Espetáculo de grupo de Cubatão transforma história dos migrantes nordestinos em arte e reflexão

Por Andre Marcondes/Folhapress em 06/06/2026 às 06:00

Sander Newton
Sander Newton

O que você faria se estivesse diante do abismo? É a partir dessa provocação central que se desenrola “Os Sapatos que Deixei pelo Caminho”, novo espetáculo do Teatro do Kaos, de Cubatão, entrou em temporada no tradicional Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, na sexta-feira (5). A peça retrata a jornada de exclusão dos migrantes nordestinos, temática de forte conexão com a realidade cubatense, já que cerca de 60% da população do município é formada por eles ou seus descendentes.

Longe de se limitar a um relato linear, a montagem aposta no hibridismo estético para dar conta das múltiplas camadas do protagonista, promovendo uma costura fina entre cinema, música, artes visuais, dança e teatro de bonecos.

Para o diretor Marcos Felipe, a fusão dessas linguagens surgiu naturalmente no processo criativo. Na condução do espetáculo, a ideia foi usar todos os recursos disponíveis: “Se determinado momento seria melhor contado pela dança, recorríamos a ela.”

Embora o audiovisual e o movimento ganhem força, as fronteiras são atravessadas com sensibilidade, garantindo que a presença do ator e a palavra sigam como protagonistas da narrativa.

A dramaturgia caminha entre a realidade crua e a fabulação. A obra utiliza o conceito de autoficção para costurar temas urgentes da contemporaneidade -como a xenofobia, o capacitismo, a sexualidade e a exclusão social- sem deixar que a narrativa perca sua dimensão humana e subjetiva.

Segundo Marcos Felipe, a ideia era que a realidade não fosse delimitadora da dramaturgia, mas que permitisse, a partir de um fato real, expandir os nossos olhares para múltiplas questões, poesias e reflexões. O diretor se propõe a ficcionalizar a partir do real para ampliar as possibilidades de leitura e interpretação.

Discutir dores estruturais do Brasil sem cair no panfletário foi um grande desafio da equipe. A solução foi apostar no afeto, no singelo e na cumplicidade. O elenco do Teatro do Kaos tem anos de convivência e convidou Marcos Felipe -com trajetória ligada ao centro de São Paulo- para a direção.

Essa sinergia, baseada em amizade, foi levada para os ensaios. Segundo o diretor, o que é dito em cena passa pelo viés da delicadeza, como estratégia de comunicação com o espectador. Ele defende que expor a dureza faz a plateia se desconectar como mecanismo de proteção. Por isso, optou por abordar temas difíceis de maneira sensível e poética para criar uma conexão direta com o público.

As realidades geográficas de Cubatão e do centro de São Paulo também deixam suas digitais na construção de Poim. O diretor enxerga paralelos profundos entre o Teatro do Kaos e a Cia. Mungunzá, destacando que ambos são grupos de pesquisa continuada que desenvolvem seus trabalhos em territórios marcados pela precarização e pela vulnerabilidade social.

Diante do cenário político e social do país, o encenador afirma que a arte é o espelho da sociedade contemporânea e “está para revelar os nossos conflitos, para criar ruído, para a gente se ver em perspectiva”.

Para ele, o teatro político contemporâneo deve carregar essas angústias como forma de luta, mas sem esquecer a celebração com um desenlace solene e festivo depois de um dia de trabalho.

Os Sapatos que Deixei pelo Caminho

Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno | R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, região central.

5 a 28 de junho de 2026, sex., sáb. e dom., às 19h.

Classificação indicativa: 16 anos.

Duração: 60 minutos.

Ingr.: R$ 50 (inteira) em sympla.com.br

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