02/05/2026

Não quero que tenham dó, diz MC Leozinho ZS, primeiro deficiente visual a liderar o Spotify Brasil

Por Ana Clara Cottecco/Folhapress em 02/05/2026 às 16:04

Reprodução/Spotify
Reprodução/Spotify

Da periferia de São Paulo ao topo do Spotify Brasil, MC Leozinho ZS trilhou um longo caminho. Aos 26 anos, ele emplacou um dos hits do ano a canção “Famoso Imã” e se tornou o primeiro artista com deficiência visual a liderar a principal parada do streaming de música no país.

“Qualquer limitação que for imposta para nós não significa nada”, diz o funkeiro à reportagem. “O que importa de verdade é a nossa arte.”

Por trás do top 1, há uma trajetória que começa longe dos números. Alex Oliveira Santos, o nome por trás do vulgo, nasceu em Itabuna (BA) e chegou ainda criança ao Capão Redondo (distrito periférico da zona sul da capital paulista). Foi lá que o funk entrou em seu radar ainda na infância, por meio dos CDs que ganhava.

A decisão de seguir na música veio cedo. Segundo ele, por volta dos 12 anos resolveu virar músico e já pedia espaço para cantar em alguns bailes. Mas foi só em 2020 que ele passou a conseguir se sustentar apenas com o funk.

O nome artístico também veio antes da carreira dar certo. Leozinho diz que a avó dizia que ele seria cantor, assim como o sertanejo Leonardo. O apelido ficou.

Na época, o cantor já era deficiente visual -embora não tenha nascido com essa condição, ele não se lembra de como era a vida antes. Aos oito meses, um quadro de meningite levou à cegueira mesmo após duas cirurgias para tentar reverter o quadro. “Pra mim, é como se eu tivesse nascido assim”, afirma.

Mas ele não tem tempo para lamentação ou autopiedade. Prefere falar de trabalho. “Eu não quero que ninguém tenha dó de mim”, comenta. Ao mesmo tempo, reconhece as dificuldades e preconceitos decorrentes da deficiência. “Eu sabia que precisava ser duas vezes melhor do que um MC que enxerga.”

O reconhecimento se consolidou com “Famoso Imã”, lançada no fim de fevereiro com Lele JP, Poze do Rodo e produção de DJ Gordinho da VF. O refrão -justamente a parte cantada por ele cresceu e dominou as plataformas, principalmente o TikTok.

Leozinho nega que a criação da música partiu de uma estratégia de viralização. Ele afirma que a intenção era fazer uma música que funcionasse em festas, no fone de ouvido e nas redes sociais. “Se a música for boa, ela vai ser top 1 de todas as plataformas”, diz.

Após emplacar o maior hit da carreira, ele prepara um álbum e mantém a rotina de gravações, mas diz que mantém os pés no chão. “Sou músico. Vou fazer música no top 1, no top 100, com ninguém me ouvindo ou com muita gente escutando”, conta.

Mas o resultado ultrapassou o hit. A liderança no Spotify Brasil reposiciona o nome o artista dentro e fora do funk. Ele fala em abrir espaço para quem vem depois. “Eu quero que tenha várias pessoas deficientes cantando, vários cegos chegando no top 1, não só eu. Quero que entendam que se você trabalhar, você vai chegar longe.”

“Acho muito importante abrir essas portas para pessoas, que como eu, tem deficiência”, afirma. “Quero fazer elas entenderem que não é um bicho de sete cabeças, que é possível se a gente trabalhar da forma correta e chegar onde a gente quiser, no top 1, no top 10, na Billboard, no Grammy. Não é sobre deficiência, é sobre o cantar, sobre a forma que você trabalha, tá ligado?”

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