Autora santista de 97 anos lança livro de poesias sobre folclore brasileiro
Por Marcela Ferreira em 21/08/2021 às 12:44
Os 97 anos e cinco meses da escritora Carolina Ramos passam despercebidos com a lucidez e inteligência admirável da autora. Ela lança, neste sábado (21), sua nova obra “Canta… Sabiá!”, um livro sobre as belezas do folclore brasileiro através de trovas e poesias escritas ao longo da carreira.
Carolina conquistou, ao longo da vida, mais de 1.300 prêmios literários, e deixou o tema folclore para tratar só agora, um sonho que guardava para realizar no momento certo. “Sempre foi uma intenção minha quando comecei a escrever. Nos anos 60, havia um concurso com o tema folclore, e eu escrevi um poeminha sobre o Saci, e o Saci foi premiado. Então eu tomei gosto”, conta sobre seu primeiro contato com a temática na literatura.
“Como é um tema que não é abraçado com facilidade, e não é como uma poesia que sai da alma da gente, é diferente. Eu comecei a escrever sobre folclore em uma obra ou outra, e ia separando. Pode-se dizer que o folclore foi uma das primeiras inspirações minhas, e agora passou a ser o meu último livro”, diz.
Autora de outros 19 livros, Carolina conta que sempre teve vontade de dedicar um deles à cultura brasileira. Em Canta… Sabiá!, são 350 páginas dividas em cinco capítulos recheados com folclore de cada canto do Brasil, além de poesias, trovas e contos.
A autora ainda diz que, durante a pandemia de covid-19, o isolamento até a ajudou a se inspirar. “Essa clausura que nós tivemos de certa forma me ajudou a passar o tempo, em vez de procurar uma distração fora, eu escrevia. Então é uma conversa minha com o computador. E eu continuei fazendo as poesias e fazendo o Sabiá, e achei que já era tempo do sabiá vir cantar aqui fora. Então me dediquei um pouquinho mais a ele, fiz a revisão, a inclusão da parte didática, depois a descrição do folclore de cada estado do Brasil, e depois entrei com as poesias, as trovas e os contos mais rústicos, com a linguagem do sertão, a linguagem cabocla, é uma literatura diferente de tudo que eu fiz até aqui”, relata.
Inspiração vem da infância
A obra também remete à infância, que segundo ela teve férias na fazenda e contato com uma cultura mais rústica, na qual as histórias folclóricas estiveram presentes. “Sempre foi um interesse porque minhas férias eram passadas em uma fazenda de uma prima de minha mãe, e lá tinha muito esse ambiente rústico de roça. Na minha infância eu esperava muito pelas férias por conta disso, andar pelo campo a vontade, coisa que hoje não se faz mais. Mas isso me ajudou muito a gostar da natureza”.
Foi também na infância que despertou o interesse pela escrita. Ainda na escola, ela conta uma passagem em que chegou a tirar uma nota baixa por uma poesia. “Com 11 anos eu passei do primário para o ginásio, e havia uma professora muito severa, muito brava, competentíssima, que passou uma composição chamada “A morte do sabiá”. Eu me derramei em cima dele, não sabia que gostava de escrever, mas tomei gosto mesmo. Achei que ia tirar uma boa nota. Quando chegou alguns dias depois, ela me chamou por último, e ela pôs o dedo no meu nariz e disse “nunca mais faça isso” e eu levei um susto danado! “Isso é muito feio”, ela disse, e eu não entendi nada, era muito tímida, mas ela me disse que isso foi feito “com mão do gato”, fiquei horrorizada!”, conta entre risos.
“Ela me deu nota seis quando eu esperava um dez. Eu tenho guardado isso até hoje. Mas não me zanguei com ela, porque tudo que eu sei de Português eu aprendi com ela. Ela me deu meu primeiro prêmio de poesia”, lembra com carinho.
Agora aos 97 anos, Carolina espera lançar mais algumas obras, e pretende dedicar seu tempo a escrever para a família. “Eu tenho um livro já começado, estou fazendo a revisão, e tem outras historinhas infantis e autobiográficas que são mais para a família. Vamos ver se eu tenho tempo! Não posso dizer porque a carreira findou, porque ela só finda quando a gente morre. E enquanto a gente vive, sempre temos algo a dizer”.
E a autora faz o convite: “Que venham ouvir o canto do meu sabiá!”
O lançamento acontece de forma virtual neste sábado (21) pelas redes sociais da Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos. Para acessar, basta entrar no Facebook da Pinacoteca e conferir a programação.
