ 1 bilhão por ano.

Nomes que já apareceram ao lado de Marcola na cúpula da facção, em outros mapeamentos da hierarquia da facção, hoje estão entre os “decretados” à morte.

É o caso de Roberto Soriano (o Tiriça), Wanderson Nilton Paula Lima (Andinho) e Abel Pacheco de Andrade (Vida Loka). Desde 2024, eles passaram a se opor a Marcola no que é considerado o maior racha na cúpula do PCC em duas décadas. Todos estão presos no sistema federal.

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