14/04/2026

Carlos Adriano explora memória e martírio pelas imagens em filmes

Por Paulo Santos Lima/Folhapress em 14/04/2026 às 10:58

Reprodução/Jotdown
Reprodução/Jotdown

Assim como Marcel Proust, o cineasta também fez a sua obra monumental, tanto em duração quanto em aventura estética. Em seus 103 minutos, “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas” é, parafraseando a obra do escritor de “Em Busca do Tempo Perdido”, uma espécie de “em busca do tempo esquecido”.

Inclinado desde sempre à poesia concreta, sumo do cinema de vanguarda, Carlos Adriano tem construído uma obra que parte de suas próprias criações formais e as coloca em análise e em prosa dialógica com entrechos de filmes referenciais da história do cinema, textos literários e teóricos, filosofia, música etc. A autoria se faz justamente no experimental, gesto que desvela um certo “o que há por trás”. Não como autópsia, mas para encontrar o essencial.

Não à toa, o palimpsesto do título coincide com os vários registros manuscritos de Proust em papéis marcados pelo tempo. Assim como os tais pastiches e misturas dizem respeito aos procedimentos que o cineasta vem fazendo desde seus primeiros trabalhos.

O que está, por exemplo, em “A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha”, de 1998. As raras imagens desse cantor de samba morto aos 19 anos “ganham vida” pela pulsação gerada pela montagem. Algo daquela imagem chegava ao espectador, e aquele Vassourinha de 1998 reaparecer agora em “Proust Palimpsesto” sugere uma causa que importa a Carlos Adriano dar vida ao que estava apagado pelo esquecimento ou ignorância.

Importante citar que os 500 anos do descobrimento do Brasil foram transtornados, via o conceito de história de Walter Benjamin, em “O Materialismo Histórico da Flecha contra o Relógio”, de 2023. Neste “Proust Palimpsesto”, Carlos Adriano avança no tema e falará sobre as mortes e as violências contra os palestinos em 1947 e, por derivação através das imagens, sobre o que está ocorrendo agora.

Algo que estará no curta-metragem “Sem Título #11: Um Analecto à Mula”, outro filme de Carlos Adriano que está presente também nesta edição do É Tudo Verdade. O diretor mantém, como em “Proust Palimpsesto”, o textual sendo uma presença tão “informativa” quanto visual, mas altera o modo de interação entre as imagens. Ante a reiteração da cena que surtia uma espécie de progressão, movimento e revelação catártica caso de “Sem Título #1: Dance of Leitfossil”, de 2014, agora a dinâmica é a de um encadeamento de signos semelhantes, numa espécie de comentário urgente sobre o estado do mundo.

O filme faz um pequeno inventário da mula na história do cinema, em filmes como os tristíssimos “A Grande Testemunha”, de Robert Bresson, e a refilmagem de Jerzy Skolimowski intitulada “EO”. A figura do burro aparece também em “O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pier Paolo Pasolini, no lendário e inacabado “Dom Quixote” de Orson Welles e em vários outros breves registros ao longo do filme.

Na verdade, é uma história sobre o martírio. Não só o do filme de Bresson, mas o que está acontecendo com os palestinos em Gaza, como aponta Carlos Adriano através do registro de um colono espetando num cemitério muçulmano a cabeça de um asno morto. Analecto, aliás, tem a ver também com exploração e opressão.

E, neste tema ainda, o filme de Carlos Adriano fará uma breve passagem pela história das artes, como as pinturas sacras incluindo os dóceis animais integrados à cena cristã. Uma iconografia que vez e outra coincide com a do cinema, imagens marcantes como as de “Vertigo”, de Alfred Hitchcock, que permanecem como memórias. Mas o filme questiona a memória ser uma versão autêntica do fato ocorrido, por ser uma recriação ou porque o que ocorreu não existe. O que Carlos Adriano faz é recorrer às imagens e delas um meio de não apagamento, menos um culto e mais uma tentativa de descoberta.

Juntos, o longa e o curta-metragem que estarão na programação do É Tudo Verdade trazem uma polifonia incrível. A literatura de Proust servindo a uma indagação mais profunda sobre acontecimento e memória se igualarem como reminiscências, e o cineasta experimental e amigo do diretor, Carlos Nader, disserta sobre o assunto. O experimental disruptivo Jimi Hendrix e o denso sentimental Leonard Cohen, o ator Orson Welles se tornando o diretor Orson Welles, Duchamp, Buster Keaton sendo dirigido por Beckett em “Film”, alguns Luis Buñuel surrealistas, Chaplin, as trocas entre Lezama Lima e Julio Cortázar, o lendário “Limite” de Mario Peixoto, Picasso, Fellini, Hollis Frampton etc. E o curador e diretor Bernardo Vorobow, que partiu em 2009, e continua presente em imagem cinematográfica na tela, nos filmes de Carlos Adriano.

O jogo destes dois filmes é o do cinema de vanguarda, num discurso cinematográfico mais inclinado à dança, ao som, às imagens extáticas típicas da história do cinema, as informações acessando o espectador num modo difuso em que o teleológico faz sentido justamente pela sedação causada pelo experimental.

“Sem Título #11: Um Analecto à Mula” e “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas” operam em outras bases, mas nunca desprezando o factual do “cinema do real”. Não é um rebuscamento, e sim um modo particular de um cineasta ir ao conhecimento das coisas do mundo através de algo mais particular e misterioso e também recorrendo à forma para entender o que seria isso que é chamado de real.

PROUST PALIMPSESTO: PASTICHES E MISTURAS

  • Avaliação: Ótimo
  • Quando: Ter. (14), às 20h30, no CineSesc; quar. (15), às 18h, na Cinemateca
  • Onde: Festival É Tudo Verdade – CineSesc e Cinemateca
  • Classificação: 18 anos
  • Direção: Carlos Adriano
  • Link: https://etudoverdade.com.br/br/home/

  • SEM TÍTULO #11: UM ANALECTO À MULA
  • Avaliação: Ótimo
  • Quando: Ter. (14), às 15h, no CineSesc; qua. (15), às 17h, no Centro Cultural São Paulo
  • Onde: Festival É Tudo Verdade – CineSesc e Centro Cultural São Paulo
  • Produção: Brasil, 2026
  • Direção: Carlos Adriano
  • Link: https://etudoverdade.com.br/br/home/
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