O vídeo começa tenso. Gravado do interior de uma viatura da Polícia Militar, ele mostra o veículo abrindo caminho no trânsito pesado de uma rodovia da Grande São Paulo com a sirene ligada -o que indica que a situação é de urgência.





Na sequência, com imagens da estrada mais livre, uma voz feminina agradece pela colaboração dos motoristas e, então, a policial mostra o próprio rosto para tranquilizar a audiência. "Parabéns para vocês que acompanharam o 'stories' até aqui, mas não era nada, não", disse a soldada Ligia Lima, sorrindo.





O vídeo termina com um PM (não identificado) abrindo a porta traseira da viatura para que a soldada colocasse saquinhos de supermercado sobre o banco do veículo. Daí, a policial explica o motivo daquela pressa toda. "Achei que não ia dar tempo de comprar meu sorvete. Achei que ia fechar", diz.





A troça dos dois policiais militares de Barueri, na Grande São Paulo, foi compartilhada pela própria soldada nas redes sociais no final de novembro, viralizou entre os grupos de PMs e chegou ao conhecimento do comando da corporação. Um procedimento administrativo foi aberto pela corregedoria para apurar o caso.





A dupla já foi convocada para prestar informações, disse a PM em nota enviada à Folha. Os nomes dos policiais não foram informados, embora o de Ligia Lima seja possível ler em seu uniforme no vídeo.





"A Polícia Militar não compactua com desvios de conduta e as responsabilidades em todas as esferas de direito estarão discorridas na conclusão da apuração", afirma o texto.





De acordo com os policiais ouvidos pela Folha, a dupla corre o risco até de ser demitida da corporação e servir de exemplo na norma interna que a Polícia Militar de São Paulo prepara para regulamentar o uso das redes sociais pela tropa.





Dois outros casos também devem contribuir para a criação da norma.





Um deles é do coronel Aleksander Lacerda, que foi exonerado do comando da região de Sorocaba em agosto após postar nas redes sociais manifestações de apoio aos atos bolsonaristas do 7 de Setembro e críticas ao governador João Doria (PSDB) e aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).





Na mesma época, o sargento Renato Kenjiro Tamaki, 41, também postou vídeo chamando de "cornos" os apoiadores do presidente que participariam dos atos daquele 7 de Setembro. Ele foi transferido do local de trabalho e também passou a ser alvo de uma apuração interna.





A Folha de S.Paulo não conseguiu contato com a PM citada até a publicação deste texto.