Por Eduardo Ricci





Sala de cineclube sempre é um ambiente de resistência, ainda mais quando esta sala leva o nome de um dos maiores cineclubistas do Brasil. Nesta sexta, a Sala Maurice Legeard de Cinema, sede do Cineclube Lanterna Mágica, da Universidade Santa Cecília (Unisanta), completa seus 20 anos de intensas atividades culturais em prol do cinema como prática social.





Para celebrar seus anos de lutas, será realizada uma live sobre a experiência afetiva do espectador de cinema, sexta-feira (24), às 17h30, no canal do YouTube @unisantaweb e na página no Facebook.





Um espaço em que muitos cinéfilos experimentam cinema e dialogam com seus medos e desejos antes mesmo de o filme ser concluído em seus afetos e memórias. Debater e expandir o ato de ver e ler um filme é a essência da programação dessa sala que chega à sua segunda década dedicada ao cinema degustado por todos os sentidos. São anos de muitas lutas e conquistas, que colocam a cidade de Santos no mapa cultural dos cineclubes brasileiros e latino-americanos.





Quando tudo começa…





O Cineclube Lanterna Mágica, da Unisanta, foi criado em 24 de março de 1999, em sua primeira sala que era a videoteca da Universidade, com apenas 25 lugares, um ventilador e muito calor, já que as sessões sempre estavam lotadas. Na época, muitos cinéfilos não tinham o aparelho de DVD e o acesso a grandes obras do cinema com qualidade de som e imagem, só era possível comprando ou alugando na Vídeo Locadora Paradiso, que já apoiava o Lanterna Mágica antes mesmo de sua criação.





Uma locadora de vídeo que ainda resiste aos tempos da guerra dos streamings. Em seguida, a Unisanta inaugurou a biblioteca da Saúde e, como arte é também cura, o Cineclube solicitou a criação de um espaço junto aos livros. A reitoria da Unisanta atendeu ao pedido e destinou uma sala com 60 cadeiras confortáveis, um telão e um bom sistema de som para ser criada a Sala Maurice Legeard de Cinema, sob a coordenação do jornalista e cineasta Eduardo Ricci, criador do Cineclube e agitador cultural da instituição.





Pouco depois, a Sala ganhou uma instalação de colagens com figuras relacionadas ao mundo do cinema e um mural interno com pinturas rupestres, trabalho artístico realizado pelos alunos, coordenados pela professora Beatriz Rota-Rossi, do saudoso curso de Artes Visuais. Já no lado de fora da sala, foi criado um mural pelo muralista e diretor de teatro Gilson de Melo Barros. Assim a sala foi ganhando sua identidade e transformando-se numa “entidade” dentro do campus, onde todos são recebidos por uma enorme pintura do rosto do cineclubista Maurice Legeard.





A escolha do nome da sala foi fácil de escolher, até 2001 nenhuma sala de cinema de Santos tinha homenageado Maurice Legeard, fato que demostrava a falta de políticas culturais para um cinema além do entretenimento, já que Maurice lutou por 52 anos para divulgar um cinema que muitas vezes não chegaria às grandes telas santistas.





O cineclubismo surgiu na cidade oficialmente em 1948, com a criação do Clube de Cinema de Santos, e dois anos depois Maurice entra para o clube, só saindo de lá anos depois para criar, em 1980, a Cinemateca de Santos, primeiramente sediada na Cadeia Velha. Hoje a cidade tem duas salas com o nome do “tigre feroz das madrugadas”, como foi chamado carinhosamente num poema, escrito por Narciso de Andrade.





Momentos memoráveis





Entre os destaques que aconteceram na programação cultural da Sala Maurice Legeard de Cinema, tem bate-papos com grandes cineastas nacionais como Sérgio Bianchi, Claudio Assis e Hugo Giorgetti, sessões em celebração a artistas como o compositor santista Gilberto Mendes e o cartunista Argemiro Antunes. Muitos dos principais criadores da Ancine passaram pelo cineclube desde sua criação, estiveram nela o Manuel Rangel, Alfredo Manevi, Renato Nery e Paulo Alcoforado.





O cineclube também realizou o 1° Fórum Audiovisual da Baixada Santista, dessa forma este espaço alternativo de cinema do litoral paulista faz parte do pensar e do fazer cinema no Brasil, sua vocação sempre foi preencher esse vazio da não existência de uma política cultural mais inclusiva para o cinema como arte e cultura.





Desse caldo cultural, nasceu o Cineme-se – Festival da Experiência do Cinema, uma programação especial de cinema expandido que dá vazão à pesquisa e estudos do LabCine-Unisanta, desde 2004, um Festival que surgiu dentro dessa sala que abarca as vontades de ver além da tela.





O amanhã se constrói agora





O futuro da sala é incerto, como tudo que tem gosto e aroma de cultura em sua essência, mesmo assim os planos são de ter um espaço no térreo da Universidade, paredes de vidro antirruídos, uma bela cortina, cadeiras retráteis, carpete aromatizado, sistema de som surround, ar condicionado, sistema para degustações cine imersivas, porta de acesso direto para a rua e uma bela cafeteria na entrada. Tudo temperado com uma programação que dialogará com todas as artes, com a gastronomia e a cidade criativa. Que assim seja!