20/05/2026

Em novo álbum, grupo de rap Kneecap canta pela Palestina e revida polêmicas

Por Lucas Brêda/Folhapress em 20/05/2026 às 08:33

Reprodução/Divulgação Kneecap
Reprodução/Divulgação Kneecap

O grupo de rap Kneecap, da Irlanda do Norte, gravou seu terceiro disco enquanto Mo Chara, um de seus integrantes, tinha de ir prestar depoimentos à Justiça de Londres. Ele vinha sendo acusado de terrorismo por supostamente ter mostrado, há dois anos, uma bandeira do grupo islâmico Hezbollah em show o que é crime no Reino Unido. O músico negou a história, e o caso foi encerrado.

Mas uma gravação com gritos de fãs pedindo sua liberdade do lado de fora do tribunal foi usada na faixa “Carnival”, uma das 14 músicas de “Fenian”, o novo álbum do trio, lançado neste mês. A letra debocha da acusação, evocando Gerry Conlon, irlandês que passou 15 anos na prisão em Londres após ser injustamente condenado como terrorista a história é retratada no filme “Em Nome do Pai”, de 1993, com Daniel Day-Lewis.

“Fomos usados como distração para o que está acontecendo na Palestina, porque a cada minuto que ocupávamos o noticiário era um minuto a menos para falar sobre esse genocídio”, diz o DJ Próvaí, um dos integrantes do Kneecap. “Isso não é por acaso é proposital. Os políticos sabem que, se conseguirem criar esse carnaval de distrações, desviam a atenção das pessoas das atrocidades que estão cometendo.”

“Fenian” dobra a aposta do Kneecap em um rap politicamente combativo, cantado em irlandês e em inglês, que denuncia o colonialismo em seu país de origem e o conflito em Gaza. Foi pelo envolvimento na causa palestina, aliás, que o trio de Belfast entrou na mira das autoridades britânicas no ano passado.

Primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer pediu que o Kneecap fosse retirado do Glastonbury, o principal festival do país. Eles acabaram se apresentando e causaram um alvoroço. O show teve xingamentos que abrangeram do próprio político ao tabloide Daily Mail além de, claro, ataques ao governo de Israel. A performance não foi transmitida pela BBC.

O The Guardian deu nota máxima ao show, em que a plateia e os artistas exibiram bandeiras e símbolos palestinos. O crítico Alexis Petridis disse que multidão se dividia entre “rodas punk e mosh pits”, em incentivo à banda, e afirmou que a sensação era “genuinamente emocionante”, chamando a performance de “momento selvagem”.

Àquela altura, o Kneecap já era conhecido por ter feito algo semelhante nos Estados Unidos. Em abril do ano passado, no festival Coachella, o trio exibiu o slogan “foda-se Israel, liberdade para a Palestina” no telão, puxou cantos do público em favor da causa e fez um discurso contra a guerra em curso em Gaza. Os organizadores disseram que foram pegos de surpresa.

A polícia investigou o Kneecap pelos comentários no Glastonbury, mas encerrou afirmando que as evidências eram insuficientes para uma condenação. Meses antes, o trio já havia vencido o governo do Reino Unido na Justiça após ter sido impedido de receber um subsídio estatal.

Essa coleção de embates rendeu problemas ao Kneecap, que está banido de alguns países, como Canadá e Hungria. Ao mesmo tempo, ampliou o alcance do grupo, que começou com os integrantes ouvindo as canções rebeldes irlandesas cancioneiro tradicional que retrata as rebeliões contra o domínio da Coroa Britânica no território.

“Ouvimos bandas como Wolfe Tones, Irish Brigade e outras que, de certa forma, satirizavam a ocupação britânica da Irlanda”, diz Próvaí. “Algumas eram sobre assassinatos, outras sobre heróis irlandeses. E há canções mais divertidas sobre mitologia.”

A partir dessa tradição, o trio escolheu defender o idioma próprio. O hip-hop veio depois, como “plataforma para contar as histórias do povo e das pessoas das ruas”, diz o artista. “Os irlandeses são muito conhecidos por serem contadores de histórias e, desde as canções rebeldes, música e política caminham juntas.”

Para o DJ, viver é política se você vem de onde ele vem. Próvaí recorda o Domingo Sangrento, quando o exército britânico abriu fogo “contra 13 pessoas desarmadas”, em 1972, como uma história que perdura. Cita também a pobreza na comunidade de onde veio, em Derry, a segunda maior cidade do país.

“Umas 17 pessoas da minha família moravam na mesma casa”, diz. “Não tinha moradia nem emprego, então as pessoas vão às ruas protestar por direitos civis. Crescemos nessas áreas, ouvimos essas histórias. Nossas famílias viveram na pobreza, enfrentaram tempos difíceis e foram para o conflito. Não temos como evitar sermos políticos.”

O Kneecap lançou o primeiro EP em 2018, mas ganhou notoriedade com “Fine Art”, o álbum de estreia, de 2024. O rap hedonista e de flow habilidoso do trio tinha como bandeira a defesa da língua irlandesa questão controversa mesmo dentro do próprio país.

O disco veio na esteira de “Kneecap Música e Liberdade”, filme do mesmo ano estrelado por Michael Fassbender, que narra uma versão ficcionalizada da história do grupo um trio de rap de Belfast em busca de salvar o idioma irlandês. Levou um prêmio, e concorreu a outros cinco, no Bafta, o Oscar inglês.

Agora em “Fenian”, eles trabalham com o produtor Dan Carey, destaque na nova cena de rock britânica, com discos de Black Midi e Fontaines D.C. no currículo. Ele foi a um show do Kneecap em Wembley e tentou traduzir a energia daquela performance na sonoridade do álbum.

As novas faixas têm batidas secas e instrumentais de grime e música eletrônica. “Não queremos nos resumir a um gênero”, diz Próvaí. “Obviamente fazemos hip-hop, mas nosso som às vezes é dançante, às vezes soa como grime, também tem aspectos mais viajantes ou melancólicos.”

O título, “Fenian”, refere-se originalmente a guerreiros da mitologia irlandesa, mas hoje é usado de maneira depreciativa na Irlanda do Norte e no Reino Unido. Para o DJ, é irônico que um disco com esse nome esteja em segundo lugar na parada britânica atrás apenas de Michael Jackson.

Em termos de discurso, o álbum também reflete o ano turbulento do Kneecap sob os holofotes. A música “Liar’s Tale”, por exemplo, é uma resposta direta ao primeiro-ministro britânico, e também um ataque ao israelense, Benjamin Netanyahu.

O conflito em Gaza motiva “Palestine”, feita em parceria com o rapper palestino Fawzi. Há anos tratando da causa palestina, diz Próvaí, o Kneecap agora quis exibir o ponto de vista de um artista baseado em Ramala.

Para o DJ, há semelhanças entre a atuação de Israel em Gaza e do Reino Unido no país vizinho. “Houve fome forçada na Irlanda, como há na Palestina, porque os britânicos levaram a comida embora para alimentar guerras”, diz. “E as pessoas foram deslocadas, como os palestinos. Eles estão sendo bombardeados pelos céus. E o regime israelense, com ajuda dos Estados Unidos, está destruindo escolas e hospitais.”

Como na Irlanda do Norte, diz, os males da guerra atravessam gerações. “Não é só uma geração que sofre, mas todas as que vêm depois.”

O Kneecap planeja se apresentar na América do Sul onde, diz o DJ, a Europa fez estrago. Próvaí afirma que os britânicos cortaram as árvores irlandesas para fazer fogo e a partir daí criar espadas e armas e colonizar o mundo. Vê os brasileiros como “apaixonados” e diz acreditar que a combinação do grupo com o público daqui seria um “combo explosivo”.

Hoje, no olho do furacão, Próvaí se lembra que o Kneecap foi criado apenas para cantar rap em irlandês —e não ser porta-voz de movimentos. Ele diz não acreditar que a música promova revoluções, mas fornece alento. E acha importante que a arte denuncie o que chama de genocídios.

Nega ainda as acusações de terrorismo. “Você vê pessoas em altos cargos e governos tentando censurar bandas que falam contra eles isso é uma ladeira escorregadia em direção ao fascismo. Poder discordar de alguém não é um direito humano básico? Criam leis que ninguém fica sabendo para te colocar na cadeia por discordar deles. Mas o terror real é o que essas administrações fazem ao criar genocídios e bombardear as pessoas dos céus.”

FENIAN

  • Onde: Nas plataformas digitais
  • Autoria: Kneecap
  • Produção: Dan Carey
  • Gravadora: Heavenly Recordings
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