Entre desafios e recomeços, mulheres encontram a maternidade depois dos 40
Por Beatriz Pires em 10/05/2026 às 12:00
Mulheres da Baixada Santista têm adiado a maternidade e perseguido o sonho de ter filhos após os 40 anos. O ritmo acelerado da vida, prioridades profissionais e mudanças nos planos pessoais fazem com que cada vez mais mulheres engravidem tardiamente. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o número de bebês nascidos de mães nessa faixa etária cresceu cerca de 65% nos últimos dez anos.
Para essas mães, a chegada dos filhos representa um recomeço. Neste Dia das Mães, comemorado neste domingo (10), a data ganha um significado ainda mais especial para mulheres que vivenciaram a maternidade depois dos 40 anos.
Recomeço após perdas

Luana Cabral passou por três gestações ao longo da vida, todas inesperadas. A primeira aconteceu aos 20 anos, quando nasceu seu primeiro filho. Na época, a maternidade, a carreira profissional e o casamento pareciam suficientes. Duas décadas depois, aos 41 anos, ela descobriu uma nova gravidez.
“Ficamos assustados e felizes, pois, nessa idade, acreditava que precisaria ter algum cuidado especial para que isso acontecesse”, conta Luana.
A gestação, porém, não evoluiu. Após um ultrassom indicar aborto retido, Luana procurou outro ginecologista, que ainda identificou batimentos cardíacos. Mesmo com repouso e acompanhamento médico, a gravidez não seguiu.
Abalada pela perda, ela e o marido decidiram buscar um novo método contraceptivo e planejavam a colocação de um DIU. Antes disso, Luana recebeu outra notícia marcante: a morte da avó, que vivia em outra cidade. No mesmo dia, descobriu uma nova gravidez, aos 42 anos. Ela destaca a importância do acolhimento médico durante todo o processo.
“Meu médico me acolheu e disse que ainda celebraríamos a vida, e voltaríamos a uma sala daquelas para trazer um bebê ao mundo. Quase dois anos depois, estávamos na mesma maternidade, na sala ao lado, para trazer a Marina ao mundo. Nunca esquecerei disso”, relata.
Hoje, Luana é mãe de um homem de 24 anos e de Marina, de dois anos. Segundo ela, a maturidade e a estabilidade conquistadas ao longo da vida mudaram sua forma de enxergar a maternidade.
“Tenho a possibilidade de curtir cada momento, cada novo acontecimento. Não trocaria por nada, estou completa”, afirma.
Dez anos de tentativas

Para a psicóloga Fernanda Gaspar, o caminho até a maternidade foi marcado por espera e inúmeras tentativas. Foram dez anos tentando engravidar, passando por 14 fertilizações, sete transferências e dois abortos espontâneos até o nascimento de João Pedro, hoje com três anos.
Fernanda conta que começou as tentativas aos 31 anos. Durante o processo, passou por diferentes etapas da reprodução assistida e lembra que o único embrião masculino transferido foi justamente o que resultou na gravidez, descoberta aos 42 anos.
“O principal desafio foi me manter conectada com a fé durante toda essa espera. É um dos momentos em que a gente fica muito balançada, com muitas perguntas e poucas respostas. Continuar acreditando que um dia iria acontecer foi um dos maiores desafios, porque é tudo muito abstrato”, relata a psicóloga.
Em meio ao processo emocional, Fernanda decidiu iniciar uma segunda graduação em Psicologia após sofrer o primeiro aborto. Depois de concluir o curso, se especializou em reprodução assistida. Segundo ela, o acompanhamento psicológico é fundamental durante esse período.
Mesmo atendendo pacientes que viviam situações semelhantes, Fernanda manteve as tentativas em sigilo por conta da profissão do marido, que é ginecologista e especialista na área. Ela conta que só conseguiu engravidar quando ele assumiu diretamente o tratamento.
Fernanda afirma que a longa espera valeu a pena e acredita que viver a maternidade após os 40 trouxe uma experiência diferente da que teria anos antes.
“A maternidade após os 40 anos vem em um momento completamente diferente, marcado por maturidade, consolidação profissional e mais consciência. Consciência na construção e no desenvolvimento desse ser que precisa ser amado”, conclui.
Maternidade com mais leveza

Aos 51 anos, Andréa Moraes é mãe de João Pedro, de 21 anos, e Alice, de 9. Diferente da primeira gravidez, que aconteceu de forma inesperada aos 29 anos, a chegada da filha caçula foi marcada por anos de tentativas, perdas e tratamentos.
Andréa conta que sempre desejou ter mais um filho, mas decidiu adiar os planos por causa da rotina intensa de trabalho e da vontade de oferecer mais atenção à família.
Ela engravidou logo na primeira tentativa, mas perdeu o bebê com dez semanas de gestação. A perda deu início a uma série de investigações médicas, que identificaram endometriose e útero retroverso, condições que dificultavam uma nova gravidez. Durante três anos, Andréa enfrentou tratamentos, acompanhamentos hormonais e o desgaste emocional causado pela ansiedade.
Aos 41 anos, ouviu dos médicos que as chances de engravidar naturalmente eram muito pequenas. A recomendação foi iniciar o processo de fertilização in vitro (FIV). Andréa chegou a entrar na fila de um programa especializado, mas antes mesmo do início do tratamento recebeu uma surpresa.
“Quando resolvemos relaxar e esperar a fertilização, eu engravidei naturalmente. Descobri a gravidez durante uma viagem para a Argentina. Meu mundo voltou a ficar claro”, lembra.
Alice nasceu saudável e transformou novamente a rotina da família. Andréa afirma que viver a maternidade depois dos 40 trouxe uma experiência completamente diferente da que teve na juventude.
“Com o João eu era jovem, trabalhava muito e não conseguia acompanhar vários momentos do crescimento dele. Com a Alice, eu vivi cada fase. Vi quando ela andou, engatinhou e começou a falar. A maternidade depois dos 40 é mais leve”, diz.
Apesar da realização, Andréa reconhece que a maternidade tardia também traz desafios físicos. Atualmente vivendo o climatério, ela relata que o cansaço e as mudanças hormonais exigem adaptações na rotina. Mesmo assim, ela considera que a experiência valeu a pena e incentiva mulheres que desejam engravidar mais tarde.