Parece que os dias de chuva do inverno deste ano já se foram, mas eles me lembraram dos versos de Rui Ribeiro Couto, poeta da penumbra e da nostalgia. Em especial, esses dias me trouxeram à mente o poema Madrigal indeciso:





 Madrigal indeciso
Rui Ribeiro Couto

Se estivesse a meu lado,
Hoje, só hoje, eu diria
O que há muito anda abafado
Em flores de cortesia.

Hoje por quê? Porque chove
E mais do que eu ninguém sente
Esta chuva que comove,
Pondo cinza pelo ambiente.

Hoje, sim, tudo eu diria,
Não por ser muita a coragem,
Mas pelas cores do dia
E a insinuação da paisagem.

Se de repente, indeciso,
Só dissesse coisas vagas,
Seria por esse riso
Com que intimidas e afagas.

Se afinal nada dissesse,
É porque, se estou contigo,
Não sei mais nada e parece
Que sabes do que eu não digo.








Madrigal indeciso faz parte do livro Entre mar e rio (1943-1946) e está incluído na Coleção Melhores Poemas, com seleção de José Almino, publicada pela editora Global em 2002, cuja fotografia na capa (imagem 1 da galeria) está em diálogo com o madrigal acima. Há décadas sem reedições de livros de Rui Ribeiro Couto, essa coletânea, já beirando os 20 anos, trouxe de volta às estantes seus versos melancólicos, permitindo que parte de sua obra siga disponível aos leitores.





Mas sua atividade poética e intelectual não está esquecida. Outros livros têm se referido a Couto, inclusive ao seu papel como diplomata. Na imagem 2 temos a capa de Ribeiro Couto 30 anos de saudade, de Vasco Mariz e Milton Teixeira, publicado em 1994 em Santos pela Editora da Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, homenagem ao autor que reúne 13 depoimentos e 17 apresentações ou textos críticos sobre sua obra escritos entre as décadas de 20 e 90.





Entre os depoimentos, acompanhamos nomes como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Josué Montelo. Uma das histórias é a de Paulo Ronai, que foge da Hungria em 1941 por intervenção de Couto, que providencia um convite oficial do Itamaraty que livra o professor de ensino secundário de Budapeste e estudioso da língua portuguesa de um campo de concentração nazista chegando ao Brasil em 13 de março daquele ano. Os dois conheceram-se em Budapeste, onde Ronai traduzia seus poemas para o húngaro. Lá ele publica Santosi Versek.





Na segunda parte, sobre sua obra, textos de Mario de Andrade , Tristão de Ataíde, Wilson Martins e Ledo Ivo. O volume reúne também um material rico de imagens, lista de obras publicadas, seleção de contos. Além do húngaro, a edição informa também da tradução de seus livros para o francês, sueco, italiano e servo-croata.







A imagem traz a capa de Carlos Drummond de Andrade e Rui Ribeiro Couto: Correspondência, livro organizado por Marcelo Bortoloti e publicado em 2019 pela Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Com cartas trocadas de 1925 até o ano da morte de Couto, o livro traz também poemas inéditos de Drummond, ainda em início de carreira, enviados ao poeta mais experiente.





Em 29 de novembro de 1925, Couto, respondendo a desabafos do mineiro sobre alguns nomes estrelados da literatura à época, nota-se certa verve venenosa do santista. Diz que é neto de Casimiro de Abreu, mas afirma que sua sensibilidade é a "mais rica da nossa literatura de ontem". Sobre a geração parnasiana, afirma: "aquela gente de mentalidade estreita [...] da qual restam uns parentes colaterais avacalhados como o Fontes", referência ao conterrâneo Martins Fontes.





Porém, é Graça Aranha o principal alvo ("em matéria de poesia é burro"). Aproveita uma estocada de Drummond e redobra o ataque:







"Uffffffffffffffffffff!





Afinal!





Esse Graça Aranha é um sujeito aproveitador [...].
Nunca me entrou.





Ele chegou [de Europa em 1921] dizendo que o Cocteau, o Appolinaaire etc., eram, em Paris, a subliteratura. Isso ele disse a mim, na redação da América Brasileira".











A referência à publicação nos remete a mais um livro: América aracnídea: teias culturais interamericanas, de Ana Luiza Beraba (Civilização Brasileira, 2008), sobre a revista/suplemento cultural Pensamento de América, que o próprio Couto dirigiu. Além de também ter sido redator do suplemento, ali ele publicou traduções de Alfonsina Storni e Fernandez Moreno (Argentina), Gabriela Mistral (Chile), Nicolás Guillén (Cuba), Longston Anghes (Estados Unidos), Alvaro Figueiredo, José Assunción Silva e Jules Supervielle (Uruguai) e Alejandro Korn (sem indicação).





  • Rui Ribeiro Couto. Coleção Melhores Poemas. Seleção José Almino. São Paulo: Editora Global, 2002.
  • Vasco Mariz e Milton Teixeira. Ribeiro Couto 30 anos de saudade. Santos: Editora da Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, 1994.
  • Carlos Drummond de Andrade e Rui Ribeiro Couto. Correspondência. Organização Marcelo Bortoloti. São Paulo: Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019.
  • Ana Luiza Beraba. América aracnídea: teias culturais interamericanas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
  • Clique e ouça versões musicadas de Madrigal indeciso e Soneto da fiel infância.