Um pedestre de rosto grave como Dante Alighieri durante a corrida para o último metrô, uma vizinha inglesa nos anos 80, lembranças de amizades que se formaram entre o desbunde dos anos 70 e o fim da ditadura, um amante da juventude agora grisalho pai de dois filhos vislumbrado num domingo de Philip Glass no Ibirapuera...





Assim costumam aparecer boa parte das persogens dos “contículos” de Flávio Viegas Amoreira (na foto, em frente ao ateliê de José Maris Costa Villar) em seu novo livro Apesar de você, eu conto, nos quais o pessoal e o histórico se iluminam em textos para serem lidos em um só fôlego, como na peça (sim, uma peça) Philip Glass:





“domingo no parque para ouvir philip glass ibirapuera cheio tantos anos depois de ouvir philip glass em sãopaolo quem diria público raro domingo de sol sozinho nem todos podiam ouvir philip glass num domingo de sol no parque  quem diria ver e ouvir philip glass em sãopaolo a possibilidade de encontrar amor do passado algum desafeto não não é remota tribos cruzamos as mesmas sempre tive comigo que desde paris a sãopaolo centros cosmopolitas guardam meigo provincianismo quantas vezes reencontrei colegas da faap no tatuapé colegas de ibiúna em festinhas no copan colegas do dante alighieri em reuniões do partidão na freguesia do ó naquele domingo saí cedo de guarapiranga casa meiga mato estúdio nada recatado no ibirapuera qualquer canto ponto para ouvir philip glass nenhum tumulto sentei num ângulo bom quando revi Fabrizio reconheci apesar de agora com ares de domingo em sãopaolo…”





Apesar de você, eu conto será lançado em São Paulo nesta sexta-feira (10/6) na Livraria Kotter, espaço da editora, a partir das 16 horas. A livraria fica na Rua Conselheiro Ramalho, 701, loja 20.





Escrito, nas palavras do autor, durante “noites esquecíveis entre março, abril e maio de 2020”, dentro da primeira onda da pandemia ou, novamente em suas palavras, durante o “tsunami existencial e histórico”, os contos do livro, um inventário, perfazem uma trajetória que começa na lembrança da chegada do homem à Lua, a adolescência nos anos 70, a guerrilha urbana, a chegada de outra epidemia, a AIDS, o fim da União Soviética, tudo entrelaçado às descobertas do amor e do sexo.





Durante o lançamento em 7 de maio na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos, contou o poeta que o livro foi escrito em um ímpeto, uma vontade de “restituição de meus tempos analógicos”.





Além das passagens, simultaneamente históricas e pessoais, tal ímpeto revisita também um tom e uma escrita mais inventiva, solta mas não largada, livre de sinais de pontuação, característica de seus livros dos anos 2000.





Penso especialmente em Edoardo, o Ele de Nós (7Letras, 2007), que já demonstra em seu título essa relação entre o pessoal, o histórico e o objeto de desejo do autor, triângulo que dá forma e linguagem aos contos de agora, só que, ao invés da pandemia, o ataque às torres gêmeas em Nova York em 2002:









“O universo é um indivíduo que finge viver enquanto rememora ou matuta. Edoardo, as torres choram cada um abduzido, você safou-se, você é minha torre gêmea e olha como fica mal português retraduzido do espanhol ao ianque… geografia nenhuma vale uma esquina / vivemos em casa só até arremessados do útero… só vivo se acho tudo estranho: você não estranho já que quero estar contigo. Estranhar é encomenda embrulhada de perguntas. Volta ao parapeito mira donde me salvas-te pular d’olho ao orifício: quando o monte me vê pede misturar-se Ele. Edoardo, você é onda monte navio a costa inteira mão que mabraçam.”





Assim como nas personagens identificadas na abertura deste texto, Edoardo representa o espaço complexo da literatura urbana moderna, que põe em crise desde o romance moderno – desde Balzac, afirma o geógrafo Franco Moretti – o sistema binário do conto de fadas (formado pela oposição entre o espaço inicial e o outro reino), substituído pela “fórmula” da Comédia Humana: a cidade-roleta repleta de, ainda usando as expressões de Moretti, “agentes independentes e interações compósitas”.





Assim explica o geógrafo italiano especilizado na espacialidade do romance moderno:





“Uma pluralidade de agentes. Melhor: três agentes. Este é o abre-te Sésamop da narrativa de Balzac: uma estrutura profunda tão claramente delimitada como a binária, mas diferente. Triangular. O campo do herói, do antagonista, e daí um terceiro pólo narrativo; e un enredo que, ao longo do tempo, se torna mais e mais a história deste terceiro pólo. A história do Terceiro. De um Terceiro independente, autônomo.”





É por meio desse Terceiro que surge na trama do romance moderno – e ainda em Flávio e nos contemporâneos – o pano de fundo histórico, a queda das torres, a pandemia, isto é, a “sobredeterminação social”, expressão traduzida em forma poética no próprio título do romance de 2007 ( “…o Ele de nós”), que se desdobra e se reelabora na frase final:





“David mora no espaço, Edoardo é tempo: ao lado de mim tem uma frase em desfazimento, eu eles: sempre é ele soma de nós”.





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Estante





Flávio Viegas Amoreira. Apesar de você, eu conto. Curitiba: Kotter Editorial, 2022.





Flávio Viegas Amoreira. “Edoardo, o Ele de Nós”. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007.





Franco Moretti. Atlas do romance europeu 1800-1900. Tradução Sandra Guardini Vasconcelos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.