18/08/2021

Da infância difícil ao sucesso como personal trainer, Gabriel Quitério inspira jovens

Por Noelle Neves em 18/08/2021 às 11:21

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Uma história de luta e perseverança. Assim pode ser definida a vida do professor de educação física, Gabriel Quitério, de 26 anos. O morador de Santos enfrentou batalhas árduas desde muito novo, mas com apoio da família e fé inabalável, conseguiu concluir a tão sonhada graduação, abriu a própria assessoria esportiva e conquistou um grande amor.

A infância, apesar de ter proporcionado boas memórias, também teve seus percalços. O pai agredia a mãe dentro de casa.

“Minha mãe blindou minha irmã e eu. Tanto é que hoje, somos muito próximos. Ela sofria, mas fazia de tudo para deixarmos a tristeza de lado e nos divertirmos. Lembro de andar de bicicleta, jogar bola e brincar de esconde-esconde, além de fazer tudo que uma criança deve fazer”, contou em entrevista ao Santa Portal.

Foto: Arquivo Pessoal

Após a separação, a família viveu sem ajuda do pai. De acordo com ele, os parentes paternos nunca foram presentes. Por parte de mãe, os avós são humildes, mas contribuíam com o que podiam.

“Meu pai nunca pagou pensão. Ele comprava uma caixa de hambúrguer, um quilo de salsicha, uma coca e um chocolate. Ou um pacote de macarrão para durar o mês inteiro. No divórcio, minha mãe ficou com um apartamento, mas perdeu, porque ou colocava comida na mesa ou pagava o condomínio e as contas”, lembrou.

Com a perda do imóvel, precisaram morar “de favor” na área portuária de Santos. Uma casa pequena, sem muitos móveis ou luxos. O que faltava em bens materiais, sobrava em amor. Gabriel e a família mudaram muitas vezes. Ao todo, já moraram em 18 lugares na região.

Aos 8 anos, Gabriel foi diagnosticado com uma cardiopatia congênita chamada Comunicação Interatrial (CIA), uma anormalidade que ocorre na formação do embrião. Fez uma cirurgia de correção e a recuperação foi boa, especialmente pelo apoio e cuidado da família.

Com um novo gás e a pureza de criança, viveu cada dia com o máximo de alegria possível. A mãe casou novamente e um tempo depois, teve Miguel, que chegou para somar e unir ainda mais a família.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Em busca de um futuro melhor

Aos 12 anos, o professor de educação física começou a realizar pequenos trabalhos. Ele e um amigo passaram a entregar panfletos na Avenida Afonso Pena, em Santos. Embaixo do sol, usava calça jeans e colete para ganhar R$ 2,00 por hora.

Dois anos depois, conseguiu o primeiro registro pelo Camps, onde trabalhou na Absoluta Chevrolet. Ganhou a confiança do encarregado por ter se destacado e mostrado compromisso e responsabilidade, e então surgiu uma nova chance: trabalhar em um despachante.

O salário o ajudava a concretizar o sonho de cursar Educação Física. “Minha madrinha se ofereceu para pagar a mensalidade, desde que fosse logística ou comércio exterior, visto que o mercado de trabalho é bom.  Mas eu sabia o que queria. Por amor, ela me ajudou do mesmo jeito”, disse.

Entre 2013 e 2016, Gabriel foi aluno da Universidade Santa Cecília. “A faculdade me mostrou coisas novas. Conheci pessoas incríveis e o corpo docente era muito bom. O curso era forte e a cobrança, alta. Tive aulas práticas e teóricas, o que ajudou demais a ingressar no mercado de trabalho com mais confiança. Ao entregar currículo, sempre levava vantagem”, destacou.

Para complementar renda, além do trabalho CLT, trabalhava com motoboy aos finais de semana. Porém a situação financeira ainda era delicada. Portanto, optou por pedir demissão e trabalhar com entregas de domingo a domingo.  

Começou a estudar de manhã, trabalhar em um restaurante na hora do almoço e em uma pizzaria à noite. “O risco de acidente na profissão é grande. E para arcar com todas as despesas, precisava fazer um alto número de entregas. Começava às 10h30 e voltava para casa meia noite. Isso, porque precisava pagar a moto, aluguel e faculdade. Se tivesse tempo, aproveitava os shows do Portuários para trabalhar no bar durante a madrugada”, relatou.

Foto: Arquivo Pessoal

As primeiras influências no empreendedorismo

A mãe de Gabriel, Márcia, sempre se esforçou para dar um futuro melhor para os três filhos, Gabriel, Ana Carolina e Miguel. Tanto é que uma das memórias mais marcantes dele é das vendas de empadas, enquanto o levava para a escola.

