2 de novembro

Fui cordialmente convidado a fazer parte do realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim.





Essas são as primeiras palavras do romance Os detetives selvagens (1998), do chileno Roberto Bolaño (1953-2003). Abrem a primeira parte do livro, o diário do jovem poeta García Madero, ainda um adolescente, no qual relata suas aventuras e peripécias pelas ruas e cafés da capital mexicana com o grupo de poetas liderados por Arturo Belano e Ulisses Lima, os detetives selvagens do título.





Bolaño não escolheria a data à toa, talvez apenas uma brincadeira, mas não podemos deixar de aludir ao formato narrativo: só sabemos do que fazem Arturo e Ulisses por outras vozes que não a deles. Na primeira parte, bem como na terceira, é Madero que nos revela em seu diário aquilo que dizem e fazem.





Acervo da Estante de livros de Roberto Bolaño




Na segunda parte, então, a mais volumosa do livro, com mais de 300 páginas, a narrativa transforma-se em dezenas de depoimentos - mais de 80 - de diversas pessoas tomados ao longo de 30 anos desde meados da década de 1970, em que mostram seu ponto de vista sobre a dupla.





Desde o primeiro momento, desde a primeira linha, desde 2 de novembro, Arturo e Ulisses estão sob a sombra, e só os conhecemos ubiquamente, de forma indireta, por meio do que falam deles outras pessoas, como se mortos estivessem os dois.





Também não foram escolhidos à toa os nomes das personagens: Arturo (o Rei Arthur) e Ulisses (o herói grego protagonista da Odisseia), duas promessas de aventuras. Juntando tudo isso, lembrei de algo escrito por Gastón Bachelard já citado aqui na Estante que, aplicado a Os detetives selvagens, permite traçar uma analogia entre estar morto e aventurar-se, como se a possibilidade de morrer se conformasse como seu derradeiro fim:





"Não terá sido a morte o primeiro navegador?"





"Muito antes que os vivos se confiassem eles próprios às águas, não terão colocado o ataúde no mar, na torrente? O ataúde, nesta hipótese mitológica, não seria a 'última barca'. Seria a 'primeira' barca. A morte não seria a última viagem. Seria a primeira viagem. Ela será, para alguns sonhadores profundos, a primeira viagem verdadeira."





Ainda de forma poética, acrescento a essa conversa o poema visual "Pronominais", de Paulo de Toledo, escritor santista.









Estante





Roberto Bolaño. Os detetives selvagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 (1ª edição 1998).





Gastón Bachelard. A Água e os Sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1989.