Dia dos Namorados: viúvo de Gilze relembra 39 anos de união: “meu amor eterno”
Por Noelle Neves em 12/06/2021 às 14:49
12 de junho sempre foi um dia alegre para o analista de sistemas José Luís Neto Francisco, de 59 anos. Além de ser seu aniversário, durante 39 anos comemorou o Dia dos Namorado ao lado do amor de sua vida. No entanto, neste ano, a celebração terá menos cor e sabor, pois será a primeira vez em muito tempo que passará sem a esposa, Gilze Francisco.
Gilze morreu aos 60 anos, vítima da covid-19. Ela estava intubada, após contrair a doença pela segunda vez. Sua partida deixou saudade, lembranças e lições para muitos, mas especialmente para José Luís, que lembra todos os dias das inúmeras qualidades da mulher pela qual dedicou a vida.
Como tudo começou
Os dois se conheceram em 1981, em um grupo de jovens da Igreja Santo Antônio do Embaré, em Santos. “Embora não me lembre, a Gilze sempre disse que a nossa história começou antes, já que estudamos juntos no primário e que, inclusive, ela foi o meu par na quadrilha da festa junina. Ela sempre teve uma memória muito boa! Eu brincava dizendo que só deveria lembrar por eu ter pisado no pé dela”, contou José Luís em entrevista ao #Santaportal.
No início do namoro, os dois eram apenas jovens universitários. Ele, cursando Engenharia em Taubaté. Ela, Enfermagem em Guarujá. A distância doía, mas não afetou um segundo sequer o amor e companheirismo. Os encontros eram só nos fins de semanas, quando não estavam em período de prova. Enquanto o corpo de um não podia colar no do outro, o jeito era matar a saudade gastando fichinhas telefônicas nos orelhões.
O casamento foi realizado em 20 de junho de 1987, na Igreja do Santo Antônio do Embaré. Para José Luís, não existiu cerimônia mais abençoada, já que foi celebrada pelos bispo de Petrópolis, Dom José Velloso, o bispo de Santos, Dom Davi Picão, além de Frei Germano e Frei Eugênio. “Uma união feita de reza brava”, definiu.
Distanciamento
No início do casamento, após cinco anos de namoro, também tiveram que lidar com breves períodos de separação, porque trabalhavam em cidades diferentes. Mas nenhum desafio se comparou ao câncer de mama de Gilze em 1999. O diagnóstico pegou o casal de surpresa, contudo, a fé e a esperança de superação deram força tanto na cirurgia, quanto o tratamento de quimioterapia.
Gilze se recuperou e fundou o Instituto Neo Mama, entidade de ajuda ao combate e prevenção do câncer de mama em Santos, onde fez história e marcou seu nome na região pela linda atuação durante 20 anos.
“Uma das coisas mais belas nela era o propósito de ajudar. Ela nos ensinou que todos os dias, presenciamos dois milagres: abrir os olhos e levantar e deitar e dormir. Devemos valorizar e viver cada dia como se fosse o último, com bondade”, destacou.

Luto
O amor da vida de José Luís partiu em 1º de maio. Em julho do ano passado, manifestou sintomas e sofreu com sequelas durante cinco meses, precisando de ajuda de andador e bengala. Em abril deste ano, o casal pegou a doença novamente e mesmo lutando por uma recuperação, não resistiu.
“Ela sempre falava que infelizmente as pessoas só vão se conscientizar do perigo do coronavírus, quando deixar de ser só estatísticas na TV e começar a ter nomes de conhecidos. E eu complemento que quando começar a ter Nome e o Seu Sobrenome, será muito mais ainda desesperador e devastador. Por isso, todo cuidado é muito pouco ainda”, alertou.
José Luís ainda não sabe como será o Dia dos Namorados sem a esposa. Mas tem certeza que, pelo que aprendeu e conviveu com Gilze, estará rodeado pela família. Afinal, é pai, sogro e avô de dois lindos netos.
Seguindo os passos
“Eu estaria mentindo se dissesse que foi um amor à primeira vista. Mas com toda a certeza, posso afirmar que foi um amor à primeira demonstração de bondade e generosidade bem exacerbadas. Bondade e generosidade que ela sempre teve na sua vida inteira. Uma mulher muito especial, não tem como não se encantar e admirar”, afirmou o analista de sistemas.
Para ele, a esposa era perfeita, especialmente por qualidades que muitos sequer desconfiavam. Sua favorita, dentre as inúmeras, era o senso de humor. Gilze era uma ótima imitadora. Sem tirar sarro, reproduzia trejeitos e falas de parentes, amigos e colegas.
“Ela tinha acessos de riso também. Era difícil de cessar. Várias vezes tivemos que interromper conversas, gravações e até palestras para ela se acalmar”, lembrou.
Foram 39 anos de união com uma mulher justa, gentil e muito amada. Após sua partida, sua missão de vida se tornou uma: dar continuidade ao grande legado.
“Terei muito trabalho e responsabilidade para seguir seus passos no Instituto Neo Mama. São duas unidades atendendo gratuitamente, a Unidade de Atendimento à Mulher e Unidade de ONCO Laserterapia que atende homens, mulheres e crianças com todos os tipos de câncer”.
O analista de sistemas tem muitos anos de história com câncer de mama. Quando tinha 11 anos, a mãe foi diagnosticada e precisou realizar mastectomia, sem quimioterapia. Na época, as informações não eram acessíveis para entender novas alternativas. Então, quando os médicos deram seis meses de vida, achou que a perderia logo. Contrariando as expectativas, a mãe sobreviveu e foi no enterro dos profissionais.
“As coisas mudam quando se tem 37 anos, é casado e você precisa lidar com o diagnóstico da esposa. Com minha mãe, ainda era ingênuo. Fui informado de todos os detalhes negativos e assustadores. Mas sempre estive ao seu lado, honrando e respeitando a promessa feita no casamento ‘na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe’”.

Amor eterno
A história de Gilze e José Luís é digna de lágrimas e sorrisos sem muito esforço. O casal sempre foi admirado por quem conviveu, sobretudo pela bondade e altruísmo em todos os momentos da vida. E com tanto amor no coração, a família tinha que cresceu. E assim chegou Mariana.
“Não tivemos filhos biológicos. Adotamos nossa filha do coração com um ano. Hoje, tem 33 anos, é casada e nos deu dois lindos netos, Gabriel, de 13 anos e a Juju, de 7 anos. Ela é mais do que uma filha e está sendo um apoio fundamental nesta fase de superação e continuidade do Instituto, como a mãe sempre sonhou”, contou.
Gilze foi excelente filha, esposa, mãe, sogra, avó, companheira, amiga e voluntária. Suas qualidades a tornam insubstituível e uma presença constante na vida de quem conviveu.
“Não quero ser vago, clichê ou chavão. Mas na missão de domingo, aprendi o seguinte: as coisas visíveis são passageiras, as invisíveis são eternas. É um texto sobre a diferença entre TER e SER, entre bens e sentimentos. Sendo assim, posso dizer sem dúvida alguma… Meu amor será eterno por Gilze Francisco”, concluiu.