14/01/2015

Em 2002, Santos FC saía da fila de 18 anos sem títulos nos pés de Diego e Robinho

Por Juan Reol/#Santaportal em 14/01/2015 às 21:29

RETROSPECTIVA 18 ANOS – Celebrando os 18 anos do Sistema Santa Cecília de Comunicação, que serão completados no dia 26 de janeiro de 2015, o#Santaportaliniciou, na sexta-feira (9), uma série de 18 textos especiais relembrando fatos que marcaram a região metropolitana da Baixada Santista. O de quarta-feira (14) volta para a temporada de 2002, quando o Santos Futebol Clube-SP, liderado pelos Meninos da Vila Diego e Robinho, conquistou o Campeonato Brasileiro em uma incrível trajetória de superação e alegria. Fato inesquecível para todos os amantes, ou não, de futebol, que contou com a cobertura jornalística daSanta Cecília TV.

O presidente do Santos FC-SP na ocasião era Marcelo Teixeira – pró-reitor administrativo da Universidade Santa Cecília e presidente do Sistema Santa Cecília de Comunicação -, que venceu as eleições de 1999, foi reeleito em 2001, e estava em seu primeiro ano da segunda gestão consecutiva. Ele já havia ocupado o cargo máximo do Alvinegro Praiano entre 1993 e 1994 e seria reeleito até 2009.

Teixeira bateu na trave em dois momentos para tirar o Santos FC-SP da fila de títulos de expressão, que já durava 18 anos. O último era o Campeonato Paulista de 1984, com time que contava com o atacante Serginho Chulapa. Nesse intervalo o Peixe venceu o Torneio Rio-São Paulo de 1997 e a Copa Conmebol de 1998, mas nada que tirasse o gosto amargo da boca do torcedor santista acostumado aos tempos de glória com Pelé, Coutinho, Zito, Pepe, entre outros.

Em 2000, com uma equipe recheada de medalhões como Carlos Germano, Rincón, Márcio Santos e Caio, o Santos FC-SP bateu na trave para sair da fila. Classificado para a final para enfrentar o São Paulo-SP, perdeu o primeiro jogo por 1 a 0 e empatou o segundo em 2 a 2 e amargou o vice-campeonato. Em 2001, nova tentativa frustrada. Também no estadual, o Peixe pegou o Corinthians-SP na semifinal. O Botafogo-SP, já classificado para a final, aguardava seu desafiante. O Alvinegro Praiano, com a vantagem do empate até os últimos minutos do confronto da volta, foi desclassificado com gol de Ricardinho aos 47, já na prorrogação.

Marcelo Teixeira não se deixou abater com as chances perdidas em 2000 e 2001, mas mudou sua filosofia de trabalho para 2002. Após a desclassificação tanto do Torneio Rio-São Paulo quanto da Copa do Brasil, o presidente demitiu Celso Roth e trouxe Emerson Leão, que tinha a missão de aproveitar revelações da base que já encantavam, mas ainda não haviam confirmado seu papel no time profissional.

Com quatro meses de preparação, justamente o tempo em que o clube ficou sem jogar oficialmente após as desclassificações no início da temporada – contando também com a parada devido à Copa do Mundo Fifa 2002 Japão-Coreia do Sul -, Leão lapidou Diego e Robinho. E fez ainda melhor ao resgatar a moral e o bom futebol de Fábio Costa, André Luís, Léo, Paulo Almeida, Renato e Elano, que estavam sendo perseguidos pela torcida após os fracassos de 2000 e 2001.

Emerson Leão, que chegou ao Santos FC-SP exigindo contratações “de peso” para não cair para a segunda divisão, após entrosar Diego e Robinho, pediu apenas reforços pontuais. E assim completaram o elenco inesquecível de 2002 o zagueiro Alex, o lateral-direito Maurinho e o atacante Alberto. Para terror de Marcelo Teixeira e Zito, então gerente de futebol, o técnico santista fez apenas um pedido antes do início do Brasileirão: um amistoso de peso contra o Corinthians-SP, recém campeão do Torneio Rio-São Paulo e com Carlos Alberto Parreira como comandante. O resultado de 3 a 1, com gols de André Luís, William e Renato, deu a certeza de que o jovem time do Peixe faria muito mais do que “só” escapar da segunda divisão.

Em 2002 o Campeonato Brasileiro foi disputado por 26 clubes e em duas fases. Na primeira, todos jogaram contra todos, em turno único. Os oito primeiros se classificavam para a fase final, com mata-mata a partir das quartas de final. Logo na estreia, o Peixe venceu o Botafogo-RJ por 2 a 1, com Diego e Robinho mostrando, oficialmente, todo seu potencial.

