Trump zera ajuda e joga conta da Guerra da Ucrânia para a Europa
Por Igor Gielow/Folhapress em 13/02/2026 às 17:31
Durante a campanha eleitoral de 2024, Donald Trump disse ao aliado Viktor Orbán que “não daria um centavo à Ucrânia” se eleito. “É assim que a guerra acabará”, completou o premiê húngaro. Ao fim, o republicano voltou à Casa Branca e zerou a ajuda americana a Kiev, mas o conflito permanece onde estava.
A conta da guerra que completará quatro anos no próximo dia 24 foi passada, como Trump sempre prometeu fazer, aos aliados europeus de Volodimir Zelenski. Com efeito, se o apoio americano caiu 99% em 2025 na comparação com 2024, o europeu subiu quase 70%.
Os dados são do balanço mais recente do referencial Instituto Kiel (Alemanha), que reúne dados públicos sobre 42 países doadores desde a invasão em 2022 até 31 de dezembro de 2025.
No período, cerca de EUR 2 trilhões (R$ 12,3 trilhões) chegaram do exterior em ajuda aos ucranianos, valor equivalente ao PIB estimado do Brasil em 2025. Desse montante, só 2,5% vieram de países que não fossem os EUA ou nações europeias. Os números estão deflacionados.
No ano passado, foram EUR 72,8 bilhões (R$ 447 bilhões) alocados em ajuda financeira, militar e humanitária por países do continente, incluindo quem não está na União Europeia, como o Reino Unido. Os americanos desembolsaram apenas EUR 480 milhões (R$ 2,9 bilhões) residuais do governo Joe Biden no começo de 2025.
A questão do apoio em armamentos é crucial. Nas últimas semanas, o governo em Kiev disse que precisa de mísseis de interceptação para sistemas Patriot e Iris-T com urgência, pois seus estoques acabaram em meio à intensa campanha aérea russa.
Como boa parte dos armamentos enviados a Kiev é de origem americana, Trump conseguiu inclusive tirar proveito da nova situação, que reflete sua disposição expressa em discursos e na nova Estratégia de Segurança Nacional de deixar a defesa europeia a cargo dos países da região.
Em julho, ele criou um esquema chamado Purl (sigla inglesa para Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia) com a aliança Otan, da qual 30 dos 32 membros são europeus. Por meio dela, países do grupo compram armas de estoques americanos e as repassam para Kiev.
Até dezembro, a iniciativa reuniu 24 países, mas os valores são baixos: EUR 3,7 bilhões (R$ 22,7 bilhões) foram repassados aos EUA, a maior parte para comprar munição antiaérea. Naquele mês, 75% dos interceptadores de baterias americanas Patriot e 90% no geral chegaram via Purl.
Segundo o Instituto Kiel, o cenário de redução levou ao menor nível de ajuda militar aos ucranianos em toda a guerra, com 2025 marcando 13% a menos do que a média dos três anos anteriores. O tombo ante 2024, recorde da ajuda, é grande: no apoio total, incluindo financeiro, o volume caiu 18,11%.
Até a chegada de Trump, os EUA rivalizavam com os europeus em termos de ajuda, com destaque absoluto no campo de apoio militar. Mesmo tendo interrompido o fluxo de armas doadas, Washington ainda lidera o ranking de maior apoiador bélico de Kiev, com EUR 64,6 bilhões (R$ 397 bilhões) enviados.
Em segundo lugar vem a Alemanha, com distantes EUR 20 bilhões (R$ 123 bilhões), seguida por Reino Unido e Dinamarca –o pequeno reino nórdico, dono da Groenlândia cobiçada pelo mesmo Trump, doou EUR 9,9 bilhões (R$ 60,7 bilhões) em armamentos.
Com isso, os dinamarqueses também ultrapassaram os vizinhos temerosos das intenções russas no Báltico como donos da maior ajuda proporcional ao PIB do país: 3,9%, ante 3,6% da segunda colocada, a minúscula Estônia. Lituânia (2,9%), Letônia (2,5%) e a mais recente integrante da Otan, a Suécia (2,2%), completam o top 5.
O esquema Purl e o novo empréstimo de EUR 90 bilhões (R$ 552,6 bilhões) aprovado pela União Europeia em dezembro, mas que não teve ainda nenhum desembolso, vão gerar “um apoio mais distribuído no bloco, em linha com o PIB de cada país”, afirmou o chefe da pesquisa Monitor de Apoio à Ucrânia do Kiel, Christoph Trebesch.
Ele alerta, contudo, que “esse padrão só é observável na ajuda financeira, enquanto a militar ainda depende de doações bilaterais de Estados-membros, e nós vemos bem menos divisão de tarefas nela”.
Seja como for, a Ucrânia não tem como se defender sem a ajuda exterior. O orçamento em 2025 apenas para a compra de armamentos era de EUR 15,7 bilhões (R$ 96,4 bilhões), insuficiente ante a crescente pressão militar russa.
Assim, é incerto o futuro da defesa do país, que em tese poderá usar o empréstimo europeu para essa finalidade também. São altamente duvidosos os anúncios de compras futuras de até 150 caças suecos Gripen E, iguais aos usados no Brasil, e 100 modelos franceses Rafale, armas caríssimas.
Por ora, a destruída Força Aérea de Kiev está sendo mantida com doações até aqui de cerca de 40 caças americanos F-16 usados de quatro países europeus, dos quais talvez 10% já tenham sido derrubados. Há também um número reduzido de franceses Mirage-2000, ao menos um dos quais foi abatido.
Segundo o instituto, foram doados a Kiev até agora 894 tanques. Antes da guerra, os ucranianos operavam 987 desses blindados, e o site de monitoramento de perdas Oryx contou 1.386 perdas, quantificando assim a escala da ajuda do Ocidente.