18/09/2023

Série dos Lakers acaba sem fim com bom olhar para os egos feridos

Por Pedro Strazza/FolhaPress em 18/09/2023 às 18:14

Reprodução/Redes Socias
Reprodução/Redes Socias

O fim de “Lakers: Hora de Vencer” foi doloroso. A série terminou de forma abrupta no domingo (17), cancelada pela sua emissora, a HBO, logo depois da exibição do último episódio da segunda temporada.

Criador e produtor do programa, Max Borenstein escreveu nas redes sociais que aquele não era o final planejado para a trama.

A declaração do showrunner é compreensível perante o desfecho irônico do seriado. A história acabou na famosa derrota do Los Angeles Lakers para os seus principais rivais, o Boston Celtics, nas finais da NBA de 1984. Apesar das circunstâncias, a decisão foi interessante -ainda mais em vista do que veio a seguir.

Para evitar um fim tão melancólico, a produção inseriu mais duas cenas, preparadas para o caso do cancelamento. A primeira, simples, mostra o dono do time, Jerry Buss, prometendo o time à filha Jeanie como herança.

A segunda, hilária, é uma montagem ao som de Pat Benatar mostrando os finais felizes de todos personagens humilhados na quadra.

O desfecho improvisado soou corporativo ao destacar o sucesso do Lakers, com ares de ridículo graças ao teor das cartelas da montagem. Ao informar sobre o diagnóstico de Aids de Magic Johnson, por exemplo, a série destaca que seu rival, Larry Bird, foi o primeiro a ligar para o colega.

O desfecho original da temporada, por sua vez, é a prova máxima dos méritos do segundo ano. A imagem de Johnson debaixo do chuveiro, sentado e cabisbaixo, foi o estranho fim adequado para uma série que, impossibilitada de construir um painel histórico completo, diagnosticou bem a lógica interna do esporte.

Uma baita ironia porque “Hora de Vencer” teve uma última temporada dedicada à derrota. Além de 1984, a série retomou a história no campeonato de 1980 e 1981, quando o Lakers foi eliminado de forma prematura, vexatória e em crise.

Com isso, o programa abraçou um escopo mais amplo para entender como a rivalidade do time com o Celtics definiu a década no basquete americano. Foi uma decisão arriscada, em especial comparada à ergonomia do primeiro ano, que acompanhava apenas uma edição da NBA, e pelo número reduzido de episódios, de dez para sete.

Nos piores momentos, a segunda temporada de “Hora de Vencer” fez jus às críticas de que seria um verbete da Wikipédia dramatizado. O penúltimo episódio corre tanto para chegar na final do campeonato que abrevia o drama do incêndio da casa de Kareem Abdul-Jabbar, líder do time dos Lakers.

A situação beira o alucinógeno, sobretudo por ser um evento que acontece no começo daquele torneio.
Mas o ritmo frenético serviu para Borenstein e os roteiristas explorarem melhor o que torna o esporte tão atraente ao público. Se a primeira temporada se obrigava a explicar o renascimento do time nos anos 1980, a segunda trabalha o lado emocional que moveu a liga naqueles anos.

No entendimento do programa, tudo mora no ego ferido -e masculino, o que sacrificou mulheres importantes na história, como Jeanie Buss e Claire Rothman.

Assim, os novos episódios deram amplo espaço para a pequenice de espírito, elevando figuras históricas a personagens fascinantes. A temporada se moveu na base da emasculação, em especial do lado dos técnicos do Lakers daquele momento, Paul Westhead e Pat Riley, vividos com esmero por Jason Segel e Adrien Brody.

A transição no comando foi a parte mais atraente do segundo ano. Segel teve amplo espaço para construir o isolamento e a queda de Westhead, demitido por sua insegurança e teimosia excêntricas. Já Brody contornou o tempo curto dado pela série para fabricar a ascensão de Riley -a maior liderança da história do time- na chave da personalidade impulsiva.

Os dois personagens também são criados nos entornos da figura midiática de Johnson, que se torna o centro do Lakers ao assinar um acordo milionário de 25 anos com a franquia.

O time, assim, é remodelado à figura de seu dono, Jerry Buss, que por acaso vê mais um casamento naufragar no período.

Daí que a decisão de fundamentar a temporada -e o fim- nas derrotas faz tanto sentido. Com tempo de vida abreviado, “Hora de Vencer” foi preciso ao olhar a influência da cultura dos Lakers no esporte como uma questão de temor dentro dos vícios. Nesse sentido, o terror de perder move muito mais um jogador que o prazer da vitória.

Lakers: Hora de vencer

Avalição: Bom

Onde: Disponível na HBO Max

Classificação: 16 anos

Elenco: John C. Reilly, Quincy Isaiah e Adrien Brody

Produção: EUA, 2023

Criação: Max Borenstein e Jim Hecht

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