E jogo a jogo ao longo do primeiro turno do Brasileirão 2002 o Santos FC-SP foi demonstrando um futebol alegre, com agilidade, rapidez e excelente troca de passes. O Peixe sempre se mantendo entre os oito classificados, enchendo os torcedores de esperança. Em 3 de outubro, uma partida para a história. Vitória santista por 4 a 2 sobre o arquirrival Corinthians-SP, que mandava a partida no Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu), em São Paulo (SP). Elano e Alberto foram às redes duas vezes. Um dos tentos do camisa 9, um golaço de bicicleta, foi eleito, após o título, o mais bonito da competição.

Faltando três rodadas para o fim do primeiro turno, o Santos FC-SP bateu o Guarani-SP por 2 a 0 e ficou confortável entre os oito classificados. Mas nada seria tão fácil naquela temporada. A jovem equipe, que brilhava na competição, perdeu para a Ponte Preta-SP, em casa, por 3 a 1, e São Caetano-SP, fora, por 3 a 2. Os resultados poderiam tirar o Peixe do mata-mata e encerrar o sonho dessa jovem geração de entrar para a história. Não há um santista que não se lembre da imagem do meia Elano, aos prantos, saindo de campo do Estádio Anacleto Campanella, em São Caetano do Sul (SP), após o revés para o Azulão.

Mas 2002 era mesmo o ano “mágico” do Santos FC-SP e, com ajuda do já rebaixado Gama-DF, que goleou o Coritiba-PR, o Peixe não perdeu a oitava posição na tabela e assim carimbou sua classificação para as quartas de final. A euforia logo se transformou em preocupação no momento que torcedores e dirigentes – não os atletas – se lembraram do regulamento, que previa o 1º enfrentando o 8º, o 2º contra o 7º, e assim por diante. Desta forma, no caminho do Alvinegro Praiano estava o temido São Paulo-SP, que liderou o turno com sobras para as demais equipes.

A partir de 24 de novembro, no Estádio Urbano Caldeira (Vila Belmiro), o Santos FC-SP deixaria claro que, de uma equipe formada por jovens sem experiência e atletas desgastados, que entraria no Brasileirão apenas para não cair, se transformaria no principal candidato ao título. O então poderoso São Paulo-SP, que havia vencido o Peixe no 1º turno por 3 a 2, não viu a cor da bola, mesmo reforçado por Rogério Ceni, Kaká, Ricardinho e Luís Fabiano, e perdeu a partida de ida por 3 a 1, com gols de Alberto, Robinho e Diego.

Vale lembrar que o goleiro Fábio Costa, que se lesionou na terceira rodada do Brasileirão e passou todo o 1º turno se recuperando, voltou a ser escalado justamente para a fase final. Júlio Sérgio fechou o gol enquanto isso e, faltando apenas quatro rodadas, também se machucou. Leão então escalou o terceiro guarda-metas, Rafael, que em quatro jogos, sofreu seis gols, números que motivaram o técnico a colocar, mesmo que fora de ritmo, a Muralha da Vila de volta ao time titular.

Voltando às quartas de final. O Peixe poderia até perder para o São Paulo-SP no confronto da volta, mas não se intimidou e foi para cima. Com gols de Léo e Diego, voltou a vencer, eliminando precocemente o até então “melhor time da competição”. O jogo marcou também a “sambadinha” do camisa 10 santista sobre o escudo do Tricolor após deixar Rogério Ceni de joelhos,antes de concluir para o gol. O camisa 1 são-paulino nunca escondeu sua raiva com os Meninos da Vila a partir da dupla derrota.

Embalados com as vitórias convincentes sobre o São Paulo-SP, Diego, Robinho e companhia não se preocuparam com o Grêmio-RS, adversário das semifinais. Com uma vitória na Vila Belmiro por 3 a 0 – gols de Alberto (2x) e Robinho – e uma derrota por 1 a 0 no Sul, o Santos FC-SP se classificou para a tão sonhada – e ao mesmo tempo inusitada – final. E mais uma vez com o rival Corinthians-SP no caminho.

Ficou decidido entre clubes e Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que as duas partidas da grande final seriam disputadas no Estádio Cícero Pompeu de Toledo, em São Paulo (SP), com 50% do Morumbi para cada uma das torcidas em cada confronto. No dia 8 de dezembro, Santos FC-SP e Corinthians-SP fizeram os primeiros 90 minutos da decisão que jamais seria esquecida.

Em uma partida magistral, o meia Diego comandou o Santos-SP em um partidaço contra o Timão que, além do técnico Carlos Alberto Parreira, contava com elenco recheado de craques como Fábio Luciano, Rogério, Kléber, Vampeta, Deivid, Guilherme e Gil. Embora não tenha anotado nenhum gol, o camisa 10 infernizou a defesa e fez as assistências para Alberto e Renato. 2 a 0 para o Peixe e a vantagem de perder por até um gol na grande decisão.

No dia 15 de dezembro de 2002, um dos momentos inesquecíveis foram as centenas de ônibus enfileirados na subida da rodovia Imigrantes, todos lotados de torcedores santistas que se dirigiam ao Morumbi. Além disso, para os que permaneceram na Baixada Santista, um clima de festa, com o branco e preto do Alvinegro mais famoso do mundo “pintando” janelas, pessoas, animais, carros etc.

