Chuva extrema expõe fragilidade do abastecimento e leva Sabesp a acelerar obras na Baixada Santista

Por Santa Portal em 07/01/2026 às 05:00

Divulgação/Sabesp
Divulgação/Sabesp

As chuvas extremas que atingiram a Baixada Santista no último fim de semana escancararam fragilidades históricas do sistema regional de abastecimento de água, fortemente dependente de mananciais de serra e vulnerável a eventos climáticos extremos. O episódio reforçou a pressão sobre a Sabesp em meio ao pico de consumo do verão e acelerou um plano bilionário de obras estruturais. A região deve receber R$ 7,5 bilhões em investimentos nos próximos três anos.

Em apenas sete horas, o volume de chuva chegou a 200 milímetros, patamar superior ao esperado para quase um mês inteiro. O impacto foi direto na captação e no tratamento de água, especialmente no sistema Mambu-Branco, responsável pelo abastecimento de Itanhaém, Mongaguá, Praia Grande, Peruíbe e da área continental de São Vicente. A consequência foi a redução da produção de água tratada, baixa pressão nas redes e, em alguns bairros, falta d’água.

Em entrevista ao Caderno Regional, nesta terça-feira (6), o assessor de relações governamentais da Sabesp, João Paulo Tavares Papa, afirmou que o evento climático evidenciou limitações estruturais acumuladas ao longo de décadas e reforçou a necessidade de investimentos de grande porte. Segundo ele, a companhia trabalha para implantar um sistema “robusto” o suficiente para suportar tanto eventos extremos quanto os picos de consumo típicos do fim de ano.

Papa analisa dificuldades com questões geográficas e fenômenos naturais. Reprodução/Santa Cecília TV

Ao contextualizar o problema, Papa explicou que, diferentemente da Capital e do interior do Estado, a Baixada Santista não dispõe de grandes represas. O abastecimento depende majoritariamente de rios que descem da encosta da Serra do Mar.

“Com chuvas muito intensas, parte da encosta desaba junto. O rio sai do leito e carrega terra, sedimentos, árvores e galhos. A água fica extremamente barrenta, fora do padrão de possibilidade de tratamento”, explicou.

Nessas condições, a interrupção temporária do tratamento se torna inevitável. De acordo com o assessor, insistir no processo pode comprometer filtros, decantadores e colocar em risco o atendimento aos padrões de qualidade exigidos pelo Ministério da Saúde.

“Não adianta jogar essa água escura, com turbidez altíssima, numa estação de tratamento, porque ela não será tratada e não terá o padrão que é obrigatório em função de indicadores de saúde pública”, reforçou.

Diagnóstico aponta vulnerabilidades históricas

Um diagnóstico realizado pela Sabesp durante a transição do novo contrato de concessão identificou restrições relevantes no sistema da Baixada Santista. Entre os principais problemas estão capacidade insuficiente de produção para atender picos de consumo, baixa flexibilidade operacional entre os sistemas, reservação limitada de água tratada e alta vulnerabilidade a eventos climáticos extremos, como chuvas intensas e ondas de calor.

Segundo o governo paulista, esse conjunto de fatores explica as oscilações observadas em momentos críticos, como no verão, com aumento de até três vezes da população local, e demonstrou a necessidade de soluções estruturais, para além de ajustes operacionais pontuais.

Situação nas cidades

De acordo com a Sabesp, a situação começou a apresentar melhora ao longo desta terça-feira (6). Guarujá e Bertioga já tiveram o abastecimento normalizado. Santos e São Vicente recuperaram as pressões após manobras operacionais no sistema integrado.

O principal ponto de atenção segue sendo Itanhaém. A Estação de Tratamento de Água Mambu-Branco ainda opera abaixo da capacidade total, embora já tenha atingido cerca de 60% da produção, índice considerado positivo pela companhia. “O processo de recuperação do rio é um fator que foge ao controle de uma empresa de saneamento. É uma questão natural, que leva às vezes dias para fazer”, afirmou Papa.

Com isso, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e parte de Peruíbe ainda registram baixa pressão e falta d’água em alguns bairros. Para mitigar os impactos, a Sabesp mobilizou cerca de 50 caminhões-pipa, além de manter equipes em campo para remoção de troncos e detritos nas áreas de captação.

Caminhões-pipa entram em operação para minimizar os impactos da falta d’água na Baixada Santista após chuvas intensas. Divulgação/Sabesp

Reflexos em Santos e manobras operacionais

Questionado sobre registros pontuais de falta d’água em Santos antes mesmo das chuvas, Papa explicou que o sistema integrado exige transferências entre municípios em momentos críticos.

“Quando uma ponta do sistema sofre mais, é preciso redistribuir água. Essas manobras acabam refletindo em queda temporária de pressão em alguns bairros”, disse, citando áreas como Pompéia, José Menino e Campo Grande, onde o abastecimento já foi normalizado, sefundo ele.

R$ 7,5 bilhões em investimentos

Para enfrentar os gargalos históricos, a Baixada Santista deve receber R$ 7,5 bilhões em investimentos nos próximos três anos, quase três vezes mais do que o total aplicado na região entre 2017 e 2024, quando a média anual girava em torno de R$ 400 milhões.

Os investimentos fazem parte do novo modelo de concessão após a desestatização da Sabesp em 2024, fiscalizada pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp).

Entre as principais obras em andamento ou planejadas estão:

  • Adutora Santos–Guarujá
    O investimento é de R$134,7 milhões para a travessia subaquática. O projeto consiste na instalação de uma tubulação sob o canal do Porto de Santos para transportar até o Guarujá parte da água que é produzida na Estação de Tratamento de Água Cubatão. A obra beneficiará mais de 450 mil pessoas e tem o objetivo de garantir a segurança hídrica na região e deve ser concluída no segundo semestre de 2026. A travessia terá 5,56 km de extensão, sendo 700 metros de travessia subaquática, sob o canal do Porto. A capacidade de abastecimento é de 500 litros a mais de água por segundo para a cidade.
  • Pulmão de Reservação do Sistema Mambu-Branco
    Conjunto de reservatórios com capacidade total de 40 milhões de litros de água tratada, projetado para reduzir impactos durante eventos de chuvas intensas e falhas operacionais.
  • Nova Estação de Tratamento de Água Melvi
    Com capacidade de 1.270 litros por segundo, a nova ETA ampliará de forma estrutural a produção de água tratada na Baixada Santista.
Trabalhadores da Sabesp em obra de adutora. Divulgação/Sabesp

Segundo o Governo do Estado, a desestatização da Sabesp tem como objetivo antecipar a universalização do saneamento básico de 2033 para 2029, com previsão de R$ 260 bilhões em investimentos até 2060, sendo R$ 70 bilhões aplicados até 2029.

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