Linha de frente: "é impossível separar o profissional do emocional", diz fisioterapeuta

Por Noelle Neves em 27/01/2021 às 12:13

LINHA DE FRENTE – Era janeiro de 2020. Por volta das 5 da manhã, a fisioterapeuta Adriana Oliveira dos Santos, de 48 anos, acordou para mais um dia de trabalho. Antes de sair de casa, como o habitual, checou os portais de notícias. Dessa vez, uma, dentre todas as reportagens, chamou atenção.

O jornalista narrava as consequências de um novo vírus que circulava na China. Apesar da empatia sentida pela população, que sofria com a doença, seguiu rumo ao hospital. Até comentou com alguns colegas da UTI a respeito, mas pouco se sabia até então. Origem, tratamento, nada…

À noite, ao chegar em casa, foi impactada por novas informações. Assistindo aos telejornais, descobriu sobre a velocidade de contaminação. Mesmo com relatos e a disseminação de conhecimento a respeito do chamado coronavírus, Adriana nem podia imaginar que a realidade dura e triste que assolava um país tão distante, chegaria ao Brasil.

No dia 11 de março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) considerou o coronavírus uma pandemia, a fisioterapeuta estava ciente de que tempos obscuros estavam chegando. Mas só seis dias depois que as coisas mudaram de fato.

Até hoje, se lembra de quando foi avisada que a Unidade de Terapia Intensiva, onde trabalha, receberia pacientes com covid. O cenário estava diferente e os profissionais da saúde foram transformados em verdadeiros soldados. Passaram a usar capote, touca, duas máscaras, face shield e luvas. Equipados para lutar contra um inimigo invisível.

A proteção era sufocante. A jornada de trabalho não tinha pausa para ir ao banheiro ou comer. E no fim do expediente, o resultado eram marcas na face e na alma. Do primeiro ao quarto dia na linha de frente, tontura, náusea e visão turva foram sintomas que a acompanharam.

A exaustão… ah, a exaustão era maior do que tudo. Os rostos não podiam ser vistos, no entanto, se pudessem, estariam contorcidos de dor pelas perdas. Tantos pacientes em sofrimento, tantas mortes…

Um caso marcante foi de uma jovem senhora, de 52 anos, que evoluiu para intubação, após tentativas de melhorar a oxigenação dos pulmões na posição prona.

O médico conversou com a paciente para explicar o procedimento, porém, assim que Adriana entrou no quarto com um ventilador mecânico, ela abriu os olhos amendoados assustados e fixou o olhar como quem quisesse falar. E a única coisa que Adriana poderia fazer era tranquiliza-la. “Fica tranquila, vai dar tudo certo. Como o médico explicou a você, é para poupar seu pulmão e melhorar essa falta de ar. Logo, logo você vai ficar boa e voltará para casa”, disse.

A realidade, no entanto, foi bem diferente. Mesmo intubada, teve uma parada cardiorrespiratória (PCR) e não resistiu. Durante 40 longos minutos, a equipe de saúde composta por sete profissionais, revezou em cardioversão e massagem de ressuscitação cardíaca para trazê-la de volta. O celular tocava incessantemente, ninguém atendeu. O foco era a paciente.

Quando atingiu o tempo limite de parada sem sucesso, o silêncio tomou conta do quarto e pegaram o celular. Era o marido. “Na maioria das vezes, é impossível separar o profissional do emocional. O choro foi inevitável. O dia acabou ali”, relatou.

Adriana coleciona histórias tristes. Mas também momentos de alegria, que levaram esperança no enfrentamento da pandemia.

Em uma manhã de quinta-feira, uma senhora de 79 anos, obesa e recém-chegada de uma viagem de cruzeiro pelo litoral brasileiro deu entrada na UTI. Ela se enquadrava em todos os critérios de intubação e a plantonista optou por intubar. Aquela seria a primeira da UTI da Santa Casa e a primeira das vidas da equipe responsável.

“O coração disparou, bateu uma insegurança, um medo… Sentia medo do desconhecido, porque o que sabíamos foi o que estudamos através dos novos protocolos. Revisamos todos os passos e deixamos o material ao alcance das mãos. Tudo aconteceu com sucesso”, relembrou.

E duas semanas depois, o processo de extubação paliativa foi feito pelas mãos da própria Adriana. Aquela foi considerada a primeira vitória contra o coronavírus.

“Ao longo destes dez meses, tivemos muitas alegrias, mas também muitas tristezas pelas vidas que se foram. Em cada uma, imaginávamos como estariam os familiares que não estavam ao lado, não puderam se despedir e ainda receberam a triste notícia do falecimento pelo telefone”, falou.

Hoje, trabalha 18 horas por dia, sendo seis delas na UTI covid e as outras 12, na UTI pós-covid, onde realiza um trabalho também intenso. “Sou incansável, trabalho com muito amor e otimismo, na certeza de que dias melhores virão”.

Para essa guerreira, dificilmente seremos os mesmos depois da pandemia. Se não melhorarmos como seres-humanos é porque não aprendemos nada.

“Felizmente, a vacina chegou para dar alívio e esperança a população mundial. É incrível saber que não perderemos mais tantas vidas e que, em breve, voltaremos ao convívio de nossos amigos e familiares, que por meses, ficamos separados”, finalizou.

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