Dentro do estádio, as bandeiras santistas permaneciam de cabeça para baixo. Cansados da fila de 18 anos, os adeptos estavam desde o começo da temporada, em sinal de protesto, com seus estandartes invertidos. Fato que, nos minutos finais do jogo, deu mais significado à tarde simbólica e inesquecível.

O meia Diego, que havia brilhado no primeiro confronto, passou a semana como dúvida. Escalado titular, desabou no campo logo nos primeiros minutos. Em seu lugar entrou Robert, meia que havia participado da tragédia de 1995, quando o Peixe, após erros do árbitro Márcio Rezende de Freitas, perdeu a final do Campeonato Brasileiro para o Botafogo-RJ. Momentos de tensão para o torcedor santista.

E nos minutos seguintes o que se viu em campo, no Morumbi, foi a transformação de simples jogadores em heróis eternos. Robinho, com oito pedaladas para cima do experiente lateral-direito Rogério, levou o torcedor às nuvens. E, de quebra, a linda jogada ainda rendeu um pênalti. O até então menino virou um veterano tarimbado. Ele “meteu a bola embaixo do braço” e partiu para a marca do pênalti. Gol do Santos FC-SP e agora vantagem de uma derrota por até dois gols de diferença.

Mas o Santos FC-SP não vencera aquele fatídico Brasileirão contra um time qualquer, contra uma equipe qualquer. O Corinthians-SP vinha arrasador no ano, atrás do seu terceiro título. Detentor do Torneio Rio-São Paulo e Copa do Brasil na temporada, o Timão foi para cima do Peixe, encurralando os Meninos da Vila. E, se no fim daquela partida o Rei das Pedaladas recebeu nota 10 por sua atuação, jogando na frente, o Fábio Costa não deixou por menos, se transformando definitivamente na Muralha da Vila com a melhor atuação de um goleiro na história do Campeonato Brasileiro. Nota máxima para ele também.

Vieram bolas de todos os jeitos em direção ao camisa 1 do Peixe. De cabeça, cobrança de escanteio, de falta, chute por cima, rasteiro, à queima roupa. E Fábio Costa, que há poucos dias vinha de meses parado e com apenas cinco jogos para pegar ritmo, protagonizava milagre atrás de milagre.

O torcedor santista, incrédulo com tudo que acontecia, voltou aos seus piores dias quando, no segundo tempo, viu Deivid e Anderson virarem a partida para 2 a 1. Com mais um gol o Timão sairia do Morumbi tetracampeão Brasileiro e, o Santos FC-SP, mais uma vez veria escapar entre “seus dedos” outro título.

Quando Fábio Costa parou de brilhar atrás, Robinho assumiu de vez a responsabilidade em campo. Primeiro, pela esquerda, avançou com velocidade, deixou Fábio Luciano no chão e encontrou Elano entrando na pequena área, que completou sem chances para Doni. Gol do Santos FC-SP para delírio de uma torcida que estava há 18 anos sem vencer um título de expressão. Emerson Leão, então expulso de campo e assistindo ao jogo desde o túnel, estava eufórico. Um banho de água fria nos corintianos, protagonistas de um dos momentos mais incríveis da história do arquirrival. E as faixas no Morumbi começavam a ser desviradas sob o canto vitorioso do alvinegro praiano.

Mas não parou por aí, Robinho tinha mais para mostrar. Desta vez pela esquerda, ele avançou para a linha de fundo, com Vampeta e Rogério marcando em cima. Em uma movimentação de craque ele deixou os dois sozinhos e cortou para o meio. Léo apareceu na jogada, recebeu e avançou para a entrada da área. E não perdoou. 3 a 2 e, enquanto o lateral-esquerdo corria para comemorar o tento da vitória e do título, o árbitro Carlos Eugênio Simon apitava o fim de jogo, o fim de uma saga. Santos Futebol Clube-SP era campeão do Campeonato Brasileiro de 2002.

O presidente Marcelo Teixeira, enfim, tirava o Santos FC-SP da fila de títulos de expressão. E ainda melhor, repetia seu pai, Milton Teixeira, então mandatário do Peixe campeão Paulista em 1984. O Brasileirão de 2002, além da própria conquista, serviu para colocar o Alvinegro Praiano de volta na rota das vitórias, da elite do futebol brasileiro e mundial. Iniciava naquele 15 de dezembro uma nova era para o clube. E Diego e Robinho entraram, definitivamente, para a história do futebol mundial.

A trajetória do Santos FC-SP em 2002 foi tão marcante que rendeu um livro, lançado em 2014. O jornalista Paulo Rogério, em2002 – De Meninos a Heróis, narra, com riqueza de detalhes e entrevistas exclusivas com as principais personagens da conquista, todos os bastidores de um dos maiores momentos da história do Alvinegro Praiano.

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