Sargento cria grupo para atacar ex-soldado da PM vítima de assédio sexual
Por Santa Portal em 08/06/2021 às 10:55
Um sargento da Polícia Militar criou um grupo em um aplicativo de mensagens para pedir a saída da ex-soldado Jéssica Paulo do Nascimento, de 28 anos, da corporação. Jéssica teve acesso a essa informação e o seu advogado protocolou uma petição na Corregedoria da PM contra o sargento.
A ex-soldado recebeu uma denúncia anônima de um grupo de WhatsApp que havia sido criado e era administrado pelo sargento responsável pelo 45º Batalhão da Polícia Militar do Interior, em Praia Grande. O nome do grupo era “Todos Odeiam Jéssica”. Ela ficou sabendo da existência do grupo apenas após a sua saída da corporação.
“Esse grupo foi criado por um por esse sargento que já me perseguia no trabalho. Ficou mais comprovado ainda, realmente, a perseguição dele. É um grupo incitando ódio contra mim. O único intuito do grupo era denegrir a minha imagem e incitar ódio entre os meus antigos companheiros. Porém, graças a Deus, eu tive um bom relacionamento com a maioria das pessoas que trabalhavam na companhia. Muita gente que realmente está acompanhando o meu caso confia em mim, são pessoas que acreditam na minha verdade, até porque eu já apresentei provas muitas robustas”, disse Jéssica, em entrevista ao #Santaportal.
Neste grupo, no qual policiais foram saindo aos poucos, eram compartilhadas reportagens sobre a denúncia feita por Jéssica contra um tenente-coronel da PM. “Uma pessoa que estava no grupo e não concordava com isso me mandou os prints. Ficaram somente o sargento e uma cabo no grupo. As outras pessoas saíram. O meu advogado já peticionou essa denúncia e o caso agora está com a Corregedoria”, afirmou Jéssica, que pretende entrar com uma ação na Justiça comum também contra esse sargento.
Recentemente, Jéssica foi exonerada da Polícia Militar, após decidir deixar a carreira. A ex-soldado optou pela saída após sofrer pressão dentro da corporação por causa da repercussão do caso.
“Resolvi sair por causa das perseguições no serviço, eu não tinha um ambiente sadio para trabalhar. Decidi sair porque eu vinha tendo um ótimo comportamento, sem responder a nenhum tipo de processo, e se eu continuasse eles poderiam criar armadilhas para me incriminar ou arrumar algo para que eu fosse expulsa. Então, decidi sair pela minha integridade”, concluiu.
O #Santaportal entrou em contato com a Polícia Militar, que informou que estes fatos citados, bem como os anteriores, são apurados por meio de inquérito policial militar (IPM). As investigações são conduzidas pela Corregedoria e seguem em sigilo, conforme determina o artigo 16 do Código de Processo Penal Militar.
Entenda o caso
Uma soldado da Polícia Militar, lotada em Praia Grande, denunciou um tenente coronel por assédio sexual e ameaças de morte, através de mensagens de aplicativo. Por causa dessas acusações, um inquérito foi aberto pela Justiça Militar para apurar o caso e, por isso, o oficial foi afastado de suas funções.
De acordo com a soldado Jéssica Paulo do Nascimento, de 28 anos, as investidas do seu superior começaram em 2018. Na ocasião, o comandante havia acabado de assumir o Comando do Batalhão da Zona Sul da Capital.
“Isso tudo começou quando ele se apresentou no batalhão, ele estava conhecendo as companhias que ele iria comandar. Eu atuava na Força Tática, era de uma companhia que ele comandava. Ele foi se apresentar, conhecer o efetivo, e ficamos um tempo sozinhos. Daí ele aproveitou um momento em que ficamos sozinhos e me chamou na cara de pau para sair. Perguntou se eu tinha interesse de sair com ele. Falei que sou casada, com filhos, e ele é casado também, pois vi que ele usava aliança. Então disse que não iria rolar. A partir desse momento, as perseguições começaram”, disse Jéssica, em entrevista ao #Santaportal.
Com a negativa para um relacionamento amoroso, a soldado conta que o tenente coronel passou a persegui-la, o que inclui até mesmo um episódio de sabotagem, quando ela foi impedida de fazer testes físicos para um concurso público do Corpo de Bombeiros.
“Pensei em fazer a prova dos bombeiros, mas ele não permitiu que eu fizesse a prova. Tentei sair do batalhão, ele não permitiu. Ele me apresentou uma companhia muito longe da minha casa, tentou me prejudicar de várias formas. Onde eu ia estava sendo perseguida. Comecei a ter depressão e ataques de pânico por causa disso”, contou.
A pressão exercida pelo superior levou Jéssica a pedir um afastamento do trabalho. “Relatei tudo o que estava acontecendo e a psiquiatra me afastou por seis meses. Depois desse tempo, não votei para a polícia, tirei uma licença sem remuneração durante dois anos. Mudei de telefone e endereço, vim morar em Praia Grande”, afirmou.
No entanto, com o fim da licença, ela teria que retornar ao trabalho. O objetivo dela era conseguir uma transferência de São Paulo para a Baixada Santista. “A licença terminou em 7 de abril, mas antes de terminar tive que ir lá no batalhão, em São Paulo. Tive que passar lá, conversei com a administração e pedi a baixa da polícia. Não tinha como trabalhar lá morando aqui. Mas uma secretária dele ofereceu uma ajuda, disse que iria conversar com ele, explicar a situação. Eu disse que tudo bem, afinal era só ele ligar para o comandante daqui que eu poderia trabalhar em Praia Grande”, relembrou.
Nesse momento do retorno para a polícia, ela voltou a ser assediada, de maneira ainda mais agressiva. “Não sei se foi essa secretária ou outra pessoa passou o meu contato, mas em 25 de março ele me ligou perguntando se eu gostava de r… dura, se eu gostava disso ou daquilo, que carioca era tudo safada, e mandou eu vir com uma camisola curta, com a calcinha enterrada na b…. Disse que não queria aquele tipo de contato, que queria falar sobre a minha transferência. Ele disse que a gente veria isso na sexta-feira, só que não foi o que aconteceu depois”, comentou.
Nos dias que antecederam a suposta reunião para decidir o seu futuro, Jéssica começou a receber promessas do comandante. “Ele disse que iria sustentas os meus filhos, que eu teria uma promoção dentro da corporação. Mas a gente que é policial sabe que, para qualquer concurso interno e externo, a pessoa tem que fazer a prova. Ele falou que iria me colocar para tenente. Porém, qualquer policial sabe que não é assim, ele queria ter algo a mais comigo”, destacou.
Com o assédio se intensificando, ela decidiu procurar a corregedoria da PM para apresentar as denúncias. No dia seguinte, quando ela iria encontrar o seu superior para tratar da transferência para o batalhão de Praia Grande, o tenente coronel disse que não havia reunião alguma. Segundo ele, os dois se encontrariam para ir a um motel.
“Eu pensei que precisava de provas, pois ninguém iria acreditar em mim. Falei com um advogado, que me orientou a ver até onde ele iria. Tenho vídeos, áudios e prints. Inclusive no momento que eu estava denunciando o tenente coronel, ele mandou mensagem de áudio, na sexta combinado a questão da transferência e me chamando para ir para o motel. Falei que não iria. Começou a me ameaçar novamente, falou um monte de coisa. Ele falou um monte de palavrão, disse que iria me estuprar, me ameaçou de morte, dizendo que segredo de dois, um tem que morrer. Por isso, decidi denunciá-lo”, contou.
Com a abertura do processo disciplinar, o comandante foi afastado. Jéssica se diz aliviada com as medidas tomadas contra ele, mas ressaltou ainda que, além da Justiça militar, está processando o seu superior também na Justiça comum.
“Tive depressão, além de danos financeiros. Sou uma pessoa extrovertida, alegre, mas a gente perde um pouco do nosso jeito, uma situação dessas afeta tudo. Decidi tomar essa atitude justamente porque as ameaças ficaram muito pesadas, até em relação aos meus filhos. Meu objetivo era encorajar mulheres, mas não só as policiais, mas que os homens da polícia que são vítimas de abuso de autoridade possam falar também. Recebi muito apoio de várias pessoas por causa da minha atitude. Fiz isso para poder quebrar esse sistema”, concluiu.
Em nota para o #Santaportal, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), por meio do Centro de Comunicação Social da Polícia Militar do Estado de São Paulo, informou que a Polícia Militar recebeu a denúncia e imediatamente instaurou um inquérito policial militar para apurar rigorosamente os fatos. O Oficial foi afastado do comando do Batalhão e a investigação é conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar. Todos os fatos são sigilosos, conforme prevê a legislação.