São Paulo endurece regras internas após caso de camarote e saída de Casares
Por Valentin Furlan/ Folhapress em 10/02/2026 às 16:30
O São Paulo começa nesta terça-feira uma reestruturação no departamento de Compliance, em meio à atual crise institucional do clube. O UOL apurou que não haverá troca de profissionais no setor. A ideia é retomar e implementar medidas internas que antes não avançaram por falta de apoio. São Paulo quer evitar novos problemas após escândalo.
Na prática, o trabalho será voltado à criação de regras claras de conduta, com mais controles internos e mecanismos de segurança para evitar novos problemas administrativos. O foco é padronizar procedimentos e reduzir riscos de desvios.
Entre as ações previstas estão normatizações sobre temas do dia a dia do clube, como a cessão de espaços (caso de camarotes), o uso de carros corporativos e outros processos administrativos.
O trabalho será interno, com os colaboradores do São Paulo, mas também deve alcançar parceiros externos, como patrocinadores, empresas de mercado e a imprensa. A avaliação interna é de que esse processo deveria ter começado antes, mas será colocado em prática a partir de agora para evitar casos semelhantes no futuro.
O caso veio à tona após a divulgação de um áudio, revelado pelo ge, em que Douglas Schwartzmann, diretor adjunto da base, conversa com Mara Casares -ex-esposa do presidente Julio Casares e então diretora feminina, cultural e de eventos do clube- sobre a comercialização de ingressos de um camarote para o show da cantora Shakira, realizado em fevereiro. Ambos estão afastados de suas funções.
No conteúdo do áudio, Schwartzmann reconhece que a operação teria ocorrido de forma clandestina, afirma que Márcio Carlomagno -superintendente geral do clube no CT da Barra Funda, considerado internamente o “braço direito” de Julio Casares e nome forte da situação política para a eleição presidencial de 2026 -tinha conhecimento dos fatos e demonstra preocupação com possíveis punições e desgastes políticos dentro do clube.
O camarote envolvido é o 3A, localizado no setor leste do estádio e registrado nos sistemas internos como “sala da presidência”. De acordo com as apurações, Mara Casares teria recebido de Carlomagno o direito de uso do espaço e repassado o camarote para exploração comercial no show. A venda dos ingressos ficou sob responsabilidade de Rita de Cássia Adriana Prado, que teria arrecadado cerca de R$ 132 mil, com entradas comercializadas por valores de até R$ 2.100.
A situação avançou para a esfera judicial depois que Rita de Cássia acionou uma empresa parceira, alegando apropriação indevida de ingressos sem o devido pagamento. Com o registro de Boletim de Ocorrência e a abertura de processo, Douglas Schwartzmann e Mara Casares teriam passado a pressioná-la para retirar a ação.
Toda turbulência política culminou no início do processo de impeachment de Julio Casares, que pediu renúncia da cadeira de presidente do clube no mês passado. A gestão de Julio Casares e o próprio presidente são alvo de outras denúncias. A Polícia Civil conduz, ao lado de uma força tarefa do Ministério Público de São Paulo, um inquérito criminal que apura possíveis desvios de dinheiro do clube por dirigentes.
Outro braço do MP-SP também abriu, separadamente, um inquérito civil, para apurar responsabilidades financeiras e possíveis indenizações por danos eventualmente causados ao clube.
Dentre os fatos investigados criminalmente estão: recebimento, por Julio Casares, de R$ 1,5 milhão em dinheiro, em depósitos fracionados; o saque de R$ 11 milhões em dinheiro do caixa do clube; aumento patrimonial repentino de dirigentes e o escândalo de venda de camarotes clandestinos envolvendo a ex-mulher de Casares, Mara Casares, e o diretor adjunto da base Douglas Schwartzmann.
O inquérito civil também trata dos supostos desvios, mas apura outras frentes, como acusações de gestão temerária, a prescrição de canetas emagrecedoras para atletas e o modelo de negócio do fundo de investimentos da parceira Galapágos Capital em Cotia. O MP emitiu ofício para ouvir mais de 25 pessoas dentro e fora do clube, incluindo o ex-superintendente-geral Marcio Carlomagno e o ex-coordenador técnico Muricy Ramalho.