Nego Panda reconecta ancestralidade negra em lançamento de livro no Centro de Santos

Por Santa Portal em 10/02/2026 às 11:00

Divulgação
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O escritor, poeta e mestre de capoeira Elton Alexandre, conhecido como Nego Panda, lança nesta quinta-feira (12), às 18h, o livro Águas Ancestrais, na Vila do Teatro, no Centro de Santos, no litoral de São Paulo. A obra nasce de uma imersão do autor em Salvador e no Recôncavo Baiano, onde buscou reconectar identidade e ancestralidade negra a partir do diálogo com mestres de capoeira, lideranças religiosas e vivências em terreiros.

Panda define a experiência de escrever o livro como um processo de “conexão” e afirma que a travessia pela Bahia reforçou a percepção de que a ancestralidade “está mais perto do que a gente imagina”. A escrita se apoia no conceito de “escrevivência”, em que poesia e memória coletiva caminham juntas, embaladas pelo ritmo do berimbau e do tambor.

Figura ativa da cena cultural da Baixada Santista, Nego Panda também atua como editor. À frente da Editora Periferia tem Palavra, ele coordena um projeto voltado à publicação de autores negros, periféricos e da comunidade LGBTQIAPN+, frequentemente excluídos do circuito editorial tradicional. Para o autor, a literatura é um instrumento político. “Somos corpos políticos e a escrita é uma forma de mostrar que ainda estamos vivos”, afirma.

No livro, a capoeira aparece como linguagem central. Ao descrever as rodas no Forte da Capoeira, em Salvador, Panda destaca o caráter espiritual da prática. “O berimbau fala com os mortos”, diz, citando o ensinamento do mestre Sombra. “Jogar capoeira é pôr o corpo em oração”. Para ele, corpo, palavra e sagrado formam um mesmo campo de resistência.

A obra também aborda o racismo a partir da ressignificação da dor. Ao evocar a imagem de “Anastácia Livre”, o autor propõe transformar cicatrizes históricas em potência. “Nossa história tem dor e sofrimento, mas não podemos ficar reduzidos a isso. Somos amor, afeto e a história viva dos nossos ancestrais”, afirma.

Reconhecido como griô, guardião da memória oral, Panda reflete sobre o desafio de levar a oralidade para o papel. Inspirado em pensadores como Nego Bispo, ele defende uma escrita circular, em que cada texto é continuidade de uma voz coletiva. “Eu não ando só e não escrevo só”, resume.

O lançamento em Santos deve seguir essa lógica. Segundo o autor, além de uma sessão de autógrafos, o evento inclui poesia falada, performance e referências à capoeira, conectando literatura e corpo em cena.

Viabilizado com apoio do ProAC e da Política Nacional Aldir Blanc, Águas Ancestrais também levanta o debate sobre políticas públicas para a cultura. Panda avalia que os editais são importantes, mas insuficientes. “É preciso fortalecer escritores e editoras independentes para além dos editais, com políticas contínuas que combatam a invisibilidade da literatura negra periférica”, afirma.

Ao falar com jovens que escrevem à margem do mercado editorial, o autor evita idealizações, mas reforça a possibilidade do caminho. “A poesia precisa ser um mecanismo de liberdade, identidade e autoestima”, diz.

Serviço

Lançamento do livro: Águas Ancestrais
Autor: Nego Panda
Data: 12 de fevereiro, às 18h
Local: Vila do Teatro – Praça dos Andradas, 95, Centro, Santos
Editora: Periferia tem Palavra

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