Olá amigos,





Por anos ouvi falar que minha transição de gênero aos 42 anos era coisa de "gente doida" ou muito corajosa, pois estava jogando tudo para cima e mergulhando em um lago com águas turvas e desconhecidas.    





E eu bem sei o quanto foi “turva” essa visão de futuro. Dos receios, dos desafios e medos que ainda hoje, quase 6 anos depois, ainda enfrento na jornada.





Outro dia estava lendo a respeito do termo DISRUPTURA e percebi o quanto esse termo se aplica ao processo que vivi... e ainda vivo.   Aliás, não é exclusividade minha, mas de todas as pessoas que fazem a transição de gênero ou assumem sua orientação ou qualquer aspecto pessoal que “fuja da caixinha” que a sociedade impõe como “aceitável”.   Esse tal processo de “sair do armário”, como se diz no popular.





Disruptura, pelo conceito é romper com um processo, um padrão ou um fluxo estabelecido e pode ter duas conotações.   A primeira, de atrapalhar ou interferir no funcionamento das coisas, em relações, em procedimentos, causar o caos de alguma forma.   E a segunda, muito mais aplicável no caso de quem “rompe” para poder ser quem se é, diz respeito à quebra de paradigmas, mudança, inovação e evolução.   





Muitas das conquistas sociais e tecnológicas dos nossos dias não seriam possíveis sem ações disruptivas, sem o pensamento diverso.   Geocentristas, terraplanistas e tantos outros exemplos, ridicularizavam quem apresentasse outras idéias das deles, hoje todas sedimentadas em nosso meio.    E assim acontece em todas as áreas da diversidade do pensamento humano, inclusive com as características de cada ser humano.





Romper esses padrões significa estar fora da “pasteurização” instituída ao longo dos séculos.   Foi assim com os negros em busca de liberdade e direitos, foi igualmente dessa forma pela luta das mulheres pelo direito ao voto e trabalho, entre outros tantos exemplos, onde incluo a luta pelos direitos da população LGBT.  





Em todas essas pautas, houveram avanços, sem dúvidas, mas definitivamente ainda há muito o que avançar para vencer o racismo, a misoginia e a LGBTfobia, em que pese as leis que cercam o tema.





Voltando para o meu local de fala, minha disruptura me empurrou para um outro verbo que, igualmente, só vim a aprender pela necessidade de conjugá-lo para sobreviver:  RESSIGNIFICAR.





Após minha transição e durante todo esse processo disruptivo, tive que ressignificar não só minha vida pessoal, não só minha jornada profissional, mas principalmente meus conceitos sobre vários aspectos sociais que antes, vivendo "blindada" pelos padrões sociais durante tantos anos, não me saltavam aos olhos.





Assuntos como inclusão e diversidade, que antes eram apenas discursos que ouvia, passaram a fazer parte do meu dia a dia, dos meus estudos e da minha inserção no ativismo pelo respeito incondicional, independente de bandeiras.





Outro ponto que ilustra o ressignificar foi a mudança de área de atuação profissional.    Trabalhei por quase duas décadas em atividades logísticas voltadas ao Porto de Santos e, após buscas e lutas, tive de ressignificando minhas metas profissionais e ingressar em jornada no ramo de saúde, aproveitando as oportunidades e buscando sempre essa transição, essa mudança, essa inovação.





E ressignificar não é algo apenas para a os aspectos pessoais, profissionais ou de formação.    Ressignificar é uma constante, um exercício contínuo de rever nossas posições face a novos cenários, novas descobertas, novas experiências...  É entender que nossa experiência ou a nossa “verdade” pode ser diferente da do outro, e isto pode acontecer sim. 





Repensar nossos conceitos e preconceitos, rever posições anteriormente aceitas como normais, olhar com um pouco mais de empatia a pauta dos outros, perceber que nossos privilégios interferem sim em nossas experiências e histórias... tudo isso é parte do RESSIGNIFICAR que devemos ter em cada um de nós.  





Estar aberto a mudanças e novos conceitos com certeza contribui para que sejamos melhores em tudo, em nosso circulo social, em nossa vida profissional, em nossa vida como um todo. Flexibilidade e resiliência, Características fundamentais para mudar.





E que essa disruptura de padrões e ressignificação seja cada vez mais a chave para a busca pelo acolhimento ao diverso, para que no final a chamada inclusão seja algo mais concreto e menos romântico.





Transcender é disrupção. Transcender é ressignificar.  E assim vamos caminhando... e transcendendo.





Um abraço a todos.





Flavia Bianco