Especial Setembro Amarelo: doenças mentais e dependência química são as maiores causas de suicídios
Por Noelle Neves/Colaboradora em 30/09/2017 às 18:00
SETEMBRO AMARELO – Você já falou mal da roupa de alguém? Do cabelo de alguém? Fez uma fofoca? Excluiu alguém do Facebook ou do WhatsApp? Mas você já parou para pensar que o menor dos seus atos pode ter um peso enorme para quem está do outro lado? A depressão, principalmente em graves e gravíssimos casos, está muito ligada ao suicídio. E provocações, xingamentos e humilhações são agravantes. Veja na última reportagem da série especial do #Santaportal sobre o Setembro Amarelo.
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Na adolescência, essas situações são bastante comuns. Talvez seja por isso que a taxa de suicídio é maior em pessoas com menos de 29 anos. A estudante de marketing e publicidade, Isabella Handel, de 20 anos, tentou suicídio assim que mudou de país – ela foi morar em Portugal. O fato de não ter criado laços de amizade e ter saído de um relacionamento amoroso que terminou mal foram gatilhos para sua depressão e transtorno de ansiedade darem a ela ideias suicidas. “Eu sentia que a dor não tinha fim, que tomava conta do meu corpo e que o único jeito de realmente acabar com essa dor era o suicídio. Além disso, eu sentia que as pessoas não se importavam comigo, e que só iriam depois que eu morresse”, explicou.
A estudante tem muitos seguidores nas redes sociais e, em seu canal no Youtube , ela revelou que as pessoas a julgavam pela sua tentativa, ao invés de tentar ajudá-la.
Para a professora e jornalista Paula Denari, o assunto chegou a sua vida de outra forma. O pai, sempre carinhoso, entrou em um quadro de depressão profunda ao perder o emprego. Depois de uma tentativa de suicídio mal sucedida e um divórcio, a saúde psicológica do homem piorou. Não muito tempo depois,Paula recebia a ligação de que o pai estava morto. “Eu andava na rua e sentia que eu tinha uma plaquinha escrita ‘filha de um suicida’, eu tinha um rótulo sobre isso”, lembrou a jornalista.
Segundo o psiquiatra Miguel Rezende, acontecem 32 suicídios no Brasil por dia, sendo que 98,6% deles estão ligados a outra doença mental. ”Grande parte deles é por conta de transtorno depressivo, mas outros transtornos psicóticos como esquizofrenia ou transtorno bipolar também podem levar a isso”, destacou.
O psicológo Javert Junior comenta que drogas, alcoolismo, desemprego, separação e falta de vínculos também são motivações frequentes para a tentativa de suicídio. Idosos que se sintam um estorvo e que acreditam estar atrapalhando a dinâmica familiar tem muitas chances de atentar contra a vida.
Sinais
Recentemente, um vídeo de Chester Bennington, ex-vocalista da Linkin Park, 36 horas antes do suicídio circulou na internet. Muitas pessoas estranharam o comportamento do músico, devido a alegria dele em uma atividade com sua família. Mas quando o depressivo está alegre demais ou mostra uma melhora súbita, é quando ele tomou a decisão de que realmente irá se suicidar, que tem uma data para isso. “É o sinal que mais preocupa”, comentou Rezende.
Os sintomas mais comuns são: perda dos prazeres mais básicos da vida, como se alimentar e fazer higiene pessoal; a pessoa se entrega e se fecha; rompe laços pessoais; não quer mais sair de casa e opta por ambientes escuros e fechados.
“O cérebro fica praticamente 24 horas parado, já que a pessoa não está em contato com outras situações, além de remoer os próprios problemas. É um corpo parado com um cérebro acelerado. As ideias de ruína ficam tão fortes que o paciente começa a planejar o ato”, detalhou o psiquiatra.
As conversas começam a ter caráter de despedida e, frequentemente, a pessoa fala desse desejo de se matar.
Miguel Rezende destaca que quando a pessoa apresenta qualquer um desses sinais, a família ou os amigos têm a obrigação de levá-la para o tratamento. “Pacientes deprimidos perdem a iniciativa. Se perde a iniciativa, não pede ajuda. É questão de salvar uma vida. Não tem discussão ou diálogo”, completou.
O suicida normalmente elabora o ato. Ele escolhe datas, locais, passa imóveis para nome de familiares, escreve cartas. Mas 1,5% de suicidas são de impulso é aquele que pensa e executa, não elabora. Normalmente é quando acontece algo muito grave em um curto espaço de tempo.
Suicídio histérico
“Ela só quer chamar atenção”. Quantas vezes você já ouviu isso? Javert reforça é preciso valorizar o que as pessoas falam, porque quem quer “chamar atenção”, também pode tirar a própria vida.
O suicídio histérico tem como objetivo chamar atenção para si mesmo. “É aquela pessoa que senta na janela e fica três horas esperando e olhando o movimento para dar tempo dos bombeiros chegarem e salvá-la”, exemplifica Rezende. Quando acontece a morte, é por acidente, porque, segundo o psiquiatra, a pessoa não quer tentar de fato.
A grande diferença de suicida e suicida histérico é a postura. “O histérico é muito teatral, não existe um fundo depressivo grave. Isso não quer dizer que não precise de tratamento, já que ninguém em sã consciência faria algo desse tipo”, afirmou Miguel Rezende.
Tratamento
A abordagem no primeiro momento é medicamentosa. Enquanto o antidepressivo não faz efeito, a observação deve ser rigorosa. Rezende conta que os antidepressivos demoram entre 7 a 10 dias para fazerem efeito. Em pacientes internados, de 5 a 8 dias. E a resposta é obtida de 15 a 21 dias.
Um tempo depois, o tratamento psicoterápico é introduzido, onde é feita a busca pela origem do problema. “É uma intervenção verbal. Muitas vezes é uma restrição cognitiva emocional quanto a algum problema. A pessoa não enxerga saída. Ela não quer se suicidar de fato, apenas se livrar do problema”, disse Javert.
“Como eu me machuquei muito, fiquei internada. Fiz 6 meses de psicoterapia e indo em consultas na psiquiatra. Eu ainda tenho recaídas. Voltei ao tratamento, porque meu cachorro morreu. Isso foi um gatilho. Não tomo mais os mesmos remédios, mas ainda tomo”, desabafou Isabella. No caso da estudante, o tratamento foi essencial, porque suicídio não é mais uma opção.
Sendo acompanhada de uma forma consistente, mantendo a medicação e a terapia, a chance de ter outra tentativa reduz bastante. ”A partir da segunda tentativa, o índice letal vai para quase 80%. A partir da terceira, praticamente 100%”, explicou o psiquiatra.
Uma polêmica envolve o tratamento: a eletroconvulsoterapia, o eletrochoque. A chance de reversão é muito mais rápida do quadro.”É importante ressaltar que é diferente da feita nos anos 70 e 80. Hoje, a abordagem é diferente. É feito em centro cirúrgico, com anestesia e o risco de vida é muito pequeno”, contou Rezende.
Religião
Já foi provado cientificamente que ter uma religião ou apenas fé em algo pode, tanto evitar o suicídio, como ajudar na recuperação. Javert conta que existem pessoas que não se matam, porque acreditam em Deus: “Uns crêem que vão para o Vale dos Suicidas, outros acham que é pecado”, comentou.
Em questão de tratamento, Miguel Rezende é categórico: “Religião ajuda, mas é preciso continuar com medicamentos e terapia”.
Paula é um exemplo de que a fé ajuda a confortar em um momento de perda. “As pessoas iam ao velório e diziam que meu pai ia sofrer muito, porque ‘o que ele fez não tem perdão’. Por mais que no final da vida ele tenha sido um pai complicado, eu tinha a imagem dele indo me buscar na balada, do amigo e pai carinhoso. Isso ficou. O que me acalmou quando um padre me disse que Deus é pai e Deus ama, que não iria fazer meu pai sofrer por toda a eternidade”, contou.
Isabella, apesar de acreditar em Deus, acredita que, nesse quesito, não teve importância em sua recuperação e sim, o apoio da família.
Família
Quando acontece um caso de tentativa de suicídio ou suicídio no ciclo de amigos ou na família, o recomendado é terapia, mas o apoio da família é fundamental.
No caso de Isabella, os pais se uniram para ela ficar bem. Nunca a deixavam sozinha. “No final, a única coisa que a gente tem é a nossa família”, ressaltou.
A mesma coisa aconteceu em relação a família de Paula. “Nossa relação familiar ficou muito forte. Mas tem coisas que ficam muito na alma. Mas me ensinou que cada um de nós tem suas gavetinhas, que se a gente olhar para o lado tem uma dor profunda na alma. Quando eu era pequena, eu tinha muito medo do futuro, porque minha família era muito perfeita. Eu nunca tinha visto meus pais brigando, eles se respeitavam muito, meu pai era ótimo. A felicidade não é eterna. Vai doer, mas, além de respeitar nossas dores, temos que respeitar a dor do outro. Todos nós temos nossas gavetinhas trancadas e temos que viver além de tudo isso”, declarou a jornalista, emocionada.
Prevenção
“Quando a gente ouve que uma pessoa próxima se matou, nós começamos a pensar nos ‘e se’. ‘E se eu tivesse ligado, e se eu não tivesse mandado aquele email’. Cai responsabilidade em cima de você”, desabafou a professora.
Por esse motivo, um dos “mantras” da campanha é “falar é a melhor opção”. Conforme Javert, falar dá ideia é errada. Ele explica que existem pesquisas que apontam que falar sobre o problema o diminui e incentiva as pessoas a buscarem ajuda. “A gente precisa promover palestras, capacitar profissionais e órgãos públicos,escolher padrões de atendimento. Além disso, é preciso falar nas escolas desde sempre, porque às vezes acontece um caso e a professora não sabe como lidar“, sugeriu.
O pai de Paula tinha depressão e a família pedia para ele procurar tratamento, “mas ele tinha preconceito com psicólogos, achavam que todos eram charlatões” e de acordo com os especialistas, isso acontece, principalmente, pela falta de informação.
A professora lida constantemente com alunos com quadros de depressão e outros problema psicológico. “Quando eu era mais nova, eu não entendia e fazia piadas quanto aos problemas, dizia que eram loucuras, mas quando eu comecei a entender, doeu na minha alma. Então quando uma pessoa chega para mim e fala, eu tento ser o mais acolhedora”, disse a jornalista.
Ela também acredita que a mídia precisa trabalhar o fato com a importância que tem. “Tem que trabalhar sensibilidade, mas trabalhando com a importância que o fato tem. Precisa de mais notícias sobre depressão, sobre problemas da mente, que é o mal da sociedade”, finalizou.