... que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer
com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?
Virginia Woolf

A pergunta acima é feita pela autora inglesa ao final do primeiro parágrafo do ensaio A paixão da leitura, no qual Woolf defende a leitura como uma atividade interessada e de responsabilidade. Para ela, a “paixão” do título é desfrutada apenas quando a leitura é feita com dedicação. Estamos aqui infinitamente distantes da relação comercial e de propriedade, ou respeitamos o livro que está em nossas mãos ou nenhuma riqueza ou prazer ele nos trará: “Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa”.

Os grandes livros requerem “frequentes e heroicos esforços” por parte do leitor, não por dificuldades sintáticas ou gramaticais, mas porque “precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer”.

I Escrita e leitura como reconstrução
É com essa leitura engajada que faço o convite para abrirmos os livros de Maria Valéria Rezende, autora homenageada na edição de 2019 no Festival Tarrafa Literária, que teve como tema a literatura, tanto a leitura quanto a escrita, como ato de reconstrução da vida.

Seus romances mais recentes, Quarenta dias (2014) e Carta à Rainha louca (2019), nos trazem protagonistas, duas mulheres, cada uma com suas circunstâncias, que têm a escrita como forma de organização do mundo: o diário no primeiro caso e uma carta (como aponta o título) na outra obra (escrevi sobre o livro em Vastas Vozes).

Em tempos de pandemia e de reconstrução de nossas próprias vidas, acompanhar as aventuras de Alice e Isabel, as protagonistas, e suas reflexões postas no papel, pode nos alimentar e fortalecer o espírito, mas de uma forma bem distante das desgastadas expressões do coaching espiritual como “superação”, “resiliência” ou a famigerada “força, foco e fé”, e bem mais próxima aos termos adotados por Virginia Woolf, “imaginação”, “compreensão” e “paixão”.

Pois ao conceber o diário de Alice, por exemplo, Maria Valéria Rezende cria uma escrita sem muita preocupação com um discurso fechado. A personagem escreve para si mesma, em um caderno universitário com a Barbie na capa, sem objetivo de ser lida ou entendida, abandonando a escrita para fazer um lanche, sair de casa ou conversar com alguém, interrupções que a autora nos comunica ao deixar frases sem conclusão e pontuação, um efeito simples na verdade, mas de grande ruído para os que esperam por frases edificantes. Na mesa da qual participou na Tarrafa Literária com o cubano Leonardo Padura, Maria Valéria Rezende chegou a lembrar de um leitor que fez reclamações inconformado com a falta de fechamento dos trechos do diário (veja abaixo).

Outro ruído provocado pela autora são as rasuras feitas por Isabel na carta que escreve à Rainha e que acompanham também o texto do livro.

Além de sua presença na mesa Literatura como Reconstrução, Maria Valéria Rezende teve em todas as mesas ao longo do evento uma participação lendo pequenos trechos dessas duas obras em que a reflexão sobre a escrita e a leitura são postas em primeiro plano. No canal do festival no Youtube, é só abrir qualquer um dos vídeos e, logo após a apresentação da mesa, ela aparecerá lendo.



Trago os trechos abaixo, já que fui incumbido de fazer a seleção, bem como a mediação do encontro de Maria Valéria Rezende com Padura:

II Quarenta dias


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“Sei, agora, por que cismei de trazer na bagagem este caderno velho vazio, trezentas folhas amareladas, com essa Barbie na capa de moldura cor-de-rosa, sabe-se lá de quem era nem como se extraviou na minha casa. Quando Norinha era menina acho que ainda nem existiam esses cadernos da Barbie. Mesmo assim, já é velho, nem é politicamente correto, do tempo em que ainda não se reciclava nada, já foi branquinho, não sei quantas árvores assassinadas e toda essa história. Cismei com ele e pronto. Porque eu quero!, por mais que a fúria organizadora da prima Elizete tentasse botá-lo no monte de velharias, quase lixo, pra vender na tal ‘garage sale’ que aprendeu com a filha que foi morar nos Estados Unidos e inventou de fazer com os meus trastes.” (p. 7)



“Sei lá!, a isso, sim, eu resisti até o fim, agarreir-agarrei-me com o caderno como a uma boia, vai ver que foi só mesmo pra dizer Não a alguém, fincar pé contra mais uma vontade alheia querendo tomar o controle daquela minha vida, já escapando feito água usada pelo ralo desde que me decidi, ou cedi?, a pedir o raio da segunda aposentadoria. Patética tentativa de resistência, mas, afinal, tinha sentido, agora acho. O caderno veio na minha bagagem por pura teimosia, mas com um destino oculto, tábua de salvação para me resgatar do meio dessa confusão que me engoliu. Talvez” (p. 9)

“Este caderno de ninguém e esta esferográfica barata que a Milena largou aqui são exatamente do que eu preciso. Um alívio, uma tarefa e coisas familiares pra antiga professora, uma fresta por onde respirar e deixar entrar alguma luz, voltar a pensar com clareza, reencontrar as palavras, minhas velhas ferramentas de trabalho. Me tranquiliza. ‘Thank you, Barbie!’ Já posso ir beber água, ver em que estado de bolor e podridão estão as coisas na geladeira abandonada e meter-me por horas debaixo do chuveiro. Depois” (p. 14)

“Quarenta dias no deserto, quarenta anos. Só agora sei exatamente quanto tempo durou essa maluquice porque Milena não pensou em arrancar os dias já passados da folhinha do Sagrado Coração de Jesus, que a Tia Brites continua a me mandar todo Natal, e quando entrei perguntei a data de hoje ao porteiro Jerônimo a me olhar como vê visagem. Pudera!, o relógio do saguão marcava seis e dez da manhã, ele devia ter acabado de chegar para render o porteiro da noite, e meu aspecto devia ser mesmo de assombração. Nada expliquei nem ele perguntou sobre a falta de malas, minha longa ausência que, de algum modo, ainda continua, eu, ausente de mim, aparentemente dentro, mas ausente deste apartamento que mais parece cenário de novela. Quarenta dias. Atravessei a Geena. Acabo de sair da quarentena. Não planejei nada, caí lá sem querer, sem me dar conta de que aquilo podia ser a barca do inferno.” (p. 18)

“Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá pra fazer meia-volta-volver. Mas tento, por isso deixo quieto lá no quarto-de-hóspedes-escritório o meu dinossauro eletrônico tão bem conservadinho e quero mesmo o manuscrito, deixar escorrer tudo direto do corpo pra caneta e pro papel. A púnica coisa que tenho ânimo pra fazer agora. O único jeito possível de livrar-me deles, expulsá-los do espaço que ocupam dentro de mim e recuperar minha própria presença é reduzi-los a tinta e papel e encerrá-los numa gaveta, ou tacar fogo para sempre. Será?

Escrever tudo, certo, já disse isso de vários modos, é o que quero e preciso, mas por onde começar? Começa-se pelo começo, claro, ‘merci, Mr de La Palisse!’, ou ‘de la Palice, comme vous voulez’. A vida recomeçando sempre” (pp. 18-19)

III Carta à Rainha Louca


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“Há já longo tempo me trouxeram para cá, com o fim de aguardar alguma nau de carreira que me levasse a Lisboa, para ser julgada pelas Cortes por um crime que me foi assacado, mas aqui me esqueceram. É para que me recordem que agora Vos escrevo, Senhora, pois que em Vós se juntam duas cousas que de raro se podem reunir: o serdes rainha de cetro e coroa, capaz de ordenar e fazer o bom e o justo, acima de todos e quaisquer súditos, de qualquer sexo, que habitem as Vossas terras, e o serdes mulher, capaz de saber o que sofre outra mulher que clama por justiça” (p. 9)

“Destinada pelo pai a casar-se um dia como herdeiro de outras vastas terras que a ele interessassem – havendo eu um dia ouvido mencionar a grande família dos Garcia d’Ávila, da Casa da torre, quando servia à mesa e desse assunto se tratava entre os senhores presentes – devia ser Blandina ser preparada para o bom desempenho nas visitas às casas-grandes, na igrejas, novenas e procissões com que se entretêm os poderosos destas terras – em seu lugar de senhora fidalga, e para isso convocaram o padre-mestre, aparentado com a mãe dela, que ministrava na capela da propriedade (...).


Muito mais do que minha irmã Blandina, beneficiei-me eu, com minha indomável curiosidade, das lições desse mestre que, notando-lhe o desinteresse e a distração, percebeu que eu, ao contrário, meio oculta por trás dos reposteiros, sempre atenta às suas lições, escrevia com um pedaço de carvão nas folhas macias que envolvem as espigas de milho-verde, cuidadosamente recolhidas da cozinha e deixadas por dias sob o peso de um cepo ou de um pilão para que secassem planas como folhas de papel. Muito mais a mim do que a ela passou a dirigir sua atenção, emprestar seus livros e exigir zelo nos estudos. Mal sabia ele o tesouro e a salvação que me concedia e o quanto me haveria de servir esse saber!” (pp. 59-60)

“Por um tempo que me pareceu sem fim, tivemos de enfrentar o olhar duro e frio do dono de tudo a nos mirar sem piscar, ora uma, a desonrada, ora a outra, a cúmplice da desonra, como para subjugar-nos inteiramente ao seu ilimitado poder. A Sinhá, parecendo extremamente mortificada, por sua vez não nos podia ver, mantendo abaixadas as pálpebras frementes de sob as quais escorriam vez por outra escassas lágrimas. Cri que o homem nos haveria de açoitar como aos cativos, mas não trazia vara nem relho nas mãos vazias. Parecia confiar no simples poder de seu olhar para submeter-nos. Sua filha não o pôde sustentar e logo esmoreceu, cerrando os olhos, imóvel quase como morta. Eu, sim, movida pela indignação e pelo ódio, fui capaz de insolentemente manter minhas vistas firmes nas suas, a medir forças com ele, até que desistiu de me intimidar e desviou os olhos para a direção de sua pobre esposa como para convocá-la a secundá-lo em grave decisão. Tive dó, muito dó da pobre Sinhá, vendo-a oscilar para frente e para trás, prestes a cair, percebendo então o quanto ela, tanto ou mais do que nós, era sua prisioneira e vítima.” (pp. 88-89)

“Nem mesmo as escravas e eu recebíamos da cozinha do convento o suficiente para manter-nos com disposição para cuidá-la [de Blandina]. Sem saber como resolver tal situação, cientes de que nada poderíamos esperar dos senhores do Castro, e nem tínhamos outros parentes, padrinhos ou benfeitores a quem pedir ajuda, saí a aconselhar-me com a experiente Antónia, imaginando que talvez pudesse vender meus serviços de escrivã e leitora como vira que faziam vários homens, alguns deles clérigos, abancados sob os arcos de prédios públicos e igrejas abertos para os largos e praças, recebendo pagamento por ler ou escrever cartas e outros papéis para os iletrados que eram tantos, quase todos.” (p. 100)

“Desde que me deu Sor Adélia a tarefa de substituí-la, não havia de queixar-me de tédio, pois ali na biblioteca, cuja chave entre meus seios agora habitava, suspensa de um cordão de elos de cobre a tingir-me cada dia a pele de um verde azinhavrado, custoso de alimpar, mas considerado por mim de pouco custo pela felicidade de poder abrir a qualquer hora as páginas de um livro, como asas de um pássaro, avoava para muito longe, livre daqueles muros e grades.

Ao receber o estipêndio de minha primeira semana como escrivã bem paga, voltei às ruas e, além de prover-nos de alimentos, pude adquirir uma pequena e rústica viola, por certo furtada de outros pelo vendedor, como me sugeriram sua pressa e seu olhar assustado para um e outro lado.” (p. 104)

“Eu já não tema as ruas, certa de que poderia viver de minha única riqueza, a qual ninguém me poderia roubar, o meu saber das letras, legado precioso de nosso bom padre-mestre. Mais me enriqueci do tesouro das palavras e pensamentos nos anos que passei metida no cartulário do convento de monjas clarissas da Bahia, como serva de Dona Blandina, amada por mim como uma irmã de sangue que nunca tive, mas cuja morte, por cruel mal de amor pelo qual ali seu malvado pai a encerrou, não pude evitar. Sentia-me chamada a prosseguir pelo mundo e, talvez se me fosse dada essa graça, denunciar em grandes letras e alta voz o mal que lhe haviam feito e a quase todas as mulheres desta colônia, a quem nos pudesse socorrer, como faço agora escrevendo à vossa Majestade.” (pp. 113-114)

“Correu logo pelas redondezas, à boca pequena, a excelência de meus préstimos. Eram várias as encomendas a chegar-me, pelas mãos de meu aparente escravo, para cópias de poemas de muitos que ali se julgavam grandes poetas, e tantas fiz que logo me acostumei a imitá-los, compondo eu mesma os versos, pois para isso não me faltavam palavras tanto para versos de sublime amor, ou laudatórios ou piedosos, como para os de mofa e troça leve e divertida ou os descaradamente desavergonhados e satíricos que eu assinava com nomes de fantasia, criados por mim ou replicados de outros circulantes e famosos na região sem que ninguém assumisse abertamente sua autoria.” (pp. 132-133)

Estante
Maria Valéria Rezende. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

Maria Valéria Rezende. Carta à Rainha louca. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019.

Virginia Woolf. A paixão da leitura. In: O sol e o peixe. Prosas poéticas. Seleção e tradução Tomaz Tadeu. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2016.

Literatura como reconstrução - Festival Tarrafa Literária


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