Seja talvez coincidência (ou não) o fato de um homem a favor da liberdade humana, abolicionista, ter servido de inspiração para o nome desta via tão importante de Santos: a avenida Afonso Pena. O motivo você vai entender adiante. O fato é que esta avenida é estratégica na cidade, esfaqueada por ruas, ruelas, pequenas e grandes praças, ciclovias e muitos cruzamentos. Se estivermos a pé, é necessidade confirmar o olhar, duas ou três vezes antes de atravessar. Isto para os que têm medo da morte.





São milhares de veículos, bicicletas e pedestres trafegando todo santo dia. E embora a via possua uma localização relevante, sendo escolhida como roteiro do VLT (veículo leve sobre trilhos), pode ser que você, assim como eu antes de escrever este texto, não tenha notado a quantidade de templos religiosos de diferentes denominações que a avenida abriga em seus 4 quilômetros de extensão.





Da Encruzilhada até a Ponta da Praia são pelo menos 11 igrejas, templos, casas de oração, salões de reza e esotéricos e as mais variadas descrições que se possa encontrar. É como se avenida, barulhenta e preta do asfalto, fosse um braço estendido a estes diferentes credos e a todas as almas crispadas pelo sofrimento humano (porque, via de regra, os indivíduos se apoiam no divino, milagroso e oculto quando o desalento bate à porta).









Percurso que acolhe muitos credos









Iniciamos nossa jornada na Avenida Afonso Pena, número 176, com a Fraternidade Espírita de Expansão Cristã. A 400 metros dali está a primeira igreja evangélica, a Peniel Macuco, e 200 metros à frente está a segunda, denominada Igreja Última Hora.





Mas foi a apenas 32 metros desta última que aparece o templo que deu origem a este texto: a Mesquita Islâmica de Santos, uma edificação dos anos 1980. Suntuosa, se destaca pela arquitetura cheia de curvas e o pé direito altíssimo, contrastando com a urbanidade cinza. Além de possuir os tradicionais minaretes, mishrab (indica a posição de Meca) e mimbar (púlpito), o local também é sede da Sociedade Beneficente Islâmica do Litoral Paulista que recebe a comunidade muçulmana da Região.





A 138 metros da Mesquita, aparecem dois prédios católicos: a Irmandade São Benedito e a antiga Igreja São Benedito. Olhando para o outro lado da avenida está a Fraternidade Eclética, uma comunidade esoteroespiritualista instalada em uma casa de padrões antigos. Logo depois, a apenas 64 metros, nota-se a Ordem Rosacruz, organização internacional mística-filosófica. Uma imponente construção com o símbolo rosacruz desperta a curiosidade de quem por ali passa





Seguimos por mais um quilômetro no sentido Ferry-Boat. Fincada logo após uma charmosa praça central vemos a Paróquia Nossa Senhora de Aparecida, ampla e agregadora, bastante movimentada e frequentada pelos fieis do bairro. Embora o endereço da igreja não seja propriamente a avenida Afonso Pena, tomei a liberdade poética de incluí-la neste caminho ecumênico.





Seguimos 400 metros adiante, já na Ponta da Praia, e avistamos a tradicional Igreja Evangélica Assembleia de Deus. Encerramos nosso percurso andando pouco mais de 100 metros, onde encontramos o Ministério Evangélico Fontes de Águas Vivas.









Dinâmica da urbanidade e diversidade religiosa, lado a lado









São muitas denominações, diferentes crenças e doutrinas, assim como a arquitetura. Algumas possuem a fachada escrita em romanas letras, outras com letreiros recheados de tecnologia, luzes e o que mais houver para chamar a atenção. Claramente a avenida não foi aberta com o intuito de abrigar tantos templos, igrejas, salões. Porém, ainda sendo obra do acaso, a dinâmica desta urbanidade ultrapassa a estrutura física e é um retrato da diversidade religiosa do País, inegavelmente sincrético.





A avenida mais ecumênica de Santos é tão somente uma constatação. O sujeito comum entende a ideia de diversidade. Se pratica? Não sei dizer, tenho lá minhas desconfianças; basta puxarmos pela memória a guerra político-religiosa desencadeada na última eleição presidencial. Quando Religião e Estado dão as mãos é deveras perigoso.





Mas isto é apenas uma impressão desta colunista. Ainda assim, voltando ao foco desta conversa, é lindo que a avenida Afonso Pena tenha este simbolismo e que possamos direcionar nosso olhar antropológico para esse lugar que acolhe movimentos religiosos e espiritualistas contemporâneos. Durante a noite, no gelo da madrugada ou manhã morna a avenida é a mesma, os templos são os mesmos; os espaços modificam ninguém. Quem sabe os deuses, as forças superiores, olham e aguardam, do lugar onde estão, a mudança na alma daqueles que entram e saem dos templos.





Te espero na nossa próxima parada pela Baixada Santista, sempre com um olhar curioso sobre a Região. Até lá!









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Um 'retrato' do Google Maps identifica alguns dos diversos templos da Av. Afonso Pena




A Av. Afonso Pena tem quase 4 km de extensão




Fraternidade Espírita: primeira parada do percurso




Mesquita Islâmica de Santos que despertou o olhar sobre a avenida




Mesquita Islâmica por dentro. Foto: Site Novo Milênio




Prédio da Ordem Rosacruz desperta a curiosidade




A antiga Igreja São Benedito e o seu Salão Paroquial




Igreja evangélica Peniel




Embora não esteja propriamente na Afonso Pena, a Igreja da Aparecida está incluída no percurso ecumênico




Fotos: Morgana Monteiro