Médica receita Cloroquina e Ivermectina a paciente com dor de garganta em Santos
Por Santa Portal em 21/06/2021 às 19:50
Uma moradora de Santos, que prefere não ser identificada, se indignou após ir até a UPA Zona Leste da cidade no último sábado (19) com dor de garganta e febre, e ter recebido uma receita com os medicamentos Hidroxicloroquina (Cloroquina), Ivermectina e vitamina D.
Os medicamentos fazem parte do chamado “tratamento precoce” contra a covid-19, e segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) não têm eficácia comprovada contra o vírus, e por isso, não são recomendados para tratar a doença.
A moradora explica que procurou o atendimento médico por estar com dor de garganta e febre há alguns dias, mas que já havia tomado a primeira dose da vacina contra a covid-19, por isso esperava receber uma receita para tomar um antibiótico ou injeção.
“Eu estava com dor de garganta e febre há uns dias, só estava sentindo isso. Cheguei lá e percebi que não ia sarar sozinha, eu fui lá com o intuito de tomar um antibiótico, porque percebi que eu estava precisando. Já vacinei contra a covid-19 com a primeira dose, mas estava com essa dor de garganta mesmo.”
Receitas

A médica que a atendeu ouviu sobre os sintomas e receitou a Hidroxicloroquina para a paciente. “Eu perguntei se era isso mesmo que ela estava me receitando, porque isso é um tabu, né? Remédio para verme, para malária, eu estou com dor de garganta. Aí ela falou que trabalhava com o tratamento precoce para covid. Eu falei que tinha tomado a primeira dose da vacina e estava só com dor de garganta. Eu não quis discutir muito, porque na receita também tinha azitromicina, que é um antibiótico para quando se está com dor de garganta, pneumonia, esse tipo de coisa.”
Segundo a moradora, ela chegou a fazer o teste para covid-19, mas o resultado só deve sair em 15 dias. No entanto, após ter tomado o antibiótico, porém, ela conta que os sintomas já desapareceram.
Ineficácia da Cloroquina e Ivermectina
A Hidroxicloroquina (Cloroquina) é um medicamento com o uso aprovado para afecções reumáticas e dermatológicas, artrite reumatoide, artrite reumatoide juvenil, lúpus eritematoso sistêmico, lúpus eritematoso discoide, condições dermatológicas provocadas ou agravadas pela luz solar e malária. No início da pandemia, o uso deste medicamento foi discutido, mas estudos mostraram que não há eficácia da Cloroquina e Hidroxicloroquina contra a doença.
Já a Ivermectina é um remédio usado no tratamento de infestações por parasitas, como piolhos, sarna, oncocercose, estrongiloidíase, tricuríase, ascaridíase e filaríase linfática. A OMS recomenda desde 31 de março de 2021 que esse medicamento não seja usado para tratar pacientes com covid-19. O próprio fabricante da Ivermectina afirma que os dados disponíveis não apontam eficácia contra o vírus.
Em Santos, não há indicação do uso destes medicamentos em casos de covid-19. Aliás, na página 19 do Diário Oficial de Santos de 11 de fevereiro de 2021, há um item que dispõe sobre o uso deste tipo de medicamento no tratamento de pacientes com covid-19: “[…] Não há indicação de prescrição de Cloroquina, Hidroxicloroquina, Ivermectina, Nitazoxanida ou qualquer outro fármaco que não tenha benefício comprovado cientificamente.”
Posteriormente, ao chegar na farmácia para comprar o remédio, a moradora de Santos disse que se surpreendeu com a reação da funcionária.
“Quando fui na farmácia, comprei o antibiótico, e a farmacêutica falou para mim que estava chegando muitas receitas da UPA de Santos mandando o pessoal até fazer inalação com Hidroxicloroquina. Às vezes o pessoal da farmácia convence as pessoas a não fazerem nem isso que é perigoso, né?”
Sem denúncia sobre a Cloroquina
A moradora não chegou a registrar a reclamação, e conta que ficou incrédula. Ao contar para familiares, uma publicação foi feita nas redes sociais contando o que havia ocorrido. No Twitter de uma conhecida, o post chegou a viralizar, com mais de 24 mil likes e dois mil compartilhamentos.
“Eu falei que precisava fazer alguma coisa, porque é impossível chegar com dor de garganta e ela te mandar tomar remédio para malária e piolho. A mulher fez faculdade, não tem como me mandar tomar remédio para piolho, se eu estou com dor de garganta. Se chego em Santos com problema respiratório, vão me receitar para o tratamento precoce de covid-19, que eu não sei nem se podia estar acontecendo?”, concluiu.
Resposta
Em nota, a Pró Saúde, que administra a UPA Zona Leste, informou que o atendimento deve ser pautado por evidências científicas e eficácia comprovada. Leia na íntegra:
“A Pró Saúde, organização social que administra a UPA Zona Leste, e a Prefeitura esclarecem que, embora existam protocolos de assistência, a prescrição de medicamentos para uso domiciliar é de prerrogativa e responsabilidade do profissional médico a partir da avaliação dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente.
A Pró-Saúde complementa que os protocolos assistenciais da unidade não prevêem a prescrição de medicamentos como os citados pela reportagem, para tratamento de casos suspeitos ou confirmados para Covid-19.
A assistência prestada é pautada em evidências científicas e com eficácia comprovada.
De sua parte, a Prefeitura de Santos esclarece que possui uma diretriz voltada ao manejo da covid-19, publicada no Diário Oficial do Município em 11 de fevereiro de 2021, que não prevê o uso das medicações mencionadas.”