Testemunhas contaram que viram um grupo de vários policiais passar atirando em um beco do Complexo do Lins, na zona norte do Rio de Janeiro, momentos antes de a designer de interiores Kathlen Romeu, que tinha 24 anos e estava grávida, ser baleada e morta nesta terça (8).





Os relatos de cinco pessoas foram colhidos pela Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ (Ordem de Advogados do Brasil) na própria comunidade, mas por enquanto todas estão com receio de prestar depoimento à Delegacia de Homicídios da cidade, segundo o advogado Rodrigo Mondego.





"Vamos agora entrar num processo de convencimento para que prestem depoimento. As pessoas têm muito medo. Primeiro falam que vão falar, mas depois é natural que parentes as desaconselhem. Por enquanto ninguém quer falar", afirma.





Esses moradores contaram ter visto acontecimentos antes e depois de a jovem ser atingida, mas nenhum deles presenciou o momento exato do tiro que a matou. A tragédia ocorreu à tarde, em horário comercial, quando o dia ainda estava claro e o movimento na favela era intenso.





De acordo com Mondego, as testemunhas disseram que o clima estava calmo quando uma guarnição de policiais militares da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) -eles não souberam precisar quantos, mas eram "muitos", dizem- que estava no alto do morro desceu pela viela, todos pelo mesmo caminho, já efetuando disparos.





Parte dessas pessoas afirmou ter visto agentes dentro de uma casa, de "tocaia" para pegar traficantes de surpresa. A dinâmica dos fatos, no entanto, ainda não está clara. É possível que houvesse várias equipes atuando em diferentes locais, por exemplo.





A versão da Polícia Militar é outra. Segundo a corporação, não havia operação, e agentes da UPP foram atacados a tiros num local conhecido como Beco da 14, onde houve confronto: "Após cessarem os disparos, os militares encontraram uma mulher ferida e a socorreram ao hospital".





Kathlen e sua avó, Sayonara de Oliveira, andavam juntas por uma das vias de acesso da comunidade, quase fora da favela, quando os tiros foram ouvidos e a jovem caiu. A avó achou que a neta havia se abaixado para se proteger, mas logo depois viu uma grande quantidade de sangue em seu braço.





Inicialmente pensou que ela havia sido atingida nessa parte do corpo. O sangue, porém, vinha do tórax, onde o projétil a atravessou. Mondego diz que a família ainda não teve acesso ao laudo de necropsia, que vai indicar o trajeto exato da bala.





O fato de o projétil não ter ficado alojado no corpo, como confirmou a polícia, pode dificultar a busca por quem efetuou o disparo. Sem ele, não será possível fazer um exame de confronto balístico com as 21 armas apreendidas com 12 policiais que participaram da ação -dez fuzis calibre 7.62, dois fuzis calibre 5.56 e nove pistolas .40.





Segundo Mondego, parte das testemunhas ouvidas pela OAB corrobora o relato de Sayonara de que inicialmente os agentes não quiseram socorrer Kathlen. "Eles estão falando que socorreram a minha neta. Não foi […] Eu me levantei e falei: gente, para de dar tiro, socorre a minha neta. Eles socorreram porque eu gritei, eles não queriam nem que eu fosse no carro com ela", declarou ela à imprensa nesta quarta (9).





A avó apenas deu um depoimento preliminar em uma sala da Divisão de Homicídios que fica no IML (Instituto Médico Legal) e deve ir formalmente à delegacia nesta quinta (10). A Polícia Civil informou que, além dela, 5 dos 12 policiais que participaram da ação já foram ouvidos e outras testemunhas estão sendo chamadas.





Segundo o G1, o cabo Marcos Felipe da Silva Salviano disse na delegacia que disparou cinco vezes de fuzil e seu colega cabo Rodrigo Correia de Frias, duas vezes. Ele afirmou que outras equipes da UPP também participaram da ação, mas não soube informar se outros policiais também dispararam.





De acordo com o jornal O Globo, os agentes alteraram a cena da morte, apesar de a Polícia Militar ter divulgado que o local foi preservado. Eles teriam levado para a delegacia estojos deflagrados de 9 milímetros, munição intacta de pistola calibre 9 milímetros e de fuzil 5.56 e drogas.





Quando a perícia chegou na comunidade, não encontrou vestígios, apenas sangue no chão da rua. Também não achou testemunhas que tenham presenciado os fatos, ainda segundo o jornal. Questionada sobre esses acontecimentos, a Polícia Civil não respondeu.