Inspirado pelo que via, decidiu, aos 10 anos, começar a vender pipas junto com um amigo. Os dois deixavam de comer para comprar materiais para a confecção. Com saco de lixo, faziam a rabiola. A experiência foi divertida, mas chegou ao fim precocemente.

“Na escola, também teve uma gincana, onde cada turma precisava vender um item. Nossa barraca vendeu muito bolo. Precisei pedir para minha mãe fazer mais. Lembro que encabecei a classe e vendi muito com meu poder de persuasão”, recordou.

Pelo trabalho como motoboy e em bares na madrugada, percebeu que queria ter o próprio negócio e não trabalhar para as pessoas. Lembrou da habilidade de venda e decidiu arriscar.

“Diante de todas as dificuldades que tive na vida, vejo que a criação que minha mãe me deu me fez ser humilde e persistente. Sem o amor seria nada”

Gabriel Quitério, professor de educação física

Foto: Arquivo Pessoal

Lifestyle Assessoria Esportiva

Para Gabriel, empreender é pensar o tempo inteiro em novas estratégias. Os conhecimentos adquiridos na faculdade, especialmente na disciplina de Gestão, foram fundamentais para traçar uma linha para levá-lo ao sucesso.

Uma das atividades propostas pela graduação foi criar uma empresa fictícia. Naquele momento, nasceu a Lifestyle Assessoria Esportiva. Fez um planejamento de aulas e idealizou o que precisaria para dar certo. A ideia parecia promissora, logo, assim que se formou, começou a caminhar em direção do sonho.

A Lifestyle se consolida mês a mês. Hoje, Gabriel tem 28 alunos fixos em treinamento na praia e cria treinos personalizados para quem o procura, com planilhas para academia e exercícios em casa.

“Eu trabalhava em regime CLT, mas decidi viver só da minha assessoria. É com esse dinheiro que ajudo minha mãe, que não trabalha e nem recebe pensão, e pago minhas contas. Também precisei contratar um professor para me ajudar. As coisas estão caminhando e acredito que isso tenha muito a ver com a minha humildade, porque sei que é uma característica que abre portas”.

Gabriel Quitério, professor de educação física

Outro ponto que o jovem acredita ser um diferencial é que oferece treinamento dinâmico em uma diversidade de horários. O pagamento também é facilitado, feito por uma plataforma própria, é possível automatizar sem consumir o limite do cartão de crédito.

Na pandemia, os desafios foram grandes. Sem poder dar aula por nove meses, se reinventou e iniciou os treinamentos online. Um dos grupos de treinamento chegou a ter 300 participantes, o que o permitiu pagar as contas e conquistar o carro da assessoria.

Quando as restrições na praia diminuíram, preocupado com a segurança dos alunos, comprou equipamentos individuais para cada um.

Foto: Fabiano Andrade

O amor é tudo

O apoio na profissão fez com que o professor nunca desistisse. A mãe sempre o incentivou e discursou sobre o tamanho do orgulho que sentia por ser quem é. Os amigos, apesar de brincarem que ele iria dar “aulas de amarelinha”, entendem a importância do esporte e do exercício físico para o bem-estar.

Sem amor, Gabriel seria nada. E além da família e dos amigos, contou com o apoio incondicional de uma mulher, Mayra Quitério, sua esposa.

O casal se conheceu na Igreja São Judas Tadeu em 2009, mas só começaram a se relacionar em 2011. O relacionamento se desenvolveu com ajuda de amigos em comum e em 2019, se casaram.

“Ele é a mesma pessoa desde o começo. Sempre foi muito determinado, trabalhador, decidido. Eu tenho muito orgulho de tudo que está construindo, principalmente por ter visto o quanto batalhou para isso. Desde meus 15 anos, sei que escolhi a pessoa certo. Dividir a vida com ele é maravilhoso. É ter certeza que tudo vai dar certo”, disse Mayra.

Rodeado de tanto carinho, no tempo livre, o que mais gosta de fazer é aproveitar o tempo com a esposa e o cachorro, Bidu. Também jogar de jogar vídeo cm os amigos e jogar bola.

“Se eu pudesse voltar lá atrás, diria para o Gabriel criança que deu tudo certo. Sou um homem realizado, com um casamento feliz, tenho a minha assessoria. Sou próximo da minha família, me reconectei com meu pai, colecionei bons momentos e ótimos amigos. Sucesso não é dinheiro, sucesso é isso”.

Gabriel Quitério, professor de educação
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