02/06/2026

'Visita a Domicílio' retrata amor interrompido pela ditadura militar argentina

Por Cristina Camargo/Folhapress em 02/06/2026 às 09:25

Reprodução/Divulgação
Reprodução/Divulgação

Um segredo guardado durante 25 anos movimenta o reencontro de dois homens, em um apartamento de Buenos Aires, na peça “Visita a Domicílio”, que faz temporada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. De forma inesperada, os ex-namorados ficam frente a frente, lembram momentos da juventude e precisam lidar com o motivo que causou a separação.

Tem a ver com homofobia e repressão em uma Argentina ainda contaminada pela ditadura militar no final do século passado, período em que o jovem casal tem o amor interrompido. Os personagens são interpretados pelo argentino Juan Tellategui e pelo brasileiro Cícero de Andrade, com direção compartilhada entre Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado.

O texto original, “Tu Hipocampo y Mi Caballito de Mar”, do argentino Alberto Romero, ganhou adaptação dramatúrgica de Arcanjo, marcando a estreia do jornalista especializado em teatro na criação de um espetáculo para os palcos.

O espetáculo estreou no mês em que se celebra o Dia Internacional contra a LGBTFobia. Em 17 de maio de 1990, a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou oficialmente a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. A montagem também chega às vésperas da 30ª Parada do Orgulho LGBT+, marcada para 7 de junho, na avenida Paulista, em São Paulo.

O preconceito, no entanto, ainda é uma realidade. O Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o número de registros de violência contra pessoas LGBTQIA+ no Brasil cresceu 1.227% de 2014 para 2023. Eram 1.157 casos no primeiro ano observado, saltando para 15.360 no último.

“Quando nos deslocamos das capitais, vemos que ainda é muito presente a violência familiar, os adolescentes sendo expulsos de casa, a violência psicológica”, diz Tellategui, que comemora 30 anos de carreira artística, 15 deles no Brasil.

Arcanjo optou por manter a encenação em Buenos Aires, em respeito à nacionalidade do autor. “Ele é um dos poucos atores argentinos que construiu uma carreira no Brasil, então faço esse diálogo entre os dois países pela própria presença dele aqui”.

É uma presença que carrega vivências sobre o cinema, os palcos e a TV argentina. O apartamento do cenário, por exemplo, fica na Corrientes, a avenida dos teatros em Buenos Aires. Em pleno centro portenho, Gabo (Tellategui) e Fernando (Andrade) fazem um acerto de contas marcado pela convicção de que o amor sobrevive à distância e ao tempo passado.

Em uma homenagem às novelas latino-americanas, há drama, conflitos, romance e comédia em uma história em que os fatos vêm à tona aos poucos, em uma espécie de alegoria da teledramaturgia proposta pelo diretor Zé Guilherme. A intenção, diz, é deixar o público grudado na cadeira e pensando: “Meu Deus, que história”.

“Será que é uma novela ou não é? Acho que isso é o legal do teatro: cada um pensar o que quiser. E isso, de alguma maneira, também vem como sugestão na dramaturgia do Alberto”.

Andrade vê em seu personagem uma tentativa de entender o passado por meio de um diálogo intenso entre dois homens, uma situação que ainda não é corriqueira nas encenações de histórias de amor.

“É uma relação tão bonita e tão cheia de possibilidades como a de um casal heteronormativo”, afirma. O relacionamento entre Gabo e Fernando não é baseado apenas na atração sexual, mas também no afeto e no companheirismo interrompido quando a vida a dois apenas começava. O drama da dupla é não ter podido viver a própria história.

“Muitas pessoas da comunidade LGBTQIA+ não tiveram a chance de viver um primeiro amor em sua adolescência. Os personagens Gabo e Fernando se arriscaram e hoje, 25 anos depois, ganham a oportunidade de fechar ou reabrir essa primeira história que ficou inconclusa”, diz o autor.

Além de “Visita a Domicílio”, outras peças em cartaz na capital paulista abordam os relacionamentos homoafetivos. É o caso de “Chez Toi – Em Seu Lugar”. No espetáculo, em cartaz no Teatro Nair Bello, Abigail (Bárbara Bruno) vive afastada da filha Emily (Bianca Rinaldi) por causa do romance com Laura (Viviane Figueiredo), uma pianista morta há 20 anos.

Apresentada no Sesc Ipiranga, “Anywhere” é inspirada em relatos de refugiados e imigrantes LGBTQIA+ e acompanha um homem retido em um aeroporto à espera de um documento. Em “Clô, pra Sempre”, no Teatro Mooca, Eduardo Martini retoma o sucesso da interpretação do estilista e apresentador Clodovil Hernandes, com suas conquistas e dores.

VISITA A DOMICÍLIO

  • Quando: Até 25 de junho
  • Onde: Teatro Sérgio Cardoso
  • Preço: De R$ 35 a R$ 70
  • Autoria: Alberto Romero
  • Elenco: Juan Tellategui e Cícero de Andrade
  • Direção: Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado
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