Ex-morador de um abrigo, jovem é destaque no Enem e pretende ser juiz

Por #Santaportal em 09/02/2017 às 17:04

SANTOS – Qual é a sua desculpa? Está com calor? Está com frio? Está com preguiça? Definitivamente alcançar objetivos sem esforço, é quase impossível. Mas para alguns o caminho é bem mais difícil. Um bom exemplo, é o caso do jovem Valdemir Marques, o mais novo calouro de direito da Unisanta, a trajetória dele, é digna de reflexão. Assista o vídeo acima.

“Você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui. Percorri milhas e milhas antes de dormi, eu nem cochilei. Nas noites escuras de frio chorei”. O trecho da letra da música “A Estrada”, da banda Cidade Negra, poderia perfeitamente ser a trilha sonora da história de Valdemir Marques.

“O que me levou a morar na rua foram inúmeras discussões que eu tive com os meus parentes. a condição nossa, social, não era muito boa. Nós moramos em um cortiço quando a gente era pequeno. Por conta de só o meu pai trabalhar em casa, ele tinha dificuldade de manter. Eram quatro filhos, minhas duas irmãs, meu irmão mais novo e minha mãe. Eram cinco pessoas para ele manter sozinho”, relembrou o estudante.

Valdemir recordou como foi difícil a decisão de sair de casa. “Ele sempre falou para a gente vender balar para ajudar em casa, ou ir no semáforo pedir dinheiro. Essas coisas, mesmo a gente não tendo idade para fazer, a gente tentava. Acabava que a gente chegava em casa, uma das 10 e 11 horas da noite, que não era horário para um criança de seis anos chegar em casa. Então quanto mais a gente chegava tarde, mais ele brigava com a gente. Até que um dia ele deu uma surra em mim e no meu irmão, e por conta disso, trabalhando sendo menor e ainda levar uma surra por trabalhar, nós resolvemos sair de casa. Ele falou que se fosse para gente ir, era para a gente não voltar mais, e a gente foi”, disse.

A história do jovem de 19 anos começou a mudar quando ele foi encaminhado pela Justiça para o Lar Santo Expedito, no bairro Boqueirão, em Santos. Na instituição, Valdemir encontrou a paz que precisava para estudar e recomeçar.

“Quando eu vim para cá meu intuito foi melhorar tanto no meu comportamento quanto nos meus estudos. Quando eu estava aqui eu estudava no (colégio) Cidade de Santos, e o foco foi sempre melhorar gradativamente nas matérias da escola e nas lições de casa que eles passavam para a gente aqui (Lar Santo Expedito)”, afirmou.

O único parente que ainda mantinha contato era o avô Geraldo. Para Valdemir Marques, um exemplo que sempre lhe deu força para seguir em frente. “O meu avô sempre me ajudou, sempre me incentivou bastante tanto a estudar quanto a ter ética, ter caráter, que é o essencial para construir um cidadão. Ele sempre me ajudou na questão financeira em casa, o que eu não tinha ou precisava ter para estudar ou para viver ele comprava. Na maior humildade, maior simplicidade que ele sempre teve”, contou.

Para continuar no caminho do bem, trabalhar era fundamental. Em um estacionamento no bairro Macuco, também em Santos, que Valdemir ganhava dinheiro para pagar as contas e nunca fugir da meta principal: estudar. “Eu cheguei a morar aqui. Eu lavava de cinco a 10 carros por dia, quando tinha serviço. Quando o movimento estava fraco eu tentava conciliar os estudos tanto da escola, do curso técnico e do Enem, com o trabalho. O que eu tinha dúvida no mesmo curso eu tentava fazer aqui”, explicou.

Todo esse esforço deu resultado: 980 pontos na prova de redação do Enem garantiram a tão sonhada vaga para a universidade e com uma bolsa integral. Em todo Brasil só 77 alunos chegaram aos 1000 pontos. Valdemir quer ser advogado para quem sabe ser juiz.

“Eu vou poder tratar com aquelas pessoas que tiveram as mesmas condições que eu tive um dia, e eu vou poder entender de forma justa e clara como lidar com essas pessoas. A Justiça brasileira ultimamente consegue julgar o menor, quando ele comete um ato infracional, por exemplo, de uma forma negativa. Só atribui aquilo que ele fez sem saber a trajetória de vida dele antes dele cometer aquele ato, que é primordial que a pessoa saiba.Eu quero seguir na carreira jurídica por questão de saber quem estava fazendo porque precisava ou quem estava fazendo porque não precisa, e tentar entender o caso de cada família”, comentou.

Se a estrada até aqui já foi tortuosa, seria no mínimo pretensioso dizer que o caminho até o diploma será fácil. Valdemir mora em um pequeno cômodo no bairro Vila Nova, em Santos, e sobrevive de pequenos trabalhos, como carregar malas para passageiros de navios do Porto. Ele ganha em média R$ 30 por dia, mas depois de percorrer tantas milhas antes de dormir, sem cochilar, e nas noites escuras de frio tanto chorar, com certeza não dá pra duvidar que ele consiga conquistar mais esse desafio.

“Eu vou conseguir porque eu batalhei, me esforcei. Dediquei cada dia da minha vida. Deixei futebol, deixei meus amigos, deixei namorada de lado e fiquei em casa estudando, batalhando, me dedicando da melhor forma possível, de acordo com tudo que eu fiz nas minhas planilhas de estudos. Eu vou conseguir porque eu fui forte o suficiente até aqui, e vou ser forte o suficiente até a faculdade”, encerrou